EVANGELHO DO DIA

Como Amar os Nossos Inimigos? - Padre José Augusto (10/08/2026)

O Desafio do Perdão: Como Amar os Nossos Inimigos?

No capítulo 6 do Evangelho de São Lucas, Jesus nos apresenta um dos seus ensinamentos mais profundos e desafiadores: as bem-aventuranças e a lei do amor. Ele deixa claro que não veio para abolir a lei que já existia, mas para aprimorá-la. Naquele tempo, muitos usavam a lei de forma contrária ao que Deus havia pedido.

Na lei antiga, a regra era o “olho por olho, dente por dente” – a chamada Lei de Talião. Se alguém lhe desse um tapa, a resposta esperada era outro tapa. No entanto, Jesus nos alerta que agir movido pela vingança é agir como os pagãos. Como filhos de Deus, somos chamados a agir de forma diferente.

O Interior é o Verdadeiro Campo de Batalha

Jesus nos ensina que o problema não está no exterior, mas no nosso interior. É de dentro do coração humano que saem as maledicências, as maldades e os maus desejos. É por isso que Ele nos faz um convite radical: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem a quem vos odeia”.

Você tem inimigos? Quais são os desejos que habitam o seu coração em relação a eles? O instinto natural e humano é desejar o mal, querer que a pessoa desapareça da nossa vida. Mas esse não é o coração de Deus.

É muito fácil aplaudir o Evangelho quando vemos curas, milagres e libertações. Porém, o verdadeiro desafio do Evangelho do Amor é rezar por quem nos feriu. O verdadeiro seguidor de Jesus Cristo não é medido pelos símbolos externos que carrega – como o terço na mão, a fita no pescoço ou a veste que usa. O cristão autêntico é medido pela sua capacidade de olhar para quem lhe fez mal e, ainda assim, perdoar, desejando o bem e a salvação dessa pessoa.

O Testemunho de Dona Ana: O Perdão Que Transforma

Há muitos anos, nas quintas-feiras de adoração na Canção Nova, havia uma senhora chamada Dona Ana. Ela acompanhava o Santíssimo Sacramento com devoção profunda. Em uma missa de sétimo dia, anos depois, ela me revelou que a intenção da missa que havia pedido era para o homem que havia assassinado o seu próprio filho.

Ela contou que, após a prisão do assassino, passou a visitá-lo na cadeia mensalmente. Levava frutas, rezava com ele e falava de Deus até o dia em que ele faleceu. Oferecer aquela missa foi a sua última demonstração de misericórdia, para que a alma dele pudesse alcançar o céu.

Vocês acham que foi fácil para Dona Ana? Humanamente, é impossível. Mas ela estava tão impregnada de Deus que não conseguiu deixar de amar, em Deus, o assassino de seu filho. Sem a graça divina, ninguém é capaz de um gesto de tamanho perdão.

Dar a Outra Face: O Significado Oculto

Jesus nos diz: “Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra”. Para entender isso, precisamos olhar para o contexto daquela época.

Quando um soldado romano batia no rosto de um escravo ou de um subordinado, ele usava as costas da mão direita, atingindo a face direita da pessoa. Isso não era apenas uma agressão física; era uma humilhação profunda, um gesto que dizia: “Você não é nada”.

Ao ensinar a oferecer a outra face, Jesus está orientando a pessoa a se posicionar. Para bater na outra face, o agressor precisaria usar a mão aberta ou um soco direto – golpes que só eram dados em pessoas consideradas do mesmo nível social. Oferecer a outra face era uma forma pacífica, mas firme, de dizer: “Eu não aceito ser tratado como um nada. Sou uma pessoa com a mesma dignidade que você”.

Da mesma forma, quando Jesus fala sobre entregar a túnica a quem lhe toma o manto, Ele propõe desarmar o agressor. Ao entregar tudo e ficar nu, quem passava vergonha e constrangimento era o próprio agressor. O bem tem o poder de constranger o mal. Como nos lembra São Paulo, ao fazer o bem ao seu inimigo, você “acumula brasas” sobre a cabeça dele, levando-o à conversão.

Quem é o Seu Inimigo Hoje?

Pode ser o vizinho com o som alto, o colega de trabalho, ou até mesmo alguém que senta do outro lado da igreja e de quem você desvia o olhar no momento da paz de Cristo.

Se você não consegue nem pronunciar o nome dessa pessoa, comece a rezar por ela no seu terço diário. Vá quebrando a dureza do coração aos poucos. Se você foi ofendido, abra-se ao perdão. Se você ofendeu, tenha a humildade de buscar a reconciliação, mesmo que as coisas não voltem a ser exatamente como eram antes. Precisamos fazer a nossa parte e respeitar o tempo do outro.

O Perdão é Uma Decisão, Não Um Sentimento

Muitas vezes, a palavra de Deus nos causa incômodo, e é para causar mesmo! O Evangelho deve gerar mudança.

Lembre-se sempre: os ensinamentos de Jesus não passam apenas pelo nosso sentimento, mas pela nossa decisão e razão. Você pode ainda sentir dor, tristeza ou até um sentimento de rejeição, mas é na razão que você decide: “Eu vou perdoar essa pessoa e vou desejar o bem a ela”.

Que possamos viver esse verdadeiro amor e nos assemelhar cada dia mais ao coração do Pai das Misericórdias. Que o nosso relacionamento com Deus transborde em misericórdia para com os nossos irmãos, especialmente aqueles que mais nos desafiam.