A voz no deserto e o chamado à conversão hoje
Com toda a certeza, você já ouviu falar de São João Batista. Se perguntarmos o que você sabe sobre ele, poderíamos ouvir: é o filho de Zacarias e Isabel; o anúncio de seu nascimento foi feito pelo Arcanjo Gabriel; é aquele que batizou Jesus Cristo no Jordão; foi morto, decapitado; tem sua devoção bastante divulgada no Brasil, marcando as “festas juninas”. Mas o que mais de profundo poderíamos dizer de João Batista, um profeta do Altíssimo, que é o único de quem se celebra na liturgia o nascimento e a morte? Hoje, nós vamos conhecer um pouco mais deste grande profeta, uma voz que ainda ressoa no deserto deste mundo!
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Por Emanuel França
O anúncio e o nascimento de João Batista:
“Será grande diante do Senhor” (Lc 1,15)
O Evangelho de São Lucas, no primeiro capítulo, narra-nos o anúncio do nascimento de João Batista. Zacarias era um sacerdote casado com Isabel. O evangelista ressalta que era um casal justo, temente a Deus; todavia, Isabel era estéril e já se encontravam em idade avançada. Quando Zacarias se encontrava no Templo para exercer os ofícios sacerdotais, o Arcanjo Gabriel lhe aparece e anuncia que sua esposa dará à luz um filho, que será chamado de João.
O anúncio em si já revela um grande sinal da manifestação de Deus naquele tempo. Todavia, as palavras de Gabriel sinalizam ainda mais a grandeza deste evento:
“será grande diante do Senhor… desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem-disposto” (Lc 1, 15-17).
Zacarias volta a falar
Diante da incredulidade de Zacarias, ele ficou emudecido até que a promessa feita pelo anjo se cumprisse. No instante do nascimento do menino, Zacarias confirma que o seu nome será João. Tendo cumprido a ordem dada pelo anjo, finda-se o seu emudecimento e ele prorrompe em louvores a Deus por sua misericórdia e pela salvação com que alcança o seu povo. Movido pelo Espírito Santo, Zacarias profetiza sobre a vida de seu filho, anunciando o cerne de sua missão:
“E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo a conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 76-79).
João nasceu, cresceu e se dirigiu ao deserto, aí permanecendo até o início de sua missão pública.
O testemunho de João para os nossos dias:
“Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 3,2)
O testemunho de João é um grande sinal para os dias de hoje. Sua pregação centra-se no chamado à austeridade, à coerência de vida e ao arrependimento. Em um tempo como o nosso, marcado pela vaidade, pela necessidade de “ostentar” bens, pela importância dada à aparência, o exemplo de João é um grande remédio para estes males. Uma primeira característica que podemos destacar é a sua austeridade e a sua vida no escondimento. Ele se refugiou no deserto, vivendo de um modo simples e austero. Ele é descrito com suas vestimentas de pele de camelo e um cinto de couro, alimentando-se de mel e de gafanhotos. Não nos estranha ver um homem de tamanha importância vivendo desta maneira? Não seria “justo” que um homem como esse crescesse nos palácios, junto das cidades, nos locais conhecidos e sendo servido?
João Batista é um verdadeiro testemunho de coerência
Antes mesmo de fazer a sua pregação, convidando o povo ao arrependimento e à conversão, ele mesmo viveu de um modo agradável a Deus. Em um cenário onde os sumos sacerdotes do templo viviam em meio às riquezas e usavam de sua autoridade para impor fardos ao povo, João dava o exemplo com o verdadeiro modo de viver de quem é servo de Deus!
A sua vida austera é um modelo de penitência
Ele não se firmou nos prazeres, nas riquezas e nos bens deste mundo, mas buscou viver com o coração firmado no Senhor, à sua espera, aguardando a sua vinda. O que realmente importava para João era estar à espera daquele que era a razão e o sentido de sua existência! E João não apenas entendeu que era preciso estar pronto, mas se empenhou em preparar o povo, “um povo bem-disposto” (Lc 1,17) para o Senhor. Para isso, é preciso se empenhar em um sério caminho de penitência e conversão.
A humildade de João Batista:
“não sou digno de desatar suas sandálias” (Mt 3,11)
Da austeridade e do testemunho de João, destacamos ainda a sua humildade. Sendo ele o que precedeu a vinda do Senhor, Santo Agostinho, em seus Sermões, faz um comparativo entre Jesus Cristo e João Batista:
“João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem. O pai de João não acredita que ele possa nascer e fica mudo; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. […] João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o Antigo e o Novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: A Lei e os Profetas até João Batista (Lc 16,16). Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe. Na verdade, antes mesmo de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Maria. Antes de nascer, já é designado; revela-se de quem seria o precursor, antes de ser visto por ele. […] Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto, fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce aquele que é a voz. […] João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.” (Segunda Leitura do Ofício de Leituras da Solenidade de São João Batista).
A consciência do seu lugar
João sabe que não é a Palavra, mas apenas a voz. João sabe que não é a luz, mas dá testemunho da Luz. Ele sabe que não é o maior, mas anuncia que virá Aquele que é maior. João se põe na condição de servo. Ele é apenas o precursor. Esse gesto de humildade de João levou o próprio Cristo a dizer sobre ele: “entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista” (Mt 11,11).
Um chamado que ainda ressoa no deserto deste mundo:
“preparai o caminho do Senhor” (Jo 1, 23).
A mensagem de João Batista é muito atual para nós! Estamos à espera do Senhor, à espera de sua Segunda Vinda. No tempo de Elias, o profeta denunciou a idolatria e os erros cometidos pelo povo, que os levaram a se afastar do Senhor. No tempo de João Batista, o novo Elias, ele denuncia o mal moral — como, por exemplo, o pecado de Herodes — e se empenha em reconduzir o seu povo para Deus.
Nestes tempos atuais, precisamos assumir o exemplo e a missão de João: precisamos viver uma vida austera, precisamos viver uma vida simples, precisamos crescer no despojamento, na humildade, precisamos viver de um modo agradável a Deus. Precisamos ser um povo bem-disposto ao Senhor!
Canção Nova e João Batista
Na Canção Nova, o Padre Jonas assumiu o profetismo de João Batista e deixou este chamado para a comunidade (inclusive, recentemente, São João Batista foi declarado copatrono da Comunidade Canção Nova).
João aguardava a primeira vinda do Messias. Hoje, nós aguardamos o Senhor em sua Segunda Vinda. O convite do Batista precisa ecoar em nosso interior: precisamos fazer penitência!
Precisamos nos arrepender! Precisamos viver de forma austera e convertida! Precisamos nos preparar! Precisamos ser um povo bem-disposto ao Senhor, pois, a cada instante que passa, a vinda do Senhor se torna mais próxima!
O mundo à nossa volta revela-se como um grande deserto, e precisamos gritar com a nossa vida, como Elias, como João Batista e como o Padre Jonas: “Preparai o caminho do Senhor!” E “que o Senhor nos encontre em paz, puros e santos”!





