A vida interior
O sobrenatural é tudo aquilo que supera a natureza do ser; ou seja, é uma dádiva concedida à criatura, mas, ao mesmo tempo, é algo divino, porque somente Ele pode transcender as necessidades de toda criatura. Trata-se aqui de um dom dado por Deus que nos confere a capacidade de participar de Sua Vida Divina.
Existem duas formas pelas quais o sobrenatural age em nós:
- Encarnação: Deus Se une à humanidade na pessoa do Verbo Encarnado.
- Graça santificante: o homem permanece homem, sem dúvida, com suas faltas e defeitos; porém, isso é modificado Divinamente, e é devolvida ao homem a sua imagem e semelhança com Deus. Essa graça nos faz participar da vida divina.
Deus deu ao homem essas duas formas sobrenaturais para a sua vida. No Éden, Ele doou aos nossos primeiros pais o dom da integridade, que aperfeiçoa o homem sem torná-lo divino. Ao aperfeiçoar a sua natureza, dispôs o homem a receber a graça e, ao mesmo tempo, conferiu-lhe a própria graça, gratuitamente e por amor.
Dons sobrenaturais conferidos a Adão e Eva
Compreendem-se três grandes privilégios dados pela graça de Deus que, sem merecimento, o homem recebe para seu aperfeiçoamento. As consequências do pecado original no homem não mudam com essas graças; porém, elas auxiliam no aperfeiçoamento e no crescimento nas virtudes, as quais agem diretamente nessas faltas.
São eles:
- Ciência infusa: foi dada ao homem na sua criação para que pudesse agir como cabeça e educador quando Deus submeteu a criação a ele. Deus lhe deu gratuitamente todas as verdades que eram necessárias.
- Domínio das paixões: o homem, hoje, vive sob a tirania da concupiscência, numa luta entre o bem e o mal por causa do pecado original. Em Adão, essa inclinação violenta ao mal não estava presente. Tendo sua vontade subordinada a Deus, suas faculdades interiores eram submissas à razão, e o corpo, à alma; esta era, portanto, a retidão perfeita.
- Imortalidade corporal: por natureza, o homem está sujeito à doença e à morte. Por providência, ele foi preservado dessas duas fraquezas. Mas esse privilégio tinha o objetivo de tornar o homem apto a receber um dom muito mais precioso, inteira e absolutamente sobrenatural: a graça santificante.
A essa graça sobrenatural podemos acrescentar ainda as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, que divinizam os sentidos do homem, prejudicados pelo pecado, e o movimentam em direção a Deus, tornando-o capaz de atos sobrenaturais aqui na Terra, como uma antecipação da vida eterna.
Todos esses privilégios sobrenaturais foram dados a Adão não como um bem pessoal, mas como um patrimônio familiar. O que isso quer dizer?
Todos esses dons deveriam ter sido passados para a sua descendência, contanto que ele permanecesse fiel a Deus.
Por meio do Espírito, somos resgatados
Tendo em vista que Adão não permaneceu fiel, como sabemos, a humanidade perdeu, ao menos parcialmente, essas graças sobrenaturais. Porém, com a Encarnação do Verbo, ela é salva: pelo Batismo, a amizade com Cristo é restaurada; entretanto, as consequências do pecado permanecem. Diante disso, o Espírito Santo nos foi dado em Pentecostes para ser o Mestre interior na vida do homem.
Ele vem pessoalmente para amaestrar a nossa humanidade ferida pela concupiscência, confere a vida sobrenatural e desperta a vida interior, pois, sozinho, o homem não conseguiria. Ele nos comunica uma vida nova, que é vital para a nossa santificação — uma vida nova que toca a nossa inteligência para a compreensão dos atos pecaminosos, impulsionando-nos à renúncia deste mal. E, como um educador, Ele vai nos formando, devolvendo-nos as características da imagem de Deus.
A nossa vida, entretanto, consiste, dentro do plano da salvação, em utilizar os dons divinos para viver em Deus e para Deus, para viver uma profunda união com Jesus e imitá-Lo. E, porque a concupiscência persiste em nós, não podemos viver senão combatendo-a ferozmente. Além disso, Deus nos deu uma vida sobrenatural (interior) e, com o auxílio do Espírito Santo, temos a obrigação de fazê-la crescer em nós por meio de atos meritórios (prática da caridade, jejum, sacrifícios, oração pessoal) e da frequência aos sacramentos.
Sabendo bem da nossa impotência e de que, sozinhos, não podemos cultivar uma vida interior, Ele colabora conosco por meio do Seu Espírito, tornando-nos um templo santo e iluminando a nossa inteligência quanto às realidades celestes e aos meios para chegar lá. É Ele quem nos sugere bons pensamentos e nos impulsiona às boas obras. Precisamos de força para orientar sinceramente a nossa vida em direção à eternidade e, sem o Espírito, nada podemos fazer.
O segredo: pedir o Espírito Santo
Se já compreendemos que sem Ele não há vida sobrenatural, resta uma pergunta: o que devemos fazer?
A resposta é simples e profunda. Assim como os apóstolos reunidos no Cenáculo perseveravam em oração, também nós devemos pedir sem cessar: “Vem, Espírito Santo!”.
E, quando Ele vier, tudo será transformado. Se você está vivendo um deserto espiritual, esta graça também é para você. Peça, insista, persevere — Ele virá e transformará o deserto em terra fecunda.
Deus abençoe!








