evangelho do dia

Como Jesus Transforma o Impossível - Padre Adriano Zandoná (06/07/26)

Como Jesus Transforma o Impossível

O Evangelho nos apresenta duas narrativas muito diferentes, mas profundamente congruentes. Ele nos mostra situações impossíveis, dramas humanamente insolúveis que foram completamente transformados por Jesus através da força da fé. Quando olhamos para essas passagens, somos convidados a compreender o verdadeiro território de Deus em nossas vidas.

Quando a Situação Humana Chega ao Fim, Começa o Território de Deus

No relato bíblico, quando aquele pai desesperado chega para falar com Jesus, ele declara uma dolorosa realidade: “A minha filha acaba de morrer”. No texto original em grego, utiliza-se o verbo Eteleutesen, que significa morrer, terminar, chegar ao fim completo. Aquele pai reconhecia que, para ele, as possibilidades haviam chegado ao limite. O que fazer diante de um cadáver?

O bonito é que este homem entendeu a essência da fé. Ele reconheceu: “Para mim terminou, mas para Deus está começando”. Quando uma situação não tem solução humana, quando ela foge do seu e do meu controle, aí entra o agir, a força e o poder de Deus que pode transformar todas as coisas.

A profissão de fé desse pai foi uma das mais profundas do Evangelho. Ele não foi pedir para Jesus impor as mãos sobre uma filha resfriada ou com caxumba; ele declarou que ela estava morta, mas que o toque de Jesus devolveria a vida. Isso é fé. Fé não é acreditar apenas quando tudo vai bem ou quando estamos vendo os resultados; fé é crer quando não restam mais recursos humanos.

Desapegar-se das Seguranças Humanas para Encontrar a Verdadeira Fé

Muitas vezes, Deus permite que as nossas seguranças humanas caiam. Em sua obra Subida ao Monte Carmelo, São João da Cruz, Doutor da Igreja, explica que quando Deus quer unir profundamente uma alma a Si, Ele retira dela todas as muletas e seguranças terrenas. Deus permite a quebra daquilo que, consciente ou inconscientemente, idolatramos.

Idolatrar vem de latria, que no grego significa glória, reconhecimento e prioridade. Quando damos a glória e a prioridade a qualquer outra coisa que não seja Deus — seja ao dinheiro, à saúde ou a uma pessoa —, estamos fragilizando nossa espiritualidade.

Às vezes, colocamos nossa fé nas estruturas, nas finanças ou até mesmo em líderes religiosos, como padres e pastores. Quando essas realidades falham ou nos decepcionam, descobrimos que eles são humanos, limitados e frágeis. Deus permite essas decepções justamente para nos mostrar que a razão da nossa fé não pode ser o homem, mas sim Jesus Cristo. Deus vai quebrando as nossas muletas para que possamos dar, verdadeiramente, o salto da fé.

O Salto da Fé no Meio às Crises Familiares e Pessoais

O salto da fé é uma analogia sobre confiar na voz de Deus mesmo quando o cenário parece assustador. Humanamente, você pode olhar para baixo e ver apenas o chão duro, mas se Deus está dizendo “é uma piscina, pula”, a fé exige que você salte.

Talvez hoje você esteja enfrentando o seu limite diante de um casamento em crise, de um filho problemático, de uma enfermidade grave ou de uma falência financeira. É exatamente nesse momento de esgotamento que a fé real começa a acontecer. Quando assumimos: “Senhor, eu só tenho o Senhor como esperança”, experimentamos o extraordinário.

Estamos neste mundo de passagem, nosso destino final é o Céu e a eternidade. Mesmo que construamos lindas histórias de amor, matrimônio e família nesta terra — acumulando décadas de convivência feliz —, precisamos nos lembrar de uma verdade solene: viemos a este mundo apenas entre nós e Deus, e partiremos dele da mesma forma. No dia do nosso juízo particular, estaremos a sós diante do Criador. Portanto, embora devamos amar intensamente o próximo, Jesus precisa ser o centro absoluto de nossa história.

A Diferença entre Encostar em Jesus e Tocá-Lo pela Fé

O Evangelho também nos apresenta a mulher hemorroíssa, que sofria há doze anos com um fluxo contínuo de sangue. Na cultura da época, o sangue representava a vida; aquela mulher estava definhando, fraca e anêmica. Além disso, pela lei judaica, ela era considerada impura, vivendo à margem da sociedade, isolada da família e sem nenhum status social.

Ela não tinha a relevância do chefe da sinagoga para se aproximar publicamente, mas possuía o mais importante: uma fé que não exigia espetáculos ou pirotecnia. O Evangelho relata que ela tocou na veste de Jesus. No grego, a palavra usada é Haptomai, que significa agarrar com força, apegar-se, unir-se. Não foi um esbarrão casual.

São Jerônimo comenta que ela tocou Jesus com a fé antes mesmo de tocá-Lo com a mão. Havia uma multidão o apertando e o sufocando, mas Jesus parou e perguntou: “Quem me tocou?”. Santo Agostinho explica essa passagem afirmando que há uma enorme diferença entre estar perto de Jesus e realmente encontrar-se com Ele. Muitas pessoas frequentam a Igreja e participam dos sacramentos de forma tradicional, mas apenas “encostam” em Jesus de forma mágica ou superficial. É preciso tocá-Lo com o coração e pela fé.

De “Impura” a Filha Amada: A Restauração da Identidade

Ao notar o milagre, Jesus dirige-se à mulher com uma palavra grega belíssima: Thygater, que significa “Filha”. Esta é a única vez em todo o Evangelho de Mateus que Jesus chama uma mulher dessa forma.

Antes de curar o corpo daquela mulher, Jesus restaurou a sua dignidade. Onde ela chegava, as pessoas se afastavam por considerá-la um “problema” ambulante. Mas Jesus olhou para ela e disse: “Você não é a impura, você não é o seu sofrimento; você é Filha”. Santo Ambrósio resume perfeitamente: “Cristo restituiu primeiro a dignidade dela, depois a saúde”.

Muitos de nós vivemos definidos pelos nossos erros, pelo divórcio, pela depressão, pelos vícios ou pelos fracassos. No entanto, o pecado e a tentação tentam nos convencer de que somos o nosso erro. Jesus nos diz hoje: você é filho, você é filha. Ele é especialista em reescrever as histórias mais difíceis e abrir caminhos onde a lógica humana não enxerga saída.

Jesus Não Tem Medo de Tocar as Nossas Feridas e Mortes

Ao chegar à casa do chefe da sinagoga para socorrer a menina que havia falecido, Jesus tomou a jovem pela mão. Segundo as leis da época, tocar em um cadáver tornava o judeu ritualmente impuro. Contudo, São João Crisóstomo nos ensina que Cristo tocou o morto para demonstrar que a morte não contamina a Vida.

Jesus não tem medo de tocar na sua lepra, na sua ferida ou na sua morte espiritual. Ele não tem vergonha das suas fraquezas ou dos seus pecados recorrentes. Ele deseja estender a mão para libertar você de todas as amarguras, carências e comparações que geram morte em sua alma.

Hoje, Jesus continua estendendo as mãos para nós de forma concreta e ordinária através dos Sacramentos da Igreja: na Confissão, na Santa Eucaristia e na Palavra proclamada. Deixe-se tocar por Ele, recupere a sua identidade de filho e dê o salto da fé que transformará o impossível na sua vida.