O plano de Deus: unir Anjo e homem em Cristo
A finalidade da Quaresma de São Miguel é a nossa conversão e união mais profunda com Deus com o auxílio dos Anjos. De fato, Deus quer a união entre homem e Anjo, pois é o seu plano de “unir tudo o que há no céu e na terra em Cristo” (Ef 1,10). Voltemos, então, ao início do tempo, até a criação e provação dos Anjos para adquirirmos um maior entendimento deste plano de Deus.
A criação dos anjos
Quando os Anjos foram criados? A Sagrada Escritura diz no livro do Gênesis:
“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1).
Nesta passagem bíblica, a expressão “os céus” significa as criaturas espirituais: os Anjos e a sua morada, o mundo invisível, enquanto a palavra “terra” se refere às criaturas materiais e ao seu lugar de habitação: o mundo visível.
A expressão “no princípio” já aponta para Cristo, o Filho de Deus feito homem, o qual é o primogênito de toda a criatura.
“Pois foi nele que foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis: Tronos, Dominações, Principados, Potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1,16).
Portanto, não somente nós, mas também os Anjos foram criados por Cristo e para Cristo, o Redentor do homem, e por isso também eles deverão participar ativamente do plano de Deus.
Qual foi esse plano de Deus?
Foi o plano da encarnação do Filho de Deus em vista da redenção do homem. Com efeito, na plenitude dos tempos, o Pai enviará seu Filho unigênito para se tornar homem, a fim de nos salvar pela Sua Paixão e Morte na cruz. Além disso, Ele quis que Anjos e homens formassem uma grande família de filhos de Deus, que se tornassem irmãos em Cristo. Assim, São Paulo fala do misterioso desígnio de Deus “de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). O plano de Deus consiste precisamente nesta união de tudo o que há no céu (= os Anjos) e tudo o que há na terra (= os homens) em Cristo.
O objeto da provação dos Anjos
Uma vez que Deus criou não somente a nós, seres humanos, mas também os Anjos segundo a Sua imagem e semelhança, isto é, como pessoas livres, capazes de decidir e de amar, Ele quis que não somente nós, mas também eles dessem uma resposta livre ao Seu amor. E esse amor deveria ser provado. Para entrar no céu, ou seja, chegar à plena comunhão com Deus, que é Amor perfeito, tanto o homem como o Anjo têm que aprender a amar, amar como Deus ama, com um amor generoso que sabe servir e se doar sem reservas. Por isso o critério do julgamento no fim dos tempos, “quando o Filho do homem voltar na glória e todos os Anjos com ele” (Mt 25,31), será este: o que fizestes a um destes meus irmãos foi a mim que fizestes (cf. Mt 25,40), ou seja, o que conta será o amor concreto que também os Anjos deverão viver no seu serviço em relação a nós, especialmente como Anjos da Guarda.
Qual foi, então, o objeto da provação dos Anjos?
No livro das Revelações (Cap. 12, 1-5), lemos: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida… Ela deu à luz um filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações. E o seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e seu trono”.
Deus revelou aos Anjos o Seu plano da encarnação: Ele iria fazer-se homem, nascer da Virgem Maria, da mulher revestida do sol, para cumprir Sua missão de salvar os homens. Segundo a vontade de Deus, os Anjos deverão servir a Cristo e acompanhá-Lo na sua missão de Salvador dos homens. Eles deveriam amar seus irmãos inferiores, os seres humanos, e se empenhar na salvação deles:
“Porventura não são todos eles espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14).
A batalha no céu e na terra
Qual foi a reação dos Anjos ao plano de Deus?
“Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o dragão” (Apc 12,7).
Miguel e seus anjos aceitaram o plano de Deus. Eles se dispuseram a acompanhar o Filho de Deus na Sua missão salvadora e servir a Cristo nos seus irmãos, os homens pecadores. Com efeito, “com os Anjos de Deus há mais alegria por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos” (cf. Lc 15,10).
Do outro lado, surgiu revolta e inveja: como Deus pode dar tanta atenção aos homens, como Ele pode fazer-se homem e colocar os anjos ao serviço deles?! Eles consideraram o plano de Deus uma loucura, uma injustiça, uma afronta contra sua dignidade de Anjos. Ficaram presos no seu próprio eu, faltou-lhes completamente a humildade.
Por isso o Anjo da luz, Lúcifer, olhando para sua própria grandeza e perfeição, revoltou-se contra Deus e Seus planos, tornando-se assim o adversário de Deus: o grande dragão vermelho que varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu (cf. Apc 12,4). Quer dizer, uma terça parte dos anjos seguiu-o nesta rebelião contra Deus. Estes Anjos não queriam amar nem servir, recusaram-se a doar-se e a acolher o amor misericordioso de Deus para com os homens pecadores.
Qual foi o resultado da batalha entre os Anjos?
“O dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram…
Foi então precipitado o grande dragão… foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos” (Apc 12,7-9).
No céu, a batalha já terminou. Miguel e seus Anjos, confiando no poder de Deus, venceram o anjo orgulhoso e seus sequazes que confiaram no seu próprio poder, e o dragão e seus anjos foram precipitados na terra. O que significa isso para nós? Significa que a batalha que começou no céu continua na terra. E essa batalha não é travada nos ares, mas no coração humano, uma batalha espiritual. Estamos sempre em campo de batalha. Por isso necessitamos tanto da ajuda dos Anjos, de São Miguel, o príncipe da milícia celeste, mas também do nosso Anjo da Guarda, para não nos deixarmos enganar pelo inimigo e nos arrastar por ele ao pecado, à revolta contra Deus e Seus planos.
Necessidade de conversão
Santo Agostinho disse:
“Pelo seu orgulho, alguns anjos se tornaram demônios, e nós, homens, pela humildade, podemos tornar-nos semelhantes aos Anjos.”
Por isso, no início desta Quaresma de São Miguel, deveríamos fazer um sério exame de consciência e perguntar-nos sinceramente:
- Sou uma pessoa orgulhosa e egoísta?
- Estou disposto a servir aos outros, a amar e me doar, ainda que seja difícil?
- Estou consciente de que sou pecador e que preciso de conversão?
- Quais são as minhas falhas e fraquezas que devo vencer com a graça de Deus e a ajuda dos Anjos nesta Quaresma de São Miguel?
Uma vez, o Papa Francisco disse: “No fundo, Anjos e homens têm a mesma missão: ajudar aqueles que devem herdar a salvação, ou seja, empenhar-se pela salvação dos outros”. Estou disposto a me unir mais aos Anjos na luta pela salvação das almas, especialmente das pessoas que Deus me confiou?
Oração a São Miguel Arcanjo
Ó glorioso Príncipe dos exércitos celestes, São Miguel Arcanjo, travai hoje, com o exército dos santos Anjos, as batalhas do Senhor, como pelejastes vitoriosamente contra Lúcifer e os anjos rebeldes!
Ó Príncipe nunca vencido, vinde depressa em socorro do povo de Deus contra os assaltos dos espíritos réprobos e concedei-nos a vitória! Levai as nossas orações diante da Face do Altíssimo, para que, em breve, as misericórdias do Senhor se nos antecipem! Apoderai-vos do dragão, da serpente antiga, que é o Diabo e Satanás, e repeli-o algemado para o abismo, para que não seduza mais os povos! Amém.









