A batalha de Lepanto e a origem da devoção
Para responder a esta pergunta, é preciso voltar à história, ao ano de 1571. Era 7 de outubro quando a tropa da Liga Santa, uma coalizão de estados católicos organizada pelo Papa Pio V, infligiu uma derrota à frota do Império Turco-Otomano (muçulmanos) no Golfo de Patras.
As forças otomanas estavam navegando para o oeste, a partir de sua estação naval em Lepanto (o nome veneziano do antigo Naupacto — grego Ναύπακτος, turco İnebahtı), quando encontraram a frota da Liga Sagrada, que navegava para o leste, de Messina, Sicília, Itália. A incursão otomana tinha o objetivo de conquistar todo o Ocidente. Eram maioria, porém, não previam encontrar o exército católico.
Foi a maior batalha naval da história ocidental desde a Antiguidade Clássica, envolvendo mais de 450 navios de guerra. Nas décadas seguintes, a importância crescente do galeão e da tática da linha de batalha substituiria a galé como o principal navio de guerra de sua época, marcando o início da “Era da Vela”.
A vitória da Liga Santa é de grande importância na história da Europa e do Império Otomano, com a frota otomana sendo quase completamente destruída, o que marcou o ponto de virada da expansão militar otomana no Mediterrâneo, embora as guerras otomanas na Europa continuassem por mais um século.
O Papa São Pio V e a Liga Santa
Eleito Papa em 1566, São Pio V teve o desejo de convocar a cristandade para um duplo combate: contra o protestantismo e contra o islamismo. Contra este último, convidou os príncipes católicos a fazer uma aliança, mas todos eles, ocupados com seus problemas internos, não responderam à iniciativa.
São Pio V mediou as discussões com diplomacia e paciência heroica, e sugeriu Dom João de Áustria, irmão bastardo de Filipe II, um jovem de 24 anos, como generalíssimo dos exércitos cristãos. Durante as negociações, uma peste dizimou a esquadra veneziana, e os turcos conquistaram a ilha de Chipre, após 48 dias de resistência heroica. A perda de Chipre desanimou toda a cristandade. São Pio V culpou os príncipes católicos por aquela perda, declarando que deveriam mudar suas atitudes antes que fosse tarde demais, e que só expiariam suas culpas se resolvessem se unir em defesa da cristandade.
Preocupado com do avanço turco, São Pio V enviou uma carta a Dom João, exortando-o a zarpar o mais rápido possível para Messina, prometendo-lhe pouco depois, através de seu núncio Odescalchi, a vitória acima de todos os cálculos humanos. Encorajado por essas palavras, Dom João agiu rapidamente. Para preservar o caráter sagrado da missão, proibiu as mulheres a bordo, ditou a pena de morte contra os blasfemos e impôs um jejum de três dias. Nenhum dos 81 mil marinheiros e soldados ficou sem se confessar e receber a Comunhão.
A preparação espiritual e o início do combate
Nos dias 16 e 17 de setembro, a frota cristã partiu do porto de Messina. A frota turca estava localizada em Lepanto, um porto localizado ao sul do estreito que une o Golfo de Patras com o Golfo de Corinto. Em 6 de outubro, o vento deteve os católicos e empurrou os otomanos para fora do estreito de Lepanto, facilitando assim o combate.
No domingo, 7 de outubro, antes do amanhecer, os navios católicos levantaram âncoras e adentraram o Estreito de Lepanto. Um canhão ordenou o início da batalha, e o estandarte da Liga foi hasteado no principal mastro da nau capitânia. Dom João de Áustria exclamou: “Aqui venceremos ou morreremos”.
Enquanto isso, em Roma, o Papa jejuava e redobrava suas orações pela vitória, exortando cardeais, monges e fiéis a fazer o mesmo, confiando na eficácia do Santo Rosário. No dia 7 de outubro, enquanto trabalhava com seu tesoureiro Donato Cesi, o Papa, de repente, deixou seu interlocutor, abriu uma janela e entrou em êxtase; e, voltando-se para o seu tesoureiro, disse: “Ide com Deus. Agora não é hora de negócios, mas de dar graças a Jesus Cristo, pois nossa esquadra acaba de vencer”; e dirigiu-se para a sua capela.
A intervenção da Virgem Maria na batalha
As perdas dos infiéis foram enormes: 30 mil mortos, 10 mil prisioneiros, 120 galés capturadas e 50 afundadas ou incendiadas. Tomaram-se numerosas bandeiras e grande parte da artilharia. Doze mil cristãos escravizados pelos mouros ganharam a liberdade. O resto da esquadra inimiga bateu em retirada, enquanto as trombetas católicas proclamavam aos quatro ventos a vitória da Liga Santa na maior batalha naval registrada pela história.
Soube-se mais tarde que, no calor da batalha, os soldados de Maomé viram sobre os principais mastros da esquadra católica uma Senhora que os aterrorizava com seu aspecto majestoso e ameaçador.
Desde então, o dia 7 de outubro foi consagrado a Nossa Senhora das Vitórias e, mais tarde, ao Santo Rosário; e a invocação Auxilium Christianorum, “Auxílio dos Cristãos”, foi adicionada à Ladainha Lauretana. O senado veneziano, agradecido, fez pintar um quadro retratando a batalha, com a inscrição:
“Nem as tropas, nem as armas, nem os comandantes, mas a Virgem Maria do Rosário foi quem nos deu a vitória”.
Gênova e outras cidades mandaram pintar a imagem da Virgem do Rosário em suas portas; e, em toda parte, na Espanha e na Itália, foram erigidas capelas em homenagem a Nossa Senhora das Vitórias.
Outros fatos históricos do Rosário em Outubro
Esta dedicação se deve a esta batalha vencida pela Virgem Maria na Batalha de Lepanto, mas, ao concluir este artigo, gostaria de ressaltar ainda dois fatos históricos muito importantes que, de alguma maneira, confirmam o fato de este mês ser tão especial e dedicado ao Santo Rosário.
- Aparição de Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão na França, quando enfrentava os hereges cátaros. Nossa Senhora lhe aparece e o orienta a rezar e propagar o Rosário, pois, através desta oração, a heresia seria vencida. Não ficou só nisso. São Domingos difundiu, a partir de sua fundação, os Dominicanos, a devoção à Virgem Maria através do Rosário.
- Aparição de Nossa Senhora em Fátima, a última é muito conhecida como a aparição do Adeus, famoso gesto em que os peregrinos abanam um lencinho branco em sinal de adeus ou tchau à Virgem Santa. Ao retornar aos pastorinhos, depois de ser perguntada, na simplicidade daquelas crianças, quem era aquela bela Senhora, a Santa Mãe de Deus se apresenta como a Senhora do Rosário, e pede para que eles rezem sempre pela paz no mundo e pela conversão dos pecadores, pois, através do Rosário, alcançariam muitas graças.
Portanto, há muitos sinais, uns mais antigos, outros mais contemporâneos, mas uma coisa fica clara: a presença da Santa Mãe de Deus ao lado de seus filhos. Rezar o Rosário é contemplar a vida de Cristo acompanhado da Virgem Maria.
Deus abençoe!








