O julgamento público e a intenção dos acusadores
A mulher pecadora foi surpreendida em adultério. Um pecado privado, reservado a quatro paredes, foi agora exposto e anunciado a todos que desejassem ouvir. A um, porém, foi “confiada” a decisão do caso, não no intuito de compreender o dilema do coração humano, mas com o objetivo de testar o destinatário da pergunta:
“Tu, pois, o que dizes?”
Aqueles que testavam Jesus pouco se importavam com o fim que a vida daquela mulher tomaria. Aos acusadores, o mais relevante era a opinião do “Mestre”; a Jesus, a salvação da pecadora era o mais importante.
Por que Jesus escreveu no chão?
O que fazer, então, neste cenário? A Lei, transmitida e interpretada segundo a dureza dos corações, estava a favor dos acusadores. O Senhor nada disse inicialmente. De modo indecifrável, Ele se inclinou e tocou o chão com o dedo, escrevendo algo que o evangelista não menciona. O que significa este gesto de Jesus? Não estaria Ele recordando aquele dia em que, inserido no seio do Pai, no agir do Espírito, juntos modelaram o ser humano do barro? Aquele, cujas leis encontram em si a plenitude, conhecia muito bem a fragilidade humana.
O Deus que se inclina para a criatura
Podemos assim imaginar os pensamentos de Jesus enquanto permanecia inclinado escrevendo com o dedo sobre o piso do Templo. Recordou-se Ele, com ternura e amor, do dia em que modelou com a argila do solo o homem, insuflando sobre ele um hálito de vida (Gn 2, 7). Nesta perspectiva, talvez Jesus pensasse enquanto escrevia:
“Mulher, eu te conheço! Foram as minhas mãos, unidas ao Pai, que te modelaram. Eu mesmo toquei o barro do qual te formei, assim como, agora, toco com os dedos este chão. Eu conheço a tua fragilidade, sei das tuas limitações e incapacidades. Inclino-me neste momento porque, sendo Deus, posso me rebaixar à tua condição de criatura: inclinei-me quando te criei no Éden; inclinei-me quando, por amor ao Pai, me esvaziei de minha condição divina; e agora, mais uma vez, me inclino para te perdoar, e assim o farei quantas vezes você e todos os outros se apresentarem diante de mim como pecadores. Sendo quem Eu Sou, não me enoja tocar em sua natureza frágil e debilitada.”
O silêncio imperava, pois o Senhor da criação pensava…
A dureza das pedras e do coração humano
Os escribas e fariseus interromperam o pensamento salvífico de Jesus. Estavam com as mãos transbordantes de pedras, ansiosos pelo mínimo sinal de condenação da parte do Juiz. O Homem-Deus, porém, não querendo a condenação, mas oferecendo-lhes a oportunidade da conversão que conduz à salvação, respondeu-lhes:
“Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!”
Pedra… um componente sólido da crosta terrestre. No início, o homem foi formado do barro, possível de ser manuseado, e agora, endurecido, tornou-se pedra, impossível de ser modelado. As pedras simbolizam a dureza do coração soberbo que não se reconhece pecador e, consequentemente, dispensado, por conta própria, de receber o perdão e a misericórdia. A abertura de coração, frente à sua condição de pecador, é indispensável para que o Senhor remodele o homem segundo a Sua imagem. Foi o que aconteceu com aquela mulher que, pega em adultério, nada falou desde que foi colocada diante do Juiz. Mal sabia ela que a justiça de Deus é misericórdia!
A justiça divina é Misericórdia
O Misericordioso Juiz voltou a tocar o chão com suas santas mãos. Mais uma vez, podemos imaginar os pensamentos divinos de Jesus:
“Eu me recordo de quando juntos — o Pai, Eu e o Espírito — finalizamos a nossa obra e constatamos que tudo era muito bom (Gn 1, 31). Hoje, mais uma vez, eu te vejo, mulher, e acredito na bondade que inserimos em seu ser quando sopramos a nossa vida na sua. Eu acredito na sua potencialidade de ser semelhante a mim; por isso não te condeno, mas te perdoo.”
Nesta certeza, Jesus a liberta: “Nem eu te condeno. Vai e, de agora em diante, não peques mais”.




