EVANGELHO DO DIA

A Promessa de um Coração Novo - Padre Renné Viana (20/08/2026)

Nós estamos acompanhando na Sagrada Liturgia a leitura da profecia de Ezequiel (capítulo 36). Para entendermos a mensagem, precisamos recordar o contexto: o povo de Israel, que havia sido liberto da escravidão no Egito e conduzido à Terra Prometida, acabou se corrompendo. Abandonaram o Senhor e cultuaram outros deuses. Como consequência dessa infidelidade, perderam a terra e foram levados cativos para o exílio na Babilônia.

Neste cenário de exílio e saudade, Deus levanta o profeta Ezequiel para trazer uma nova promessa. O Senhor recorda que a santidade do Seu nome foi profanada entre as nações, mas, por pura misericórdia e para manifestar o Seu poder, Ele promete um novo êxodo.

Deus diz ao seu povo: “Eu vos tirarei do meio das nações, vos conduzirei para a vossa terra. Derramarei sobre vós uma água pura, vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós”. O Senhor promete arrancar o coração de pedra e dar um coração de carne.

A Pedagogia do Amor Divino

Essa pedagogia de Deus com o povo de Israel é a mesma que Ele tem para conosco. Deus nos ama tanto que, se for preciso abrir o mar novamente para que voltemos ao Seu amor, Ele o fará sem hesitar. A promessa não é uma palavra morta do passado; é o Senhor olhando nos seus olhos hoje e dizendo que Lhe dá mais uma chance. Somos, muitas vezes, um povo infiel, mas a misericórdia de Deus ultrapassa a nossa compreensão. Ele não desiste, não se cansa, e faz de tudo para que voltemos à fidelidade.

O Banquete do Céu e o Traje de Festa

O Evangelho do dia reforça essa lógica através da Parábola do Banquete de Casamento. O rei prepara uma grande festa para o seu filho. Quando os primeiros convidados recusam o convite, o rei manda abrir as portas para todos os que estão nas encruzilhadas e estradas. O banquete representa o Reino dos Céus, e o Senhor alargou as portas da salvação para que todos nós pudéssemos entrar.

No entanto, há uma única condição: estar com o traje de festa. Esse traje não é apenas uma roupa requintada, mas a nossa alma lavada e purificada pelo sangue do Cordeiro. Recebemos essa veste pura no dia do nosso batismo, mas precisamos mantê-la sem manchas. Se o Senhor voltar hoje, Ele precisa nos encontrar com o nosso traje de festa espiritual.

A Missão de Preparar um Povo

A Canção Nova e o Santuário do Pai das Misericórdias carregam essa missão urgente: preparar o banquete e formar um povo bem disposto para acolher o Senhor que vem em glória. Somos chamados a lutar diariamente por uma vida de santidade.

Inspirados por São Bernardo e São Francisco

Ao olharmos para os santos, compreendemos o que é a generosidade de um coração de carne. São Bernardo de Claraval nos ensina que um homem que ama a Deus de verdade não vai sozinho para o céu; ele levou dezenas de jovens para o mosteiro junto consigo. Da mesma forma, recordamos São Francisco de Assis, um homem que gritava pelas ruas de Assis que “o Amor não é amado”, mas cujo coração era a própria morada viva de adoração a Nosso Senhor.

Como escreveu lindamente São Bernardo: “Quando Deus ama, não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado, porque bem sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem”. O amor que devolvemos a Deus não O altera, mas nos faz verdadeiramente felizes.

Criai em mim um Coração Puro

Nós precisamos colocar a mão no coração e reconhecer que somos pecadores e necessitados de Deus. Se não tomarmos cuidado, mesmo servindo ao Senhor, nosso coração pode voltar a ser de pedra.

Por isso, nosso clamor constante deve ser o do Salmo: “Criai em mim um coração que seja puro. Dai-me de novo um espírito decidido”. Que possamos pedir ao Senhor a graça de amar de verdade, com um coração novo e generoso, pronto para o banquete eterno.