Ossos Ressequidos: Deus Restaura Sua Vida
Padre Aílton, queridos padres, seminaristas, religiosos, religiosas, irmãos e irmãs — presentes no Santuário ou que nos acompanham pelas redes sociais e meios de comunicação: começamos um acampamento de oração que traz em seu próprio nome uma palavra decisiva: Fraternidade.
Não estamos aqui para viver uma emoção passageira durante estes três dias, para assistir a um espetáculo ou show religioso, nem tampouco para acrescentar mais um compromisso em nossa agenda. Nós viemos porque Deus nos chama! Viemos porque há em cada pessoa uma sede profunda que nenhum ruído do mundo consegue saciar. Viemos porque Cristo continua a passar no meio do Seu povo e a repetir — com a delicadeza de quem conhece nossos cansaços, mas com a força inabalável de Quem venceu a morte:
“Eu quero que vocês vivam! Eu quero que vocês se levantem! Eu quero que vocês se amem! Eu quero que vocês anunciem!”
O tema que nos reúne ressoa a ordem apostólica: “Sede imitadores de Cristo. Ide e anunciai o Evangelho.” Trata-se de aprender d’Ele o olhar, a escuta, o perdão, o toque nas feridas e o servir sem ocupar o centro, dando a própria vida — a exemplo do que fez São Francisco de Assis, cujas relíquias veneramos nesta graciosa memória dos 800 anos de seu transitus.
1. Deus Entra na Planície dos Nossos Ossos Ressequidos
Na primeira leitura litúrgica, o profeta Ezequiel é conduzido pelo Espírito Santo a uma planície repleta de ossos. Não eram poucos: eram muitos. E não estavam apenas mortos, estavam ressequidos — a secura extrema de quem faleceu há muito tempo, a aridez de uma esperança que deixou de existir, a sensação dolorosa de que já não há mais o que fazer.
“Assim diz o Senhor Deus aos ossos ressequidos: Escutai a palavra do Senhor.” (cf. Ez 37, 4)
Deus não mandou o profeta fazer uma análise sociológica da morte, nem acusar o povo por ter chegado àquela condição. Deus dá uma ordem profética: “Fala em Meu nome, empresta tua voz à Minha promessa e faz chegar à aridez a palavra que ela já não consegue imaginar.”
Talvez existam situações na sua vida, na sua casa ou em sua família que hoje se assemelham a essa planície de ossos ressequidos. Contudo, saiba: Deus não tem medo de entrar na sua planície. Ele não se afasta da nossa morte nem se escandaliza com os nossos fracassos. Pelo contrário, Ele visita exatamente o lugar onde a nossa esperança humana acabou — aquilo que o mundo chama de ruína, Deus chama de terra fértil onde a ressurreição pode começar.
O Perigo de Tornar-se “Amigo da Secura”
O grande perigo na vida espiritual não é passar pela secura — afinal, todos enfrentamos dias secos. O perigo real é aceitar o desânimo como identidade e concluir que a vida se limita às nossas próprias forças. Quando isso acontece, a pessoa continua andando, trabalhando e servindo, mas torna-se um corpo presente e uma alma ausente.
A Oração da Humildade: “Senhor Deus, só Tu o Sabes”
Diante da pergunta divina: “Filho do homem, poderão estes ossos voltar à vida?”, Ezequiel não responde com arrogância. Ele faz uma das orações mais belas da Bíblia: “Senhor Deus, só Tu o sabes.”
Esta é a oração de quem não quer controlar tudo; de quem deixa de fingir que tem respostas para todas as perguntas e reconhece:
-
“Senhor, eu não sei como, mas Tu sabes!”
-
“Eu não vejo saída, mas Tu és a saída!”
-
“Eu não enxergo a vida, mas Tu és a Vida!”
2. “Porei em Vós o Meu Espírito”: Da Estrutura à Vida Nova
Na visão de Ezequiel, os ossos se aproximaram, surgiram os nervos, a carne e a pele; contudo, ainda faltava o essencial: o Sopro de Deus. Havia forma, mas não havia vida; havia corpo, mas não havia espírito.
Quantas vezes isso se repete em nossa caminhada? Podemos ter inúmeras atividades pastorais e pouca vida interior; muitos compromissos e pouca compaixão; estruturas e seguidores, mas falta do Espírito de Jesus. Podemos reunir multidões e falhar em edificar a verdadeira fraternidade.
“Porei em vós o meu Espírito e vivereis, e vos colocarei em vossa terra.” (Ez 37, 14)
O protagonista de toda evangelização é o Espírito Santo. Quando Ele sopra, a multidão se põe de pé. Levantar-se é romper com toda resignação: ninguém foi batizado para viver prostrado no medo ou retido na nostalgia. O Espírito Santo aproxima os corações separados e gera a verdadeira comunhão fraterna.
Evangelizar não é recrutar pessoas para uma causa, mas oferecer um abrigo, uma casa no Santuário do Pai das Misericórdias para quem se sente sem lugar.
3. O Amor como Critério e Centro da Nossa Existência
Ao responder qual é o maior mandamento (Mt 22, 37-39), Jesus declara: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração… e ao teu próximo como a ti mesmo.”
Enquanto muitos esperavam leis frias ou regras fáceis, Jesus coloca o Amor no centro de tudo. O amor verdadeiro não pode ser fabricado por decreto humano ou exigido sob pressão; ele é dom e gratuidade.
Como nos ensinava Santo Agostinho:
“Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres a raiz do amor enraizada em ti, nenhum outro fruto senão o amor poderá de ti brotar.”
Deus não tira nada de nós; Ele organiza a nossa vida. Quando colocamos Deus em primeiro lugar, a família, o trabalho, os estudos e os projetos encontram seu devido lugar e a sua justa paz.
4. O Exemplo de São Pio X: O Lugar onde Deus nos Salva
Recordamos também a memória de São Pio X (Giuseppe Sarto). Humilde pároco do interior da Itália, foi eleito Papa em 1903 sem jamais haver buscado honrarias. Chorou ao receber o resultado do conclave por sentir-se pequeno diante de tão grave missão.
Interrogado por um jornalista se realmente desejava ser Papa, respondeu com simplicidade desconcertante:
“Querer ser Papa eu não queria; mas se esta foi a única forma que Deus encontrou para me salvar, eu aceito.”
Essa resposta nos ensina que a vocação não é sobre os nossos desejos egoístas, mas sobre o plano de salvação que Deus tem para nós. O lugar onde você se encontra hoje é o lugar em que Deus está permitindo a sua salvação.




