Série Apóstolos
“Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus” (Mt 10, 2-4).
Quantas vezes escutamos este trecho do Evangelho, não é verdade? Estes são os doze Apóstolos. Mas você sabe o que é ser um Apóstolo? Nossa resposta se encontra no Catecismo da Igreja Católica:
“Jesus é o Enviado do Pai. Desde o início de seu ministério, ‘chamou os que ele quis; e foram a ele. Ele constituiu então doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova’ (Mc 3,13-14). A partir daquela hora, eles passaram a ser seus ‘enviados’ (é o que significa a palavra grega ‘apóstolo’). Neles continua a própria missão de Jesus […]. Seu ministério é, portanto, a continuação da própria missão de Jesus” (CIC 858).
Entendido o significado da palavra “Apóstolo”, te convido a mergulhar na vida de cada um destes doze homens que deram continuidade à missão de Jesus. Seja bem-vindo à série: OS APÓSTOLOS.
Apóstolo São Pedro
Nossa série sobre os Apóstolos não poderia começar diferente senão com a vida daquele que foi o primeiro Papa da Igreja Católica: Simão Pedro. Sua origem é um povoado de pescadores, Betsaida, junto ao Mar da Galileia e próximo à cidade de Cafarnaum. Tinha um irmão chamado André (falaremos dele mais adiante) e ambos seguiam a costumeira profissão local. Entretanto, um encontro mudaria todo o rumo de sua história.
Encontrado e chamado
Aquele dia poderia ser mais um dia comum na vida de Simão, após uma noite exaustiva de trabalho sem sucesso, até que um pregador aparece e decide usar o seu barco para conseguir falar às multidões que o escutavam. Simão já tinha ouvido falar daquele homem, Jesus de Nazaré: seu irmão André, discípulo de João Batista, viu o momento em que este o batizou. Quando Jesus termina a sua pregação, ele dá uma ordem a Pedro:
“vai mais para o fundo, e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).
A proposta é, no mínimo, inusitada (e assim será a vida deste homem a partir deste momento): Simão era um pescador profissional; ele sabia o melhor momento para a pesca — e não era durante o dia; ele estava cansado e até mesmo questiona o Mestre, mas decide obedecer e contempla um verdadeiro milagre.
O SIM de Simão, sua disposição em aceitar aquela ordem de Jesus, lhe confere a primeira característica de sua nova missão:
“serás pescador de homens” (Lc 5,10).
Simão já não precisava mais de barcos, nem de redes, nem de mar. Ele deixa tudo o que tinha para seguir Jesus, sem saber o que seria o resultado desta decisão radical! Aqui nós temos a primeira lição a ser aprendida deste Apóstolo: ele soube reconhecer o chamado de Deus e não impôs resistências, mas foi capaz de deixar tudo.
A vida com Jesus
São muitas as passagens bíblicas em que encontramos a presença de Simão junto de Jesus: ele estava presente nos grandes sermões e nos grandes milagres; Jesus curou a sua sogra; ele viu a ressurreição da filha de Jairo; ele até mesmo repreendeu Jesus quando este anunciou a Sua Paixão. Mas vamos destacar alguns momentos específicos na vida deste homem.
Um primeiro momento está em Mateus 14,22-33: logo após a multiplicação dos pães, os discípulos estão atravessando o Mar da Galileia até que, à noite, estando o barco no meio de ondas agitadas, eles avistam um homem caminhando sobre as águas. Eles não reconhecem que é Jesus, afirmam até mesmo que é um fantasma. Todavia, quando Jesus lhes fala, Simão Pedro interpela:
“Se és tu, manda-me ir até junto de ti”
Já temos uma característica de Simão Pedro: um homem impetuoso — sem medo de questionar ou de expor o que estava em seu interior. Por outro lado, se verá a sua inconstância, deixando-se levar pelo medo e pela covardia. Ele se lançava à aventura, mas retrocedia na primeira pressão. Ele ouve a voz do Senhor, lança o desafio e é convidado a seguir sobre as águas; mas quando as ondas o alcançam, não mantém os olhos em Jesus, para no medo, na dúvida, e deixa que a força das águas fale mais alto que a voz do Senhor. Verdadeiramente, um homem fraco na fé: pôs à prova se, de fato, era o Senhor sobre as águas e teve medo de manter os seus passos até chegar a Ele.
Coragem e fraquezas
Em outro momento, também narrado por Mateus (16, 13-20), Jesus questiona sobre quem estão dizendo ser Ele. Entre tantas respostas, somente Simão declara:
“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”
Essa declaração traz marcado o reconhecimento, por parte de Simão, de que Jesus é o Messias esperado e que não há outro. O próprio Jesus reconhece que esta revelação só poderia ser dada pelo “Pai que está nos céus”, e isto rende a Simão uma nova identidade:
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”
Este é o momento em que Jesus concede a Pedro a primazia, solidificando a missão do Apóstolo a partir de sua profissão de fé.
No capítulo seguinte (17,1-8), temos mais um episódio importante: a Transfiguração. Pedro fazia parte daquele pequeno grupo, com Tiago e João, que acompanhou Jesus em momentos importantes. A Transfiguração é um destes momentos. Pedro já tinha contemplado milagres; ele mesmo foi capaz de reconhecer que Jesus é o Cristo; e agora ele mesmo vê o Senhor glorificado diante de seus olhos. Aquilo o atraiu de tal modo que ele sequer queria voltar. Mas, mais uma vez, a vida dele vem dizer muito de cada um de nós: quando ele mais precisava recordar destes grandes feitos junto de Jesus, ele se esqueceu.
Quando a inconstância fala mais alto
Era a noite em que Jesus iria se entregar. Pedro já estava há três anos caminhando com Jesus. Naquela mesma noite, ele mesmo fez sua promessa de jamais abandoná-lo ou negá-lo, sendo capaz de dar a própria vida se preciso fosse. Mas o cenário se encontra diferente: Jesus está preso, as autoridades fazem de tudo para condená-lo e Pedro se encontra ali no meio daquele cenário hostil, interpelado por aqueles que estão a sua volta. O medo fala mais alto outra vez; eleva-se a sua inconstância; ele se esquece de tudo o que viveu junto de Jesus e as suas promessas feitas horas antes durante a ceia. Três expressões saem da boca do Apóstolo:
- “não sei de que estás falando”;
- “nem conheço este homem”;
- “não conheço esse homem!”.
O galo canta, o olhar de Jesus se volta para Pedro e ele se lembra de tudo o que o Senhor havia lhe falado.
Das inconstâncias à verdadeira conversão: a missão de Pedro
Após o episódio da negação, Pedro chora amargamente, pois reconhece o seu pecado. Este mesmo discípulo correrá ao encontro do túmulo do Senhor quando descobre que está vazio. Mas o que ele faz? Ele volta a pescar! É impressionante como nossa vida pode ser identificada tanto com a vida do Apóstolo: houve um arrependimento; ele viu o Senhor ressuscitado e sua resposta é voltar para aquilo que ele fazia no princípio de tudo.
Outra vez o Senhor vem ao encontro de Pedro e o interpela sobre o seu amor:
“Simão, filho de Jonas, tu me amas?”
Infelizmente, as nossas traduções perdem a profundidade deste diálogo. Podemos tentar esclarecer aqui de acordo com o texto original (João 21): Jesus pergunta se Pedro o ama (ágape) mais que os outros, e Pedro responde que é amigo (philia) de Jesus; Jesus pergunta se Pedro o ama (ágape), Pedro responde que é amigo (philia) de Jesus; por fim, Jesus pergunta se Pedro é realmente seu amigo (philia) e ele se entristece e responde:
“Tu sabes tudo; tu bem sabes que sou teu amigo”.
Mesmo enxergando nesta tripla pergunta uma analogia com a tripla negação, Jesus confirma a missão de Pedro de apascentar o seu rebanho.
Alguns dias depois, Pedro estará com os outros no cenáculo. A experiência de Pentecostes manifesta a sua grande conversão: se outrora contemplamos um homem covarde, fugindo e negando Jesus em meio a um ambiente hostil, temos agora um homem que prega e converte três mil homens em meio a este mesmo ambiente! Pedro anunciará Jesus, cumprirá a sua missão, será o responsável por fundar diversas novas comunidades (grandes comunidades, inclusive, como a Igreja de Antioquia); ele, como chefe da Igreja, primeiro Papa, está junto dos discípulos no Concílio de Jerusalém; mesmo quando recebe ordens para que não dê continuidade à sua missão, ele já não teme mais os homens, pois confia em seu Senhor. A promessa feita por ele na última ceia pode agora ser cumprida: “eu darei minha vida por ti”.
O martírio
Os últimos anos da vida de São Pedro nos foram transmitidos por tradição oral. Nero era o imperador de Roma e empregava uma intensa perseguição contra os cristãos, imputando a estes a culpa do incêndio da cidade. Muitos foram ao encontro de Pedro, incentivando-o a fugir. Conta-se uma tradição antiga que Pedro estava saindo de Roma quando se encontra com Jesus vindo pelo caminho contrário e o pergunta: “Quo vadis, Domine?” (Para onde vais, Senhor?). Este teria lhe respondido: “vou para Roma morrer de novo pelo meu povo”. O Apóstolo se encoraja e regressa para Roma, continuando ali o seu ministério em meio às perseguições.
Não demora muito para que a palavra dada por Jesus a Pedro se cumpra: “Quando, porém, fores velho, estenderás os braços, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. São Pedro foi preso e conduzido ao Circo de Nero. Condenado à morte, sofreu o martírio próximo à Colina Vaticana. No momento de sua crucificação, conta-se a tradição que Pedro não aceitou sofrer a morte tal como o seu Mestre, pois não se via digno de tal ato. Por este motivo, foi crucificado de cabeça para baixo.
A lição de Pedro para nós
A vida de São Pedro tem muito a nos ensinar:
-
Deus não desiste de nós e nem mesmo nos chama a partir de nossa perfeição. Do contrário, Deus nos chama mesmo sabendo das nossas inconstâncias e, pacientemente, realiza a obra de salvação em nossas vidas;
-
Precisamos ter a coragem de reconhecer que erramos e ter a coragem maior ainda de voltarmos. Pedro poderia ter parado na sua negação, mas ele se arrependeu e voltou para um novo recomeço com o Senhor;
-
O nosso medo não pode ser maior que a nossa confiança no Senhor;
-
Somente a obra do Espírito Santo em nós pode realizar a mais profunda e verdadeira transformação em nosso ser;
-
Um SIM dado a Deus, com generosidade, pode nos conduzir a viver o inimaginável.
Que o exemplo deste grande Apóstolo nos oriente em nossa caminhada de fé e de conversão.
São Pedro Apóstolo, rogai por nós!









