O que está subentendido
Quem é filho mais velho sabe que sobre si há, naturalmente, uma responsabilidade familiar, um senso de cuidado, zelo e proteção em relação aos pais e também aos irmãos mais novos. Estudos de psicologia revelam que muitos filhos mais velhos crescem ocupando funções de vigilância, mediação de conflitos e apoio afetivo aos irmãos e até mesmo aos pais.
Dos três filhos em meu berço familiar, eu sou o mais velho. Sei do que estou falando. Não relato apenas a minha experiência, mas, após estudos aprofundados sobre o assunto, abordo este tema sensível com revelações que trazem libertação.
Bases sobre o estudo: a parábola do Filho pródigo (Lucas 15)
A Sagrada Escritura, no capítulo 15 do livro de Lucas, narra a tão conhecida Parábola do Filho Pródigo. Trata-se do irmão mais novo que pede ao pai a parte da sua herança, gasta tudo com prazeres e depois volta para casa. É recebido por seu pai com honras e festas.
É comum, em homilias e pregações sobre este ensinamento cristão, padres e pregadores darem ênfase ao filho mais velho, destacando seu ponto fraco que se encoleriza ao ver o pai festejando a volta do filho que esbanjou tudo. É importante considerar a história do filho mais velho antes de julgá-lo ou colocá-lo na condição de justiceiro, carente, ingrato ou revoltado.
Considerando a história de vida além dos julgamentos
Todas as experiências de vida devem ser consideradas antes de tecer qualquer diagnóstico ou julgamento sobre alguém. A pessoa é mais do que as suas atitudes. Cada ser humano carrega consigo uma trajetória digna de respeito. Nem sempre o filho age, mas muitas vezes reage não com a razão, mas pleno de emoção, a qual deve ser considerada. Falamos aqui de pessoas que têm sentimentos, e não de produtos de IA ou robôs.
O filho mais velho da parábola sentia-se assim diante do pai:
“Há tantos anos eu te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos” (Lucas 15, 29).
Lembra-se de que citei, no início do texto, que o filho mais velho, naturalmente, traz consigo uma responsabilidade familiar? Pois então, esse rapaz empenhou-se ao máximo para ser fiel ao pai, à lei, à sua consciência. O senso de responsabilidade pesou sobre ele. E, por motivos desconhecidos, ele ainda não tinha provado o amor livre, verdadeiro e despretensioso de seu pai. Quem são os culpados: pai ou filho? Não é hora de investigar o caso com esse tipo de indagação. Foi assim. Agora, o filho mais velho reage com um sintoma de falta de amor afetivo e efetivo. Não quer dizer que o pai não lhe deu, mas suas reações demonstram que é assim que ele se sente.
Um testemunho pessoal sobre a primogenitura
Como lhes disse, eu sou o filho mais velho, porém há outros detalhes: meu pai também é o primeiro filho entre meus seis tios. Minha mãe, também a primeira filha. E, para engrossar o caldo pro meu lado, meu primeiro filho, entre outras duas meninas, também me faz refletir muito sobre a primogenitura.
Nós, filhos mais velhos, temos traços em comum. Refletimos atitudes semelhantes uns aos outros. Depois de décadas buscando cura interior, terapias, partilhas e momentos de oração, tenho propriedade para dizer que não estamos fadados ao peso da autorresponsabilidade que inconscientemente abraçamos.
Comportamentos comuns do filho mais velho
Traços psicológicos e sobrecarga invisível
Se você é o filho mais velho de sua família, psicologicamente você tende a:
- resolver as crises sozinho, mesmo sobrecarregado;
- culpar-se ao receber cuidado e atenção;
- ouvir a todos, mas esconder o próprio sofrimento.
Não são traumas evidentes, mas muitos de nós aprendemos a viver assim em vista da condição familiar de simplesmente sermos filhos mais velhos. Não afirmo tais condições de forma categórica e plena, mas são traços comuns que recaem sobre os filhos mais velhos. Por exemplo:
- Os filhos mais velhos ajudam os mais novos, mas quais outras crianças os ajudaram?
- Os primogênitos acompanham os menores na escola, mas quem foi o porto seguro para eles no ambiente escolar quando desbravaram esse novo meio relacional?
- E na vida adulta: os pais celebram as bodas de prata, quem naturalmente toma a iniciativa de organizar toda a festa?
Abra-se ao amor verdadeiro do Pai
Sim, em muitos casos, os primogênitos dão literalmente os primeiros passos. Mas agora chegamos a um ponto crucial: você, filho mais velho, é amado pelo Pai. Deus ama você e não lhe cobra da mesma forma que você tem a tendência de se autocobrar.
Chegou o momento de você ouvir de Deus:
“Filho, você está sempre comigo e tudo o que é meu é teu” (Lucas 15, 31).
Se as suas condições familiares em algum momento não favoreceram que você experimentasse o amor verdadeiro de seu pai biológico ou mesmo do Pai do céu, peça ao Espírito Santo que vá onde o amor ficou represado. Libere essa porção de amor em sua história. Você é amado por seu pai. Liberte-se. Acolha. Ame.
A maior revelação do que ficou subentendido em sua história é: o amor do Pai por você é tão grande, que Ele o fez forte para desbravar e ser sinal da presença do Pai no mundo. Ele ama você!






