A Comunidade de Corinto e as Escolhas do Coração
Queridos irmãos e irmãs, a comunidade de Corinto, à qual São Paulo endereça a carta que lemos na liturgia, era uma comunidade dividida. Corinto era uma cidade portuária de muitas trocas comerciais e via de acesso ao ocidente. Isso fazia com que o local vivesse uma intensa mistura de culturas e religiões. Ao mesmo tempo que era uma cidade cheia dos dons do Espírito Santo — ponto que São Paulo sublinha —, era também fortemente marcada pelo paganismo.
As pessoas de Corinto viviam o cristianismo, mas muitos também mantinham práticas não cristãs e idolátricas. É exatamente isso que São Paulo denuncia. Eles comungavam da mesa do Senhor, vinham à missa e participavam da Eucaristia, mas também “comungavam da mesa dos demônios”, participando de cultos que não honravam o Deus verdadeiro. Tinham o coração dividido, misturando frutos bons com frutos podres.
São Paulo dá um basta: O cristianismo não admite corações divididos. Quem é católico e segue Jesus de verdade não pode viver com o coração dividido entre as coisas de Deus e as ideologias do mundo. A idolatria é um pecado grave que tira Deus do centro e do lugar mais importante de nossas vidas.
O Zelo de Deus: Um “Ciúme” Perfeito
Na Sagrada Escritura, quando São Paulo fala do zelo de Deus, a palavra original tem a mesma raiz da palavra “ciúme”. Ou seja, Deus tem ciúmes de nós, do nosso coração, e nos quer inteiramente ao Seu lado.
No entanto, há uma diferença fundamental: o ciúme de Deus é perfeito. Quando nós sentimos ciúmes de alguém, geralmente temos medo de perder o benefício que aquela pessoa nos traz. Deus, por sua vez, não precisa de ninguém. Quando Ele sente ciúme, na verdade, Ele sente o zelo de não querer nos ver prejudicados longe d’Ele. O ciúme bendito de Deus é o desejo profundo de nos amar e de não nos perder para as coisas passageiras deste mundo.
Alicerces Profundos Exigem um Coração Inteiro
A liturgia nos coloca diante de uma decisão: de que lado nós estamos? Não dá para ser um católico morno, com um pé na Igreja e outro no mundo.
Jesus alerta no Evangelho que, para quem constrói sua vida sem um alicerce sólido, a casa vai cair e a ruína será grande. E vejam: só terão este alicerce profundo aqueles que não têm o coração dividido.
Se você está na Igreja, no casamento, no sacerdócio, na vida consagrada, missionária ou no seu trabalho com o coração dividido, a ruína será completa. Alicerces profundos só são construídos por pessoas que amam a Deus inteiramente. Esse é um dos sinais mais belos de homens e mulheres de caráter. A pessoa de caráter segue no caminho que começou, mesmo que venha a solidão, a calúnia, a perseguição ou o sofrimento. Já a pessoa inconstante, perante a dor, rapidamente divide o coração e desiste. O mundo carece de pessoas com coragem para assumir compromissos definitivos.
O Exemplo da Virgem Maria
A missa nos constrange, mas também nos dá a esperança e a oportunidade de reunificar o nosso coração e devolvê-lo a Jesus. Entendemos que estamos na Igreja e na nossa vocação por causa d’Ele, por amor a Ele, e não pelas circunstâncias.
Celebramos também o santíssimo nome da Virgem Maria, exaltado junto ao nome de Seu filho, Jesus. São Bernardo dizia que Nossa Senhora é maior do que os querubins — o coro de anjos mais próximo de Deus. E por que ela foi tão exaltada? Por causa da inteireza do seu coração.
Nenhuma fibra do coração de Nossa Senhora estava longe de Deus. Ela O amou inteiramente e nunca aceitou divisões. Foi essa inteireza que deu a Maria a segurança de estar aos pés da cruz, sobrevivendo a qualquer circunstância, pois tinha o coração mergulhado em Deus.
Que ao comungarmos, possamos viver essa graça: abrir-nos para ter um coração inteiro, capaz de sobreviver a todas as circunstâncias da vida, inteiramente por amor a Deus.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!




