O Bom Samaritano: a compaixão que transforma a família
A pergunta sobre a vida eterna
A pergunta feita pelo mestre da lei a Jesus no Evangelho é uma das mais importantes que alguém pode fazer: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”
Talvez nós também já tenhamos feito essa pergunta, ainda que de outras maneiras: Senhor, o que realmente importa nesta vida? O que preciso fazer para não desperdiçar a minha vida? O que permanece quando tudo passa?
Jesus não responde apresentando uma teoria. Ele conta uma história: a parábola do Bom Samaritano.
Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando caiu nas mãos de assaltantes. Foi espancado, roubado e abandonado quase morto à beira do caminho.
Há um detalhe muito significativo: aquele homem permanece em silêncio durante toda a parábola. Não sabemos seu nome, sua história, se era uma pessoa boa ou se tinha fé. Sabemos apenas que estava ferido, abandonado e incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo.
Deus nos ama quando já não conseguimos pedir
Essa imagem revela algo profundo sobre Deus. Existem momentos em nossa vida em que não conseguimos rezar, pedir ajuda ou sequer explicar aquilo que estamos vivendo. Há sofrimentos tão grandes que a pessoa já não sabe como pedir socorro.
Também existem pessoas assim dentro de nossas próprias famílias.
Às vezes, um marido está tão ferido que não consegue dizer que está sofrendo e acaba ferindo os outros. Uma esposa pode estar tão cansada que já não consegue explicar o próprio cansaço. Um filho pode expressar sua dor por meio do silêncio, da agressividade, da rebeldia ou do isolamento.
Muitas vezes esperamos que alguém diga: “Eu preciso de você”, “Estou sofrendo” ou “Venha me ajudar”. Mas o homem ferido do Evangelho não pediu nada.
O amor verdadeiro sabe perceber aquilo que o outro ainda não consegue dizer.
Por isso, precisamos pedir a Deus a graça da sensibilidade: a capacidade de perceber o que acontece dentro de nossa casa, no trabalho, na Igreja e nas pessoas que caminham conosco.
Não basta ver: é preciso deixar o sofrimento chegar ao coração
Jesus apresenta então o sacerdote e o levita. Eles veem o homem ferido, mas passam adiante.
O problema não foi a falta de informação. Eles viram.
Depois vem o samaritano. Ele também vê, mas faz algo diferente: aproxima-se e sente compaixão.
Os três puderam enxergar, mas somente um permitiu que aquilo que seus olhos viram chegasse ao coração.
Essa é uma das grandes perguntas que a Palavra de Deus nos faz: aquilo que vemos ainda consegue nos comover?
Podemos nos acostumar com o sofrimento. Podemos nos acostumar com as lágrimas de alguém dentro de nossa própria casa e pensar que aquela pessoa nunca vai mudar. Podemos nos acostumar com as dificuldades do esposo, da esposa, dos filhos ou dos pais idosos.
Podemos nos acostumar tanto com as pessoas que amamos que deixamos de perceber o que realmente está acontecendo dentro delas.
Jesus nos ensina que a vida eterna começa a aparecer em nós quando a compaixão reaparece em nosso coração.
A compaixão cristã se transforma em atitude
O samaritano não faz um grande discurso. Ele se aproxima.
Ele cuida das feridas, derrama óleo e vinho, coloca o homem sobre seu próprio animal, leva-o à hospedaria, permanece junto dele, paga suas despesas e se dispõe a retornar.
A compaixão cristã nunca é apenas um sentimento. É o amor que se aproxima. É o amor que nos faz permanecer perto de quem precisa de nós.
É muito fácil dizer: “Eu amo minha família”. Mas como esse amor está aparecendo dentro da sua casa?
Ele aparece no tempo que você oferece aos seus filhos? Na paciência? Na capacidade de ouvir? Na disposição de pedir perdão? Na atenção aos pequenos sinais? Na capacidade de interromper seus próprios planos para cuidar de alguém que precisa de você?
O samaritano permitiu que o sofrimento de uma pessoa que ele nem conhecia modificasse sua agenda.
E essa pergunta também chega até nós: o sofrimento daquele que está ao seu lado tem a capacidade de modificar a sua agenda?
Há momentos em que precisamos desligar o telefone. Há conversas que não podem ser adiadas. Há lágrimas que precisam ser acolhidas no momento em que aparecem.
Existem pessoas dentro de nossa casa que talvez não precisem primeiro de uma solução. Precisam de alguém que se sente ao lado delas e permaneça.
Fique perto. Permaneça.
O Evangelho precisa transformar a nossa maneira de viver
São Paulo, na Carta aos Gálatas, manifesta sua preocupação diante daqueles que estavam abandonando o verdadeiro Evangelho. Isso nos recorda que é possível continuar falando de Deus e, ao mesmo tempo, afastar-se do modo de agir de Deus.
Podemos rezar muito e ter pouca misericórdia dentro de casa. Podemos conhecer muitas coisas na Igreja e ter pouca paciência com aqueles que convivem conosco.
O Evangelho precisa transformar nossa maneira de falar e de tratar as pessoas. Precisa trazer doçura, misericórdia e compaixão para os nossos relacionamentos.
A autenticidade da nossa fé passa pela compaixão.
Quanto mais encontramos Jesus, mais humanos deveríamos nos tornar. Quanto mais recebemos a misericórdia de Deus, mais misericordiosos devemos ser.
Quanto mais nos aproximamos da Eucaristia, mais deveríamos aprender a nos aproximar dos feridos para curá-los, e não para feri-los ainda mais.
Uma fé que nos distancia da dor das pessoas precisa ser examinada. Uma religiosidade que nos faz olhar para os outros de cima para baixo precisa ser convertida.
Quem é o meu próximo?
O mestre da lei pergunta: “Quem é o meu próximo?”
Mas Jesus muda a perspectiva.
A questão não é descobrir quem merece ser o nosso próximo. A questão é fazer-se próximo de quem precisa de nós.
Isso começa dentro da nossa própria casa.
Quem está ferido na sua família? De quem você tem passado longe? Quem está esperando uma palavra sua? Com quem você precisa se reconciliar? Quem precisa menos das suas correções e mais da sua presença?
Talvez exista alguém dentro da sua casa caído à beira do caminho.
E talvez, hoje, seja você quem esteja ferido.
Cristo é o verdadeiro Bom Samaritano
Talvez você tenha chegado ao Santuário do Pai das Misericórdias cansado, machucado ou preocupado com seu casamento, seus filhos, sua saúde ou sua família. Talvez você nem saiba mais como rezar.
Mas existe uma boa notícia: Deus não espera que você tenha forças para começar. Ele mesmo se aproxima de você.
Cristo é o verdadeiro Bom Samaritano.
Ele nos encontra feridos pelos nossos pecados, pelas decepções da nossa história e pelos nossos próprios erros. Ele se inclina sobre nós, toca nossas feridas, derrama sobre nós o óleo da consolação e nos carrega quando já não conseguimos caminhar.
Ele nos conduz à Igreja, que é como a hospedaria onde somos cuidados.
A vida cristã não começa quando tentamos ser o Bom Samaritano.
A vida cristã começa quando descobrimos que nós somos aquele homem caído à beira do caminho e que Cristo parou, nos olhou e cuidou de nós.
Deus cuida de você. Deus cuida da sua família. Deus cuida das suas feridas.
E quando alguém descobre que foi amado dessa maneira, começa, pouco a pouco, a amar do mesmo modo.
Quem foi perdoado aprende a perdoar.
Quem foi reconciliado aprende a se reconciliar.
Quem foi acolhido aprende a acolher.
Quem foi carregado por Deus aprende a carregar os outros.
Uma oração pela sensibilidade
Ao final da reflexão, somos convidados a pedir uma graça muito concreta:
“Senhor, devolve-me a sensibilidade. Que eu não passe indiferente pela minha própria família. Que eu veja. Que eu perceba. Que eu saiba parar. Que eu não esteja tão ocupado a ponto de deixar de perceber os meus irmãos.”
Que nesta celebração possamos reconhecer que Jesus é o Bom Samaritano das nossas vidas e permitir que a misericórdia recebida d’Ele se transforme em compaixão concreta dentro de nossas famílias e em todos os lugares onde somos chamados a viver a nossa fé.




