Qual a mensagem da Encíclica Dilexit Nos
Na Carta Encíclica Dilexit Nos, o Papa Francisco faz uma profunda reflexão sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus, abordando o tema em seus aspectos antropológico e filosófico, além de considerar o seu matiz histórico dentro da experiência de diversos santos e de avançar nos aspectos práticos e sociais da devoção — elementos muito comuns nos documentos de seu pontificado.
O Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo precedeu-nos e espera por nós, conforme nos lembra São João: “Ele amou-nos primeiro” (1Jo 4,10). Mas, afinal, o que é o coração? No grego clássico, o termo remete à parte mais íntima do ser humano; já Homero refere-se a ele não só como o centro do corpo, mas também como o centro da alma e da espiritualidade. Em diversos autores, o coração aparece como o lugar onde são forjadas as decisões importantes; resumindo, ele é o ponto que une alma e corpo, conferindo a tudo o que a pessoa sente uma base de sentido e orientação.
O coração humano e a cultura das aparências
No coração, guardam-se os segredos que não desejamos revelar a ninguém; é dele que brotam os nossos pensamentos e palavras: “Pois a boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12, 34c). Porém, nos dias de hoje, diante de uma vida marcada pelo ativismo e pela necessidade de aparentar aos outros aquilo que os atrai para suprir nossas carências — vivendo, assim, uma vida de aparência, dissimulação e engano —, o nosso coração é danificado, é pervertido, e a nossa verdade fica soterrada debaixo de toda essa superficialidade, tornando difícil o autoconhecimento e mais difícil ainda conhecer o outro.
Contudo, ao confrontar os questionamentos que nos arrancam da superficialidade e da mera encenação social — indagações como:
- “Quem sou eu de verdade?”
- “O que de fato busco?”
- “Qual o propósito da minha trajetória?”
- “Para que finalidade fui colocado neste mundo?”
- “De que forma pretendo mensurar minha vida em seu ocaso?”
- “Que significado desejo imprimir em cada experiência vivida?”
Somos, por força dessas mesmas perguntas, inevitavelmente transportados ao âmago mais sagrado do nosso coração.
O encontro com o Sagrado Coração de Jesus
No mais profundo e sagrado do nosso coração — lugar da aliança com Deus (CIC 2563) —, podemos encontrar Jesus e o seu Sagrado Coração. Mergulhados nesse Coração, somos curados de tudo o que vivemos; nele, o Senhor nos visita com os seus gestos e palavras de amor.
- Ele não nos condena: “Eu não te condeno” (Jo 8,11);
- Mostra-se interessado nos nossos desejos: “Que queres que eu te faça?” (Mc 10,51);
- Convida-nos a ter confiança: “Filho, tem confiança” (Mt 9,2);
- Permanece próximo mesmo quando estamos no erro, sendo “amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11,19).
- Chama-nos, outrossim, para uma vida de felicidade, tal como fez com a mulher adúltera: “Vai e não peques mais” (Jo 8,11).
É a partir desse encontro com Jesus que iniciamos uma nova vida e passamos a melhor nos relacionar com o próximo, tendo o nosso coração protegido e guardado no Seu Sagrado Coração.
A partir dessa experiência com o Filho, podemos perceber um Coração que nos ensina a ser obedientes e adoradores: “Eu dobro os joelhos diante do Pai” (Ef 3,14); e confiantes: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Ele, que sempre foi amado — “por me teres amado antes da criação do mundo” (Jo 17,24) —, ensina-nos, através dessa experiência Cristológica, a ser filho e a confiar mais em Deus Pai.
A vivência Trinitária no íntimo do ser
Ora, se o Espírito Santo é o resultado do amor entre o Pai e o Filho — o vínculo que une ambos —, onde mais viveríamos essa experiência com o Paráclito, de maneira tão intensa, senão no Sagrado Coração de Jesus, a sua obra-prima, segundo São João Paulo II? No mais profundo e sagrado do nosso íntimo, fazemos uma experiência singular com o Coração de Jesus e, consequentemente, com a Trindade Santa.
Convém notar que a imagem de Cristo com o seu coração, ainda que de maneira nenhuma possa ser objeto de adoração, não é uma imagem qualquer, entre muitas outras que poderíamos escolher. Não é algo inventado de modo abstrato ou desenhado por um artista, «não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira». Encíclica Dilexit Nos, Papa Francisco
Sinal visível do invisível
O importante é perceber que, ao contemplar essa imagem, somos levados a contemplar o próprio Cristo como um sinal visível de um amor invisível, mas concreto; um amor que se dilata além do peito buscando, alcançar nossas misérias e curá-las. Ao contemplar essa imagem, vemos o próprio Evangelho, que é a representação escrita desse símbolo: ambos tocam-se e unem-se mutuamente.
Que este texto tenha contribuído para ajudá-lo a entrar um pouco mais neste mistério.
Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós.
De seu irmão em Cristo,








