EVANGELHO DO DIA

Não adapte o Evangelho: Viva a misericórdia - Padre Ricardo Rodolfo (05/10/2026)

Não adapte o Evangelho: Viva a Misericórdia

Amados irmãos e irmãs, a liturgia de hoje quer nos orientar sobre o modo como devemos acolher a Palavra de Deus e aplicá-la em nossas vidas. São Paulo nos alerta sobre o grande perigo de tentar abandonar ou adaptar o Evangelho de Cristo ao nosso próprio modo de viver. Não é a Palavra que deve se moldar às nossas escolhas; somos nós que precisamos nos adaptar ao Evangelho.

Muitas vezes, conhecemos a verdade, mas damos justificativas para não sermos transformados por ela. Queremos um cristianismo que meça o consolo, que fale de misericórdia, mas que não exija abandono do pecado nem uma conversão verdadeira. Contudo, o cristianismo autêntico transforma tudo aquilo no coração da pessoa que não condiz com a Palavra de Deus.

O perigo de uma religiosidade aparente

Jesus nos ensina a corrigir a falta de caridade e a ausência de misericórdia. De nada adianta vivermos uma religiosidade superficial, de aparências, sem deixar o coração ser realmente tocado. É muito fácil falar da misericórdia do Pai — inclusive para mim, como padre e reitor deste Santuário. O desafio real surge quando somos chamados a praticá-la no dia a dia.

Na passagem do Evangelho, o Senhor declara: “Respondeste corretamente. Faz isso e viverás”. Não basta apenas observar, teorizar ou saber o que é caridade. É preciso agir.

Há muitas pessoas que necessitam de alimento material, mas há também um número imenso de irmãos que precisam ser ouvidos, acolhidos e tratados com a dignidade de filhos de Deus. Não resolveremos os problemas do mundo inteiro, mas não podemos ser indiferentes à dor de quem está ao nosso lado.

A lição do Bom Samaritano e o resgate do olhar atento

Na parábola do Bom Samaritano, o sacerdote e o levita passaram ao lado, mas quem cuidou e teve compaixão foi o samaritano. Se o nosso coração não for impregnado pela compaixão de Cristo, seremos tomados pela indiferença.

Lembro-me de uma experiência de quando era responsável pela missão no Rio de Janeiro. Todos os dias, ao passar pela movimentada Rua Dias da Cruz, via um garotinho de 5 a 7 anos vendendo balas. As pessoas passavam ao lado dele e fingiam que ele não existia.

Depois de dias observando aquela cena, atravessei a rua e parei ao lado dele. Ele olhou para mim e perguntou:

— “O senhor é padre?”

Respondi que sim. Ele pediu que eu comprasse algumas balas, mas eu não tinha dinheiro no momento. Parei, sentei e comecei a conversar com ele, escutando a sua história.

Ao final da conversa, aquele menino encheu a mãozinha de balas e quis me dar todas. Eu disse:

— “Não, meu filho, guarde para vender, pois é de onde vem o seu sustento.”

E ele me respondeu:

— “Padre, mais do que vender as balas, eu queria que alguém parasse, falasse comigo e me ouvisse.”

Aquele gesto me marcou profundamente. Guardei as balas no bolso, sorri para ele e segui meu caminho. Muitas vezes, a sociedade julga uma pessoa vulnerável na rua sem nunca ter parado para ouvir a sua dor.

O cristianismo é feito de atitudes, não apenas de palavras

Precisamos ter compaixão com o próximo. Falar de misericórdia sem vivê-la é uma grande contradição. Podemos viver sob o mesmo teto que uma pessoa e ser inteiramente indiferentes à dor dela. Há pessoas morrendo de solidão ao nosso lado enquanto nos falta a coragem de perguntar: “Você está bem? Precisa de ajuda? Quer que eu reze por você?”

O cristianismo é feito de atitudes concretas. Infelizmente, ainda existem muitos que falam sobre a fé, mas poucos que a colocam em prática.

Peçamos ao Senhor a graça de agir conforme o Evangelho nos pede. Que o Espírito Santo nos tire do comodismo e da indiferença, abrindo os nossos olhos para enxergar e viver tudo aquilo que Deus espera de nós.