O que o Livro de Jó nos ensina sobre a verdadeira fé?
O Livro de Jó, que faz parte da literatura sapiencial da Bíblia, é uma obra que chama muito a nossa atenção. Serei sincero: os grandes pregadores da “teologia da prosperidade” — aquela que diz que se você buscar a Deus, ficará rico — nunca pregam sobre Jó. Isso ocorre porque este livro não fala de prosperidade financeira, mas sim de provação.
Deus tem uma medida de provação para cada um de nós. O Livro de Jó combate um pensamento muito presente na época em que foi escrito: a teologia da retribuição. Era a ideia de que fazer uma novena obriga Deus a nos dar o que queremos, e que se alguém está sofrendo, é porque cometeu um pecado ou é uma pessoa ruim. Jó era um homem justo e bom, mas Satanás, o acusador, questionou a gratuidade de sua fé.
Satanás argumentou diante de Deus que Jó só era fiel porque era abençoado com rebanhos, filhos saudáveis e boa reputação. O tentador afirmou: “Se o Senhor tirar isso, ele vai te negar”. Deus, então, permitiu a provação na vida de Jó, com uma única condição: poupar a sua vida. O objetivo não era destruí-lo, mas testar onde estava, de fato, o seu coração.
A fé nas mãos de Deus ou no coração de Deus?
A pergunta central é: o coração de Jó estava no “Deus das coisas” ou nas “coisas de Deus”? O coração dele repousava nas mãos de Deus (naquilo que Ele pode dar) ou no coração de Deus? Muitas vezes, a nossa fé é falha porque tratamos Deus como um caixa eletrônico: colocamos a oração e esperamos que saia dinheiro, cura ou bênçãos. Deus pode curar e abençoar, sim, mas a pergunta devastadora do livro de Jó é: aonde está o meu coração?
Se hoje Deus permitisse que perdêssemos coisas importantes, continuaríamos fiéis? A nossa fé cresce e se solidifica quando o nosso único e maior tesouro é apenas Deus.
Como ensina São João da Cruz, mestre da vida espiritual, conforme crescemos na intimidade com Deus, Ele permite purificações para nos desapegar. Desapego de nós mesmos, da nossa imagem, do dinheiro e até das pessoas. O que é bom não pode se tornar um ídolo. Seus filhos, seu marido, sua esposa, ou o seu status na paróquia não podem ser deuses na sua vida. Se um padre, pastor ou bispo te decepcionar e você abandonar a igreja, significa que a sua fé estava na imagem humana, e não em Jesus Cristo.
A adoração no meio da tempestade
Jó passou por um teste terrível. Mensageiros chegaram avisando que seus bois foram roubados, suas criações queimadas e seus filhos mortos. A resposta de Jó, no entanto, é fantástica e confunde o inferno: “Saí do ventre da minha mãe nu, e nu voltarei para lá. Deus deu, Deus tirou. Louvado seja o nome do Senhor”.
Nada destrói mais as forças do mal do que um cristão que tem a coragem de adorar no meio da tempestade. Nós associamos o louvor apenas às vitórias, mas a adoração é, sobretudo, para o deserto. É para os momentos em que as coisas não fazem sentido. Jó chegou a amaldiçoar o dia em que nasceu, devido à dor extrema, mas nunca amaldiçoou o nome de Deus.
A toalha de Jesus contra a coroa dos homens
Na vida cristã, o pior inimigo muitas vezes é o nosso próprio ego: a vontade de ser o centro das atenções, a falta de humildade e a indisposição para servir. Vemos isso no Evangelho. Jesus havia acabado de anunciar aos apóstolos que seria entregue e morto em Jerusalém. Logo em seguida, Ele os flagra discutindo sobre quem era o maior entre eles.
Eles não haviam entendido nada. Enquanto Jesus lhes oferecia uma toalha — para lavar os pés uns dos outros, um trabalho reservado aos piores servos da época —, eles buscavam uma coroa. Jesus propunha a escada da humildade; eles queriam o elevador do status.
Jesus então coloca uma criança no meio deles (alguém sem nenhum status social naquela época) e ensina a regra de ouro: quem quiser ser o maior, faça-se pequeno. Quem quiser ser grande, sirva.
O valor invisível do serviço escondido
O melhor remédio para o orgulho e a vaidade é servir fazendo aquilo que ninguém quer, especialmente quando ninguém vê. Você que é mãe, cujo trabalho em casa parece interminável: a louça que se multiplica, o cheiro de gordura e alho que substitui o perfume no preparo do almoço, o cansaço das madrugadas. Saiba que, no esconderijo do seu lar, o céu se alegra com a sua oferta. Servir a uma criança é servir ao próprio Jesus.
Da mesma forma, o céu celebra o pai que acorda cedo, enfrenta um mercado de trabalho duro e competitivo para prover o sustento da família. Mesmo que seus filhos e sua esposa às vezes não percebam ou não verbalizem toda a sua luta, Deus vê os seus pequenos sacrifícios. A maior vitória cristã acontece nos bastidores.
Passos práticos para viver o amor e o serviço
Cristo se esvaziou de Si mesmo, assumindo a condição de servo, e por isso Deus o exaltou. Só quando nos esvaziamos do nosso ego, Deus encontra espaço para nos preencher. Pessoas muito cheias de si mesmas não têm espaço para Deus.
Para matar esse ego que grita dentro de nós, tome dois propósitos práticos para a sua vida a partir de hoje:
-
Faça pelo menos dois atos de serviço escondidos por dia: Ajude alguém, organize algo, limpe algo sem que ninguém saiba que foi você. A santidade ordinária se constrói nos pequenos gestos diários.
-
Esteja sempre disponível: Ao chegar a um lugar, faça mentalmente esta oração: “Senhor, quem precisa de mim aqui? O que eu posso fazer para servir?”
Sempre há tempo para recomeçar. Lute hoje para ser o homem, a mulher, o pai ou a mãe que você ainda não conseguiu ser. Nosso coração se purifica e Deus se manifesta com poder na vida daqueles que têm a coragem de amar e servir nas pequenas coisas.




