O que é a verdadeira sabedoria de Deus?
Na liturgia de hoje, ouvimos um texto sapiencial retirado do Livro dos Provérbios. Quando falamos de alguém humano que possui sabedoria ou perspicácia, nos referimos à agudeza de inteligência. Contudo, na Sagrada Escritura, um texto sapiencial vai muito além: trata-se da fineza na percepção das coisas do Criador e da submissão da própria inteligência a Ele.
A sabedoria divina não pode ser pensada de forma desvinculada de Deus. Todas as Escrituras são Palavra de Deus porque foram por Ele inspiradas e porque revelam Quem Ele é. Desta forma, diferenciam-se do pensamento puramente humano.
Muitas vezes, a mentalidade humana tenta se desvincular do Senhor, buscando uma autonomia ilusória. É o mesmo erro que Jesus combate ao dizer a São Pedro: “Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas como Deus, mas como os homens”. O homem que se desliga de Deus é como um bebê que tentasse cortar o cordão umbilical para viver sozinho: em vez de se desenvolver, seu pensamento atrofia, voltando-se contra si mesmo e contra o próximo.
A docilidade do coração e o exemplo de Salomão
O texto dos Provérbios nos traz uma imagem profunda:
“O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente: Ele o dirige para onde quer.” (Provérbios 21, 1)
Isso traduz a docilidade. Quando colocamos nosso coração nas mãos do Criador, permitimos que Ele nos conduza. No Salmo Responsorial, reafirmamos essa ligação substancial ao rezar: “Escolhi seguir a trilha da verdade, diante de mim coloquei os vossos preceitos”.
Ao refletir sobre os textos sapienciais, é inevitável recordar o Rei Salomão. Diante do desafio humano de governar o povo de Deus, ele reconheceu sua própria incapacidade e pediu o auxílio do Alto. Deus concede-lhe grandes bens, sendo o maior deles a sabedoria.
A prática dos preceitos: aprendendo a “pedalar” na fé
No Evangelho, Jesus afirma que aqueles que cumprem a vontade do Pai e colocam Seus preceitos em prática pertencem à Sua família espiritual.
A vivência da fé assemelha-se a aprender a andar de bicicleta: é pedalando que se aprende. No início, pode haver o risco de quedas ou a falta de compreensão plena, mas é ao dar as pedaladas que a pessoa desenvolve a habilidade e experimenta a verdadeira liberdade. Com as coisas de Deus funciona da mesma forma: ao colocar os ensinamentos em prática, percebemos interiormente a verdade de cada preceito e fortalecemos nossa união com o Senhor.
Maria Santíssima: modelo perfeito de discípula
A Virgem Maria é o maior exemplo de discípula e de vinculação com Cristo.
Na ordem da natureza, o Menino Jesus esteve vinculado a ela no ventre, sendo nutrido pelo cordão umbilical. Contudo, na ordem espiritual, era a Virgem Santíssima quem dependia inteiramente do seu Filho e Senhor. Antes mesmo de Jesus proclamar na vida adulta que a Sua família é composta por aqueles que fazem a vontade do Pai, Maria já havia declarado no Anunciação: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”.
Santo Tomás de Aquino dizia que a sua própria existência consistia em pensar em Deus e falar de Deus. Quanto mais a Virgem Maria viveu essa realidade! Ela existia para o Senhor, dependia d’Ele e buscava somente a Sua vontade.
Vivendo a nossa dependência de Deus
Esta também é a missão da nossa comunidade e do nosso pai fundador (Monsenhor Jonas Abib): empreender a evangelização para despertar as pessoas para Deus, fazendo-as perceber que dependem d’Ele assim como um bebê depende de sua mãe para viver.
Que nesta Eucaristia possamos reconhecer e renovar o nosso vínculo de dependência com o Senhor, rezando de todo o coração:
“Guiai-me, Senhor, nos caminhos de vossos preceitos. Amém!”




