Como Perdoar 70×7 na Comunidade
Nós não podemos nos esquecer da obra de perdão que Deus realizou em nossa vida. É fundamental para a comunidade cristã caminhar fazendo memória constante da graça de um perdão imerecido, pois essa memória é o motor que move as relações comunitárias.
No discurso do capítulo 18 do Evangelho de Mateus, Jesus encerra seus ensinamentos sobre a vida comunitária — seja ela a família, o trabalho, a paróquia ou a comunidade religiosa — apresentando a lição sobre o perdão.
A comunidade não cresce com o desaparecimento das dificuldades, pois os desentendimentos no relacionamento humano são inevitáveis. Como nos lembrava o Padre Jonas Abib, inspirando a regra de vida da Canção Nova e seguindo a doutrina da Igreja, a comunidade se solidifica quando cada um aprende a perdoar 70 vezes 7.
Deus é a Fonte de Todo Perdão
O Evangelho de Mateus (Mt 18, 21-35) nos ensina que o perdão é um aprendizado contínuo. Sozinhos, pela nossa natureza adâmica marcada pelo ressentimento e pela busca por vingança, não somos capazes de perdoar. Não temos “auréola” — como bem destacou a celebração de Santa Dulce dos Pobres —, e por isso precisamos recorrer a Deus, a única fonte do perdão.
Jesus nos revelou essa verdade no alto da Cruz. Ao olhar para os seus algozes e caluniadores, Ele declarou:
“Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem.”
É no Pai do Céu que devemos colocar nosso coração para aprender como perdoar ao próximo quando houver uma ofensa.
A Experiência de Pedro e a Mudança de Mentalidade
Ao se aproximar de Jesus, o apóstolo Pedro — conhecido por seu temperamento sanguíneo e impulsivo — faz uma pergunta crucial: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”
Pedro não falava apenas como porta-voz, mas como alguém que experimentou em primeira pessoa a misericórdia. Ele negou a Jesus três vezes, inclusive praguejando, e mesmo assim foi profundamente perdoado. Quem experimenta o perdão de Deus é levado a rever suas ideias em relação àqueles a quem ainda recusa perdoar.
A pergunta de Pedro refletia a mentalidade da época:
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A lei do talibão: A justiça antiga do “olho por olho, dente por dente” (uma ofensa, uma punição).
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A espiral da violência: No livro do Gênesis, a vingança de Caim seria sete vezes, enquanto a de Lameque seria 77 vezes (Gn 4).
Jesus quebra radicalmente esse ciclo de raiva e vingança. Ele responde: “Não te digo até sete, mas até 70 vezes 7.”
Isso simboliza um perdão matemático de 490 vezes ao dia — ou seja, perdoar a cada 3 minutos! Enquanto carregamos mágoas por anos, Jesus nos convida a acolher um perdão ilimitado, libertando nosso coração do ressentimento que corrói e destrói.
A Parábola do Devedor Incompassivo e a Dívida Impagável
Para ilustrar o perdão sem limites, Jesus contou a parábola do rei que fez o acerto de contas com seus servos. Um deles devia 10.000 talentos — o equivalente a cerca de 330.000 kg de ouro ou 200.000 anos de trabalho. Uma quantia absurda para mostrar o tamanho da nossa dívida diante de Deus e o quanto somos amados gratuitamente.
O servo prostra-se e clama por paciência (macroil — invocando a alma grande e magnânima de Deus). O rei, movido de compaixão, solta o servo e perdoa-lhe toda a dívida.
Nós nunca seremos capazes de pagar o que devíamos a Deus com nossos próprios esforços. Quem pagou a nossa dívida foi o Cordeiro Imolado na Cruz. Portanto, vivemos diariamente da misericórdia e do perdão divino.
O Perdão Como Libertação e Remédio para a Alma
A falta de perdão adoece a mente e o corpo. A própria psicologia confirma os malefícios do rancor e do ressentimento, gerando sintomas físicos e doenças psicossomáticas. Perdoar é uma atitude de inteligência e saúde espiritual.
A palavra grega para perdoar usada no texto (aphíēmi) significa soltar um prisioneiro. Como lembra a reflexão espiritual:
“Perdoar é libertar da cadeia do nosso coração aquela pessoa que nós mesmos aprisionamos.”
Quando Deus nos perdoa, Ele esquece as nossas culpas (Salmo 130). Contudo, frequentemente oferecemos um perdão mesquinho e calculista, desenterrando falhas passadas de anos atrás.
Se você quer ser feliz por alguns instantes, vingue-se; mas se quer ser feliz para sempre, perdoe. O perdão é o nosso respiro de vida: inspiramos a misericórdia de Deus para expirarmos o perdão aos nossos irmãos.
O Dever de Misericórdia na Vida Comunitária
Ao sair da presença do rei, aquele mesmo servo perdoado encontrou um companheiro (cumpis — aquele que come do mesmo pão) que lhe devia apenas 100 denários (equivalente a 3 meses de trabalho). Em vez de usar de compaixão, agarrou-o pelo pescoço e mandou prendê-lo.
Quantas vezes fazemos tempestade em copo d’água por ofensas irrisórias, aplicando uma lupa na fraqueza do irmão enquanto ignoramos a trave no nosso próprio olho? Todos compartilhamos a mesma condição humana de pecadores: eu peco, tu pecas, nós pecamos. Não fomos constituídos juízes de ninguém.
Quando nos aproximamos do Sacramento da Confissão e recebemos a absolvição do sacerdote, saímos com o dever de ser misericórdia para quem cruza o nosso caminho.
Deus trouxe você até aqui para libertar o seu coração. Não vale a pena carregar mágoas e ressentimentos do passado. É hora de abrir as portas do cárcere interior e colocar todos em liberdade.




