Como ouvir a voz de Deus: lições da história de Samuel

Fala, Senhor, que teu servo escuta!

Somos chamados a ser profetas do Altíssimo, porém é preciso, antes de qualquer outra coisa, compreendermos o que significa ser um profeta, e para isso podemos contar com os exemplos oferecidos a nós nas Sagradas Escrituras. Assim, olhemos para o exemplo do profeta Samuel e consideremos o que podemos aprender com a sua história.

Para começar, devemos destacar que profeta não é aquele que prevê o futuro, como normalmente pensamos, mas, segundo a tradição bíblica, é aquele que transmite uma palavra que não é sua, que fala em nome de alguém — nesse caso, Deus. Assim, a função do profeta é transmitir a mensagem de Deus ao povo, sendo natural que seu trabalho seja falar ao povo. Porém, a essência do profetismo não está na proclamação, mas antes na escuta. É a escuta que faz alguém ser profeta.

Como ouvir a voz de Deus

O verdadeiro significado do profetismo: ouvir a voz de Deus

A história do profeta Samuel começa em um tempo em que “a palavra do Senhor era rara e as visões não eram frequentes” (I Sm 3,1). Seria possível pensar que Deus havia abandonado Seu povo e que já não se dirigia a eles. Porém, é estranho pensar desse modo, já que Samuel nasce como fruto da oração sincera de sua mãe, que não podia ter filhos, e, portanto, é um sinal claro de que o Senhor não abandonou seu povo, mas continua a escutar e agir na história. Assim, Deus não havia se calado, mas era o povo que não ouvia.

Em um texto de Rubem Alves chamado Escutatória, que li há algum tempo, o autor chama a atenção para a dificuldade de escutar. Todos têm algo a dizer e querem aprender a falar, haja vista a quantidade de cursos de oratória oferecidos por aí, mas quase ninguém se importa em ouvir. E ele ainda ressalta, parafraseando Alberto Caeiro, que não é suficiente ter ouvidos para ouvir as coisas que são ditas, mas é preciso também silêncio dentro da alma.

A dificuldade de escutar no mundo moderno

Num mundo de excessos como este em que vivemos, em que as informações são rápidas e mastigadas para não fazerem pensar e só serem consumidas, dominado pelas opiniões e por vozes que disputam a nossa atenção, o silêncio se tornou cada vez mais raro e, nas vezes em que surge, passou a ser até um tanto desconfortável. Paradoxalmente, quanto mais se fala, menos se escuta. Temos, hoje, uma enorme dificuldade de ouvir verdadeiramente: ouvir o outro e, sobretudo, ouvir a nós mesmos.

O ambiente que prepara o coração para o chamado

Samuel surge do seio de uma família marcada pela oração. Elcana, seu pai, mesmo vivendo com as limitações e tensões próprias de sua casa, “costumava subir” (cf. I Sm 1,3) ao santuário que estava em Silo em peregrinação anual para adorar e oferecer sacrifícios ao Senhor. Samuel não aparece do nada, mas nasce e cresce em um contexto em que o relacionamento com Deus já estava sendo cultivado, e isso prepara o terreno para que, quando vier o chamado, haja espaço interior para recebê-lo.

Depois de consagrado ao serviço do Senhor por sua mãe ao nascer, Samuel é entregue, ainda muito jovem, aos cuidados do sacerdote Eli no santuário de Silo. É aí que Samuel experimentará, pela primeira vez, os mistérios do Senhor na quietude da noite e no recolhimento do santuário. Deus chama, mas não grita. Ele fala de maneira discreta, solicitando atenção, buscando ser reconhecido. E Samuel, ainda criança, nas primeiras vezes não reconhece a voz do Senhor; então ele corre, vai a Eli, e só depois da terceira vez Eli percebe que é Deus chamando o menino. A orientação de Eli é direta: se Deus voltar a chamar, Samuel, deverá dizer: “Fala, Senhor, que teu servo escuta.” (I Sm 3,9)

Assim como o pequeno Samuel, não nascemos sabendo reconhecer a voz do Senhor. Mas, da mesma forma que Deus educou o coração de Samuel para reconhecer a Sua voz e responder com obediência, Ele quer e pode fazer o mesmo com cada um de nós — basta a disposição do coração.

Da escuta passiva à obediência prática

Samuel aprende que a vocação profética, ou seja, escutar o Senhor para comunicar sua mensagem, não é uma posição confortável; mas, ao contrário, exige coragem e honestidade para transmitir palavras difíceis. Também em outros momentos, o exercício da escuta poderá incluir aprender a lidar com o silêncio de Deus, com os intervalos, as pausas, a demora e a “falta” de resposta imediata, sem, contudo, abandonar a fidelidade.

A história de Samuel não termina no ato de “ouvir”. Ela aponta para o que é ainda mais difícil: obedecer. A Palavra afirma que Samuel não deixava que caísse por terra nenhuma palavra do Senhor (cf. I Sm 3,19). Sua escuta não é passiva, mas se traduz em atos concretos, como ao interceder pelo povo em crise diante dos filisteus (cf. I Sm 7, 9), ao julgar Israel por toda a sua vida (cf. I Sm 7,15) e ao chamar o povo a uma conversão verdadeira (cf. I Sm 7,3).

Assim, a história do profeta Samuel revela que o encontro com Deus acontece onde há silêncio interior; onde há chamado, Deus pede reconhecimento; onde há reconhecimento, nasce escuta atenta; e onde há escuta, deve surgir obediência concreta. Por isso a lição central de Samuel pode ser resumida assim: não basta ouvir a voz de Deus, é preciso responder com uma vida, que põe em prática o que foi dito.