Por que a Palavra nos Incomoda?
Queridos irmãos e sacerdotes concelebrantes aqui no Santuário com suas caravanas e amigos. Um abraço também a você que nos acompanha de casa.
Estamos na 15ª semana do Tempo Comum. Celebramos a tradicional Missa pelas Famílias, realizada sempre às segundas-feiras. Toda Santa Missa é o próprio sacrifício eucarístico de Cristo. No entanto, nesta tarde, apresentamos uma intenção especial: rezar pelas nossas famílias.
O Evangelho de hoje pode parecer, à primeira vista, um tanto contraditório. Em Isaías 9, 6, no Antigo Testamento, vemos o anúncio de que Jesus seria o “Príncipe da Paz”. No entanto, no Evangelho de hoje, Ele afirma: “Não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10, 34).
Como explicar essa aparente contradição? A Bíblia estaria mentindo? Certamente não! Jesus não veio destruir a paz. Ele veio desmascarar a falsa paz na qual o mundo insiste em se apoiar.
A “Espada” que Separa a Verdade da Mentira
Para compreender esse ensinamento, precisamos olhar o texto original em grego. A palavra utilizada para “espada” é makhaira (μαχαιρα). Na época, ela não era uma grande espada de guerra. Trata-se de uma lâmina pequena, muito afiada e de alta precisão. Ela servia para separar as coisas com exatidão.
Essa imagem se conecta perfeitamente à Carta aos Hebreus 4, 12:
“Porque a palavra de Deus é viva, eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes.”
Como Jesus é a Palavra Encarnada, Ele se torna essa espada. Diante da Verdade divina, a neutralidade deixa de existir. A Verdade nos obriga a tomar um posicionamento. Lembre-se: não escolher também é uma escolha.
Imagine alguém com graves problemas de saúde que ignora os médicos. Ao continuar com maus hábitos, ela escolhe as consequências do infarto. No campo espiritual é o mesmo. Diante da Verdade, ou nos decidimos por ela ou a rejeitamos. Não existe meio-termo. Jesus vem para sacudir as falsas seguranças sobre as quais construímos nossa vida.
A Falsa Paz vs. A “Paz Inquieta” de Deus
Muitos definem a paz como a simples ausência de problemas, conforto ou estabilidade financeira. Mas de que adianta ter bens e viagens se a alma está em pecado mortal? De que serve a estabilidade sem oração e sem Eucaristia? Isso não é paz; é anestesia espiritual.
Como o Padre Zezinho cantava, a paz que Deus dá é uma “paz inquieta”. É um dom que mexe conosco, nos incomoda e nos impulsiona a melhorar. A Palavra de Deus precisa incomodar o seu estilo de vida. Se isso não acontece, há um problema na caminhada. A Palavra precisa separar a mentira da verdade dentro de nós.
Muitas vezes, a verdade gerará divisões. Santo Agostinho, em seu Sermão 359, ensina com brilhantismo:
“A verdade gera divisão não porque ela seja má, mas porque o erro resiste à luz.”
Pense no jovem que decide viver a castidade. Ou no pai que troca as farras pela Igreja com sua família. O mundo ao redor vai se incomodar. Ele passará a ser visto como uma “anomalia” e enfrentará piadas. A luz de Cristo brilha nessa pessoa. Isso incomoda a escuridão daqueles que preferem o erro.
O Perigo de Querer Agradar a Todos
Jesus nos adverte de que “os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 36). O Senhor não está incentivando o conflito familiar. Ele descreve uma consequência inevitável. Ao vivermos o Evangelho de forma autêntica, incomodamos quem não quer mudar. A nossa luz gera cobrança.
Querer agradar a todos no caminho da fé é uma armadilha. Lembramos aqui a conhecida história do avô, do netinho e do jumento:
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Se o neto vai montado, chamam o jovem de folgado. Criticam o avô cansado que puxa o animal.
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Se o avô sobe no animal e deixa o neto a pé, dizem que o idoso é um egoísta.
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Se os dois caminham a pé, dizem que são tolos por não aproveitarem a montaria.
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Se ambos montam no bicho, surgem críticas por crueldade com o animal.
Moral da história: quem busca agradar a todos não agrada a ninguém. Essa pessoa acaba se perdendo do caminho. Nossa missão é agradar a Deus e fazer a Sua vontade. Devemos respeitar a todos, mas sem negociar os valores do Evangelho.
A Roda de Bicicleta: Ordenando Nossos Amores
Jesus declara: “Quem ama seu pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37). Em momento algum Ele desvaloriza o amor filial. O Catecismo ensina essa verdade com base em Santo Tomás de Aquino. Depois de Deus, o amor aos pais é o nosso dever religioso mais importante.
O perigo reside na idolatria. Quando amamos nossos familiares, bens ou carreiras mais do que a Deus, fazemos deles ídolos. Um ídolo sempre destrói nossa vida. Ele passa a exigir uma perfeição que somente o Criador possui.
Podemos usar a analogia de uma roda de bicicleta:
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No centro exato da roda está o cubo.
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Os raios da bicicleta saem das bordas e convergem para esse centro.
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Perceba que quanto mais próximos do centro os raios estão, mais unidos eles ficam.
Assim funciona na família. Quanto mais perto de Deus (o Centro) nós estamos, mais unidos ficamos daqueles que amamos. Se Deus não ocupa o primeiro lugar, cobramos das pessoas um amor absoluto. Elas não têm capacidade de dar isso. O resultado são relações disfuncionais e sufocantes.
O filho não é o centro do casal. O centro é Deus, seguido pela união conjugal e, depois, pelos filhos. Nós geramos nossos filhos para Deus e para a vida. Eles não são nossas posses.
Tomar a Cruz e Consumir-se como Vela
Por fim, Jesus nos convida: “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mt 10, 38). No grego, a palavra para cruz é stauros (σταυρός). Ela não significa apenas suportar sofrimentos cotidianos de forma amarga. A cruz representa o preço diário de sermos fiéis a Deus. É a luta diária para sermos bons pais, mães, jovens e sacerdotes.
Jesus conclui com o grande paradoxo cristão: “Quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á” (Mt 10, 39).
Pense no funcionamento de uma vela. Ela só ilumina e dissipa as trevas à medida que aceita consumir a sua própria cera. Se a vela se preservar na gaveta, ela nunca cumprirá o seu propósito. Assim somos nós. Fomos criados para nos doar por amor. Como ensinava São Francisco: “É dando que se recebe”.
Que o Senhor nos conceda a graça de permanecermos firmes na Verdade. Que saibamos colocar Deus acima de tudo e carregar a cruz diariamente.
Deus abençoe as nossas famílias! Amém!




