
“Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). | Foto ilustrativa: cancaonova.com
A penitência interior e a conversão do coração na vida cristã
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A penitência interior, ou conversão do coração, é uma realidade central da vida cristã. A penitência interior se expressa por diversas formas, como o jejum, a oração e a esmola, práticas que ajudam o fiel a voltar o coração para Deus.
Jesus deu uma ordem às pessoas que questionavam o fato de Ele estar sentado à mesa com os publicanos e pecadores:
“Ide, pois, e aprendei o que significa: misericórdia quero e não o sacrifício” (cf. Mt 9,13).
O Catecismo da Igreja Católica comenta esse versículo bíblico dizendo que Jesus escandalizou sobretudo porque identificou sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus para com eles.
Deus é amor. Deus é misericórdia.
No Antigo Testamento, Deus já chamava a atenção para a sua misericórdia, como em Oz 6,6:
“Porque é o amor que eu quero e não o sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”.
A misericórdia de Deus é maior que o pecado
Lembro aqui as palavras de Santa Faustina:
“Embora o pecado seja um abismo de maldade e ingratidão, o preço ofertado por nós é sempre incomparável – por isso, que toda alma confie na Paixão do Senhor e tenha esperança na Misericórdia. Deus a ninguém nega a sua misericórdia. Céu e terra poderão mudar, mas não se esgotará a misericórdia de Deus.”
(Diário de Santa Faustina, 2014, n. 72)
“Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
Santa Faustina alerta para o fato de que a oferta dada por Jesus Cristo na Cruz pelos nossos pecados não pode ser comparada nem superada por nenhum sacrifício humano. Por isso devemos confiar plenamente na misericórdia de Deus.
Essas reflexões são importantes para a compreensão do tema, pois, por mais que desejemos oferecer sacrifícios a Deus, eles jamais alcançarão o patamar da entrega de Cristo na Cruz.
O verdadeiro sentido do sacrifício cristão
Deus não proíbe os sacrifícios feitos pelos homens, mesmo já tendo pago nossos pecados na Cruz e mesmo diante de sua infinita misericórdia.
O Catecismo da Igreja Católica, no nº 2099, afirma que é:
“justo oferecer a Deus sacrifícios em sinal de adoração e de reconhecimento, de súplica e de comunhão…”
Contudo, citando Santo Agostinho, ensina que o verdadeiro sacrifício é aquele realizado para nos unir a Deus em santa comunhão e alcançar a verdadeira felicidade.
Quando pensamos em sacrifício, lembramos logo da penitência. Mas será que ela é importante?
Sim. Contudo, ela não deve ser apenas uma prática exterior, nem uma ação que leve à destruição do corpo ou cause danos à alma, nem que prejudique o amor a Deus e ao próximo.
Por isso, é necessário evitar exageros nas penitências, pois nenhuma penitência poderá se igualar ou superar a oferta de Jesus na Cruz.
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A penitência na Sagrada Escritura
Nossa Senhora, na aparição em Fátima, fala da importância da penitência, sempre ligada à conversão e à reparação pelos pecados do mundo.
A palavra penitência possui diversos significados. Segundo Born (1987, p. 1176-1177), no Antigo Testamento, a penitência tinha como elementos essenciais:
-
confissão dos pecados (Lv 5,5; Lv 16,21; 2Sm 12,13; 1Sm 7,6; Esd 9,6-15; Ne 1,6; Ne 9,2);
-
orações penitenciais (Is 63,7-64,11; Dn 9,4-19; Tb 3,1-6.11-15; Jt 9,1-14).
Havia também práticas externas como:
(2Sm 12, 16; 1Rs 20,27, Jl1. 13s; 2,15-17; Jon3,6-8; Esd 9,3; Ne 9,1: Dan 9,3; Jdt9,1; Eclo 34,26 etc.)
- chorar
- jejuar
- rasgar as vestes
- usar cilício
- dormir no chão
- cobrir a cabeça com cinza
- sentar-se na cinza
- arrancar cabelos da cabeça ou da barba
Além disso, existiam outras práticas como:
- derramar água (1Sm 7,6)
- fazer incisões no corpo (Os 7,14)
- dar esmolas para perdão dos pecados (Tb 4,11; Tb 12,9).
Born também observa que as boas obras e a oração, aos poucos, foram substituindo o sacrifício ritual (Eclo 17,25; 21,1; 28,4; 39,5).
Havia ainda dias específicos de penitência e jejum (Jr 36,6.9; Jl 2,15), que podiam coincidir com aniversários de calamidades nacionais (Zc 7,3-5).
O risco de uma penitência apenas exterior
Born faz uma observação importante sobre essas práticas:
A prática de penitência corria de duas maneiras o perigo de ficar sem a base de sentimentos internos de arrependimento e consciência de culpa: as manifestações comunitárias de penitência nem sempre eram acompanhadas de arrependimento pessoal, e os atos externos de penitência praticados pelo indivíduo podiam tornar-se um formalismo vazio.
(1Sm 15, 22s; Is 1, 10-17; Is 29,13; 1s 58; Jr 7; Jr 14,12; Os 6,6; Os 7,14; Jl 2,13; Zc 7,5s; cf. Mt 9,13; Mt 12,7; Mc 12,33),(BORN, 1977, p. 1177).
Por isso, os profetas constantemente recordavam ao povo a verdadeira essência da penitência e da religiosidade.
Assim, no Antigo Testamento, a vida penitencial podia estar separada do arrependimento interior e, portanto, não agradar a Deus.
A conversão no Novo Testamento
No Novo Testamento, a noção de conversão estava ligada a uma mudança de comportamento junto com a vivência de uma nova realidade escatológica. Podendo os cristãos apresentarem tristeza por pecar e recorrerem à confissão dos pecados (Mt 26,75; Lc7,38; Mt 3,6; Lc 15,21; Lc 18,13; Tg 5,16; 1Jo 1,9; Mt 11,21).
Born (1977, 1177-1178) comenta ainda que “os ‘dignos frutos de penitência’ (Mt 3,8 par.; At 26,20) não são obras de penitência, mas uma conduta de acordo com a conversão interna”.
Veja que assim como já apontava o Antigo, no Novo Testamento, a conversão interior é muito importante!
O que é a penitência interior segundo o Catecismo
Mesmo diante dessa abrangência de abordagem em relação à penitência, aqui usaremos o sentido de “penitência interior” trazido pelo Catecismo da Igreja Católica, no nº 1430, como aquela que visa à conversão do coração expressa por sinais visíveis, gestos e obras, pois:
“A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração)” (CATECISMO, n. 1431).
Mas não se pode esquecer que a conversão do coração é obra da graça de Deus e acontece também quando contemplamos a grandeza do amor Dele no Cristo crucificado, que morreu pelos nossos pecados (CATECISMO, n. 1432).
A graça de Deus e a conversão do coração
Destacamos o pensamento de São Clemente de Roma que diz: “Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo e compreendamos quanto Ele é precioso para o seu Pai, pois que, derramado para nossa salvação, proporcionou ao mundo inteiro a graça do arrependimento”. E é o Espírito Santo que desmascara o pecado e ao mesmo tempo consola ao homem concedendo-lhe a graça do arrependimento e da conversão (CATECISMO, 1432-1433).
E a ainda temos o antídoto para nos livrar dos pecados que é a Eucaristia pela qual somos nutridos e fortificados nessa luta.
Na leitura da Palavra, na Liturgia das Horas, na oração do Pai Nosso, no culto ou ato de piedade também são renovados em nós “o espírito de conversão e de penitência e contribuem para o perdão dos nossos pecados” (CATECISMO, n. 1437).
Os tempos de penitência na Igreja
O Catecismo ainda menciona, no nº 1438, que “os tempos e os dias de penitência no decorrer do Ano Litúrgico (tempo da Quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja.
Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola, a partilha fraterna (obras caritativas e missionárias)”.
Tudo deve decorrer da conversão do coração a Deus!
Jejum, oração e esmola: expressões da penitência interior
A penitência interior ou conversão do coração é expressa por diversas formas como o jejum (abstinência total ou parcial de comida e bebida), a oração e a esmola (compaixão, beneficência), mencionadas pela Sagrada Escritura e pelos Santos Padres, conforme o Catecismo da Igreja Católica, no nº 1434.
Tais formas de penitência devem brotar do coração convertido, cheio de amor e conhecimento de Deus, ansioso por jejuar, orar e partilhar o que tem, por ter o coração invadido pela misericórdia do Pai, vivida no Filho.
Um coração misericordioso e desejoso também de amar. E sendo assim, não são meros sacrifícios oferecidos a Deus, mas devem decorrer do movimento de conversão provado pela graça de Deus nos corações abertos dos homens.
A penitência interior como expressão de amor
Veja que não são simplesmente práticas exteriores, e não precisam ser exageradas, carregadas de sofrimento e dores excessivos, e nem devem provocar destruição ou prejuízo ao corpo e à alma e muito menos ao próximo.
A misericórdia divina, que também deve brotar do coração do homem, não permite que tenhamos atitudes de mutilação ou destruição contra nós mesmos e contra os outros por conta dos nossos pecados.
Jesus já pagou na Cruz pelos nossos pecados. A importância da penitência está em refletir a conversão de um coração a Deus, que se coloca em jejum, em oração e disposto a partilhar como expressão do amor a si, a Deus e ao próximo.
Misericórdia e conversão: o centro da vida cristã
Veja ainda o que diz o Catecismo da Igreja Católica: “1435. A conversão realiza-se na vida quotidiana por gestos de reconciliação, pelo cuidado dos pobres, o exercício e a defesa da justiça e do direito (28), pela confissão das próprias faltas aos irmãos, pela correção fraterna, a revisão de vida, o exame de consciência, a direção espiritual, a aceitação dos sofrimentos, a coragem de suportar a perseguição por amor da justiça. Tomar a sua cruz todos os dias e seguir Jesus é o caminho mais seguro da penitência.”
E então retomamos a exortação inicial de Jesus, expressa em Mt 9,13, indicando-nos a sua preferência pela Misericórdia, sabendo que as formas de penitência, como o jejum, a oração e esmola devem assumir na nossa vida a dimensão de expressão do amor a si, a Deus e ao próximo e serem expressão de um coração convertido a Deus.
Referência:
– CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 1999.










