A maternidade Divina e o sim da Virgem Maria
O Pai das Misericórdias, ao enviar o Seu Filho ao mundo, quis que Ele fosse acolhido por uma Mãe, contando, assim, com a cooperação do gênero humano no Seu desígnio salvífico. Evidenciou de antemão a importância da comunhão relacional, que estava enfraquecida perante a realidade do pecado original.
A partir desta premissa, podemos colocar em relevo a altíssima dignidade da Virgem Maria, dado que foi escolhida por Deus para ser a Mãe de Jesus Cristo, sendo a sua maternidade divina a mais elevada vocação concedida a uma pessoa humana. Desde o seu “sim” dado na Anunciação, quando respondeu: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38) — momento em que o Verbo Divino se encarnou em seu seio pelo poder do Espírito Santo (cf. Lc 1,35) —, até o fim da vida terrena de Jesus, ela ofereceu sua plena colaboração à missão de seu Filho. Ela é, por isso, a Sua mais importante cooperadora na obra da redenção. Tendo em conta esta verdade, o Concílio Vaticano II afirma:
A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultaneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a nobre Mãe do Divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. (Lumen Gentium, 61).
Verdadeiramente, a Virgem Maria foi associada em toda a sua vida ao seu Filho Jesus Cristo na obra da redenção, dado que para isso foi por Deus designada.
A profecia de Simeão e a dor da Mãe
De acordo com a sua maternidade divina, pode-se considerar o título que a Igreja lhe atribuiu como “Nossa Senhora das Dores”, uma vez que ela sofreu na alma tudo o que o seu Filho sofreu no corpo. Para uma compreensão mais ampla, somos chamados, a partir dos Evangelhos de São Lucas (Lc 2,34-35) e de São João (Jo 19,25-27), que fundamentam este relevante título, a refletir sobre esse papel culminante no fim da vida terrena de Jesus.
Primeiramente, voltemos os olhos do nosso coração para a profecia de Simeão, por ocasião da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém, na qual ele anuncia de antemão que, futuramente, a jovem Mãe sofrerá em profunda comunhão com a dor do Filho em Sua missão de salvaguardar a Verdade e como Salvador da humanidade:
“Eis que este Menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição — e a ti, uma espada traspassará tua alma! — para que se revelem os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2,34-35).
A Virgem Maria aos pés da Cruz de Jesus
Com esta revelação, São Lucas evidencia que Deus a associou de antemão, com sua profunda compaixão, à Paixão e Morte de Seu Filho, contempladas por Simeão como um único martírio.
Um momento de máxima importância na vida da Virgem Maria foi a experiência que ela viveu ao ver o seu Filho crucificado, dado que assim sofreu as dores atrozes da espada que lhe trespassava a alma, conforme já lhe anunciara Simeão. Por ter permanecido firme na fé aos pés da cruz de Jesus, ela nos ensinou como devemos passar pelas cruzes que a vida nos apresenta, sempre em comunhão com o sacrifício redentor de Cristo, cooperando também com a Sua obra de salvação. O evangelista São João assim descreve este acontecimento:
Perto da Cruz de Jesus, permaneciam de pé sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo Sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à Sua Mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua Mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa. (Jo 19,25-27).
O sim livre que abraçou a Cruz
O evangelista destaca que aos pés da Cruz estava a Mãe de Jesus, participando da potência salvífica da dor de Cristo e, assim, conjugando o seu Fiat, isto é, o seu Sim, ao de Seu Filho em prol da salvação da humanidade. Ao inserir esta narrativa num contexto de grande importância teológica, no qual se verifica o cumprimento das Escrituras acerca do plano da salvação universal, o evangelista confere ao relato de Maria junto da Cruz de Jesus um sentido transcendente, uma vez que testemunha como o Filho, no fim de Sua vida terrena, se relaciona com Sua Mãe numa perspectiva de fé, confiando-lhe em Suas últimas palavras a vocação de Mãe da humanidade redimida:
“Mulher, eis o teu filho! Depois disse ao discípulo: Eis a tua Mãe!” (Jo 19,26-27).
Neste sentido, o Concílio Vaticano II nos assegura que “padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por esta razão, nossa Mãe na ordem da graça” (Lumen Gentium, 61).
É significativo observar que, na hora máxima de Jesus (cf. Jo 2,4), Ele instituiu Sua Mãe como Mãe espiritual da humanidade, mostrando que ela continuará cooperando em Sua Igreja, restaurando a Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26) em nós, desfigurada pelo pecado.
A origem da memória litúrgica de Nossa Senhora das Dores (15 de Setembro)
O título da Virgem Maria como “Nossa Senhora das Dores” nos convida a reviver com ela o momento decisivo da história da salvação, isto é, a Paixão e Morte de Jesus, e, assim, colher os frutos deste mistério salvífico.
Sua memória litúrgica foi introduzida no calendário romano pelo Papa Pio VII no ano de 1814 e inicialmente celebrada no terceiro domingo de setembro. A mudança definitiva para o dia 15 de setembro, logo após a Festa da Exaltação da Santa Cruz, foi realizada posteriormente pelo Papa São Pio X ao reformar o Breviário Romano.
Com efeito, esta devoção voltada para o sacrifício de Cristo nos revela que a nossa vida é permeada de momentos de sofrimentos e de cruzes, e que Nossa Senhora das Dores se faz próxima a nós como Mãe, como se fez ao seu Filho na cruz. A experiência da Virgem dolorosa aos pés da cruz de Jesus nos revela que o amor misericordioso de Deus não é indiferente às nossas dores e, assim, que Ele nos salva no sofrimento e não do sofrimento. Com o seu testemunho, ela nos convida a permanecer firmes no amor, na fé e na esperança em Deus, uma vez que se manteve sempre confiante e, assim, manteve viva a fé da Igreja que nascia perante a debilidade da fé dos discípulos de Jesus.
Deus também espera a nossa resposta
Certamente, um momento de grande dor para a Virgem Maria foi quando recebeu em seus braços o corpo de seu Filho morto, conforme nos mostra a escultura feita por Michelangelo Buonarroti, o escultor italiano que expressou de modo singular o cumprimento da profecia de Simeão (Lc 2,34-35). De acordo com o seu testemunho de fidelidade a Deus até o fim, a Igreja reconheceu Maria como a Nova Eva, tendo em conta que a sua admirável obediência nos trouxe a vida eterna em Seu Filho Jesus Cristo.
Unidos a Nossa Senhora das Dores, renovemos também o nosso sim ao Deus que escolheu a via da cruz para nos salvar, sendo este um grande mistério que prossegue até o fim do mundo e que continua pedindo a nossa colaboração. Peçamos a ela que nos ajude a carregar a nossa cruz de cada dia e a caminhar sobre a via da obediência, do sacrifício e do amor como fiéis discípulos de Cristo.







