Como ser um bom pastor no dia a dia?
Sempre que nos aproximamos da Palavra de Deus, somos convidados a olhar para a nossa própria conduta. Na liturgia de hoje, a profecia de Ezequiel e o Evangelho de São Mateus nos apresentam um forte apelo ao exame de consciência sobre como estamos exercendo a missão do cuidado com o próximo.
O exame de consciência e a denúncia de Ezequiel
A primeira leitura, extraída do livro do Profeta Ezequiel, dirige-se inicialmente aos pastores da Igreja — padres e bispos —, mas alcança a vida de cada fiel. Naquela época, o povo sofria pela ausência de verdadeiros guias espirituais, pois os maus pastores buscavam apenas os próprios interesses.
A denúncia do profeta ecoa até os dias de hoje: os sacerdotes são ordenados para cuidar do povo de Deus, mas, por causa do pecado e do cansaço, muitas vezes corremos o risco de nos anular e esquecer a essência desse chamado.
Hoje, há muitas ovelhas desgarradas, feridas e confusas precisando de amparo. Essa leitura nos dá uma “sacudida” necessária e nos faz questionar: será que estamos sendo bons pastores?
Uma missão para todos os cristãos
Essa pergunta não se restringe ao clero. Ela se estende a você que é:
-
Pai ou mãe de família;
-
Coordenador de grupo de oração, movimento ou pastoral;
-
Supervisor ou gestor em uma empresa;
-
Responsável por cuidar de pessoas em qualquer ambiente.
Deus nos confiou o pastoreio e o cuidado de quem está ao nosso lado. Não podemos “pastorear a nós mesmos” nem abandonar aqueles que o Senhor colocou sob a nossa responsabilidade.
O valor do acolhimento humano e espiritual
Quando somos bem atendidos em um estabelecimento, em um consultório ou em um serviço público, saímos felizes e gratos pela atenção recebida. O bom acolhimento transforma a experiência humana.
Se a atenção e o carinho fazem tanta diferença na vida cotidiana, imagine na dimensão espiritual.
Infelizmente, vivemos tempos em que o poder por vezes é usado para oprimir, constranger ou explorar as ovelhas. Como destacava Santo Agostinho, a lã e o leite citados por Ezequiel representam os bens materiais; e há quem explore o rebanho para enriquecer. Não fomos chamados a isso. A missão do pastor é acolher, amar, acompanhar e servir com gratuidade.
A Parábola da Vinha: Acolher sem inveja ou ciúme
No Evangelho segundo São Mateus, Jesus nos apresenta a parábola do proprietário que sai em diferentes horas do dia — às 9h, ao meio-dia, às 15h e às 17h — para contratar operários para a sua vinha. No final, o senhor paga a mesma quantia a todos, a começar pelos últimos.
Os operários da primeira hora — que representam o povo da primeira aliança — murmuraram e reclamaram por receberem o mesmo valor que aqueles que chegaram ao final do dia.
A alegria pelo resgate do irmão
Essa passagem traz uma lição profunda sobre a misericórdia de Deus:
-
Não tenha inveja de quem está chegando agora: Independentemente de você estar na Igreja há 10, 20 ou 80 anos, alegre-se quando um irmão que estava distante ou no pecado tem um encontro transformador com Deus.
-
Ninguém tira o lugar de ninguém: A Igreja tem espaço para todos. As rivalidades e disputas não condizem com o Reino de Deus.
-
A recompensa é a mesma: O Pai acolhe a todos com a mesma generosidade, não importando a hora em que atenderam ao Seu chamado.
O olhar voltado para Jesus, o Bom Pastor
Diante dos desafios do pastoreio, nosso olhar deve estar fixo em Jesus Cristo, que garante: “Eu sou o bom pastor”. Na plenitude dos tempos, o próprio Deus veio em nosso auxílio para cuidar de cada uma de Suas ovelhas.
Podemos aprender também com o testemunho de São Francisco de Assis, que se desapegou de todas as seguranças materiais para servir aos mais pobres e necessitados.
Que o Nosso Senhor nos dê um coração semelhante ao Dele, para que o nosso discurso de amor e partilha se torne uma realidade concreta por meio do nosso testemunho diário no Santuário do Pai das Misericórdias e em nossas famílias.




