A Quaresma de São Miguel é um tempo propício para nos unirmos mais aos Anjos, os nossos irmãos celestes, e, assim, formarmos uma família espiritual com eles. O Anjo que está mais próximo de nós é, sem dúvida, o nosso Anjo da Guarda. Ele nos foi dado por Deus para ser nosso irmão e companheiro de caminhada. Portanto, o Anjo da Guarda é um dom de Deus que deveríamos apreciar e “aproveitar”.
A missão do Anjo da Guarda
Para entendermos melhor a missão do nosso Anjo da Guarda, meditemos as duas passagens bíblicas que a Igreja escolheu para o dia da memória dos Santos Anjos da Guarda (2 de outubro), que se segue logo à festa dos arcanjos (29 de setembro):
Ex 23, 20-23:
“Assim fala o Senhor Deus: Mandarei um Anjo à tua frente, para que te guarde pelo caminho e te introduza no lugar que eu preparei. Respeita-o e ouve sua voz. Não lhe sejais rebelde; ele não suportará vossas rebeliões. Pois nele está o Meu nome. Mas se de fato ouvires sua voz e fizeres tudo quanto te disser, Eu serei inimigo dos teus inimigos e adversário dos teus adversários. Meu Anjo marchará adiante de ti.”
Esta palavra de Deus é dirigida ao povo de Israel que caminhava através do deserto até a Terra Prometida, mas vale também para cada um de nós que fazemos parte do novo Povo de Deus, a Igreja, em sua caminhada rumo à Jerusalém celeste.
A tarefa do Anjo da Guarda em relação a nós
Através da sua palavra, Deus nos revela a tarefa do Anjo da Guarda: o Anjo vai à nossa frente para nos conduzir ao nosso destino. Ele procura conduzir-nos ao céu, semelhante ao guia de montanha ou ao GPS, que indicam o caminho a seguir. Ao mesmo tempo, ele nos guarda e nos protege dos perigos. Quais são esses perigos pelo caminho?
- Em primeiro lugar, é a nossa própria fraqueza:
porque somos fracos, precisamos da ajuda do nosso irmão celeste, que nos ilumina e fortalece. - Em segundo lugar, são os ataques do maligno:
“Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às armas do demônio” (Ef 6, 11), disse São Paulo. O próprio Anjo é esta armadura invisível que Deus nos deu no combate espiritual contra o adversário. Por isso, devemos pedir sempre sua proteção e auxílio, especialmente nas tentações.
Os nossos deveres em relação ao Anjo
O texto bíblico citado acima fala também dos nossos deveres em relação ao Anjo. Uma vez que o Anjo da Guarda está ao nosso lado em nome de Deus, devemos:
- Reconhecer a sua autoridade e lhe mostrar o respeito e a reverência que lhe são devidos como mensageiro de Deus, pois “nele está o Meu Nome”, diz o Senhor.
- Deixar-nos conduzir pelo Anjo prestando atenção à sua voz (“Ouve sua voz!”) e obedecer-lhe (“Não lhe sejas rebelde!”). O Anjo fala no nosso interior na voz da consciência e nos diz exatamente o que Deus nos quer dizer. Obedecer ao Anjo significa obedecer a Deus (“Se de fato ouvires sua voz e fizeres tudo quanto eu te disser”).
Como posso discernir a voz do Anjo da voz do inimigo?
O Anjo é o representante de Deus ao nosso lado para nos conduzir no caminho da salvação. Ele nos adverte dos perigos. Às vezes diz: “Não faças isto!”, outras vezes: “Faça aquilo!” Sempre ele nos dá santos pensamentos e boas inspirações. Assim, ele nos mostra como ser mais generosos e como crescer no amor a Deus e ao próximo. O exemplo perfeito de docilidade ao Anjo é a Virgem Maria que, na Anunciação, ouviu o Anjo no silêncio do seu coração, conversou com ele e depois disse o seu “sim” ao plano de Deus.
O anjo caído, o demônio, pelo contrário, procura desviar-nos do caminho. Ele sugere coisas que não agradam a Deus, mas muitas vezes são prazerosas para nós. Ele se aproveita das nossas fraquezas para nos conduzir ao caminho do pecado e da perdição. Eva foi uma pessoa que, conversando com a serpente, deixou-se enganar e, assim, caiu na escravidão de Satanás. É importante que não comecemos nenhuma conversa com o tentador, mas aprendamos a rejeitá-lo logo com força.
Ser dócil como uma criança
Além de Ex 23, 20-23, há um outro texto bíblico importante referente ao Anjo da Guarda. São as palavras de Jesus em Mt 18, 10:
“Não desprezeis um só destes pequeninos! Eu vos digo que os seus Anjos, no céu, contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus.”
Quem são estes “pequeninos”, dos quais fala nosso Senhor Jesus Cristo aqui?
Não são somente as crianças, mas todos os discípulos de Jesus. O Senhor escolhe a imagem da criança porque quer explicar que um verdadeiro discípulo deve ser como uma criança: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).
Precisamente na relação com o nosso Anjo da Guarda devemos ser como crianças, pois ele é o nosso irmão mais velho, o nosso guia. Nossa atitude fundamental para com o Anjo deve ser aquela de docilidade e de prontidão para aprender, tal qual uma criança.
O Anjo da Guarda, ponte entre Deus e nós
O fato de o nosso Anjo contemplar sem cessar a Face do Pai (cf. Mt 18, 10) quer dizer que ele está conosco e, ao mesmo tempo, vê a Face de Deus. A tarefa do Anjo da Guarda consiste precisamente em fazer-nos participar da sua proximidade com Deus e ensinar-nos a manter fixo o nosso olhar em Deus não somente durante a oração, mas também durante o trabalho e em todas as situações da vida. Caminhemos, pois, com o Anjo para aprendermos dele a caminhar na presença de Deus e a louvá-lo sem cessar: “Na presença dos Anjos, eu vos louvarei, Senhor!” (Sl 138, 2).
O Anjo da Guarda, dom de Deus para nós
Deus, na sua generosidade e misericórdia, concedeu a cada um de nós um Anjo da Guarda que Ele mesmo escolheu desde toda a eternidade para ser nosso irmão celeste e companheiro de caminho. Se nós mesmos pudéssemos ter escolhido o nosso Anjo da Guarda, certamente não encontraríamos outro melhor do que aquele que Deus nos deu em Sua infinita sabedoria. O nosso Anjo combina conosco e nós com ele. Portanto, deveríamos ter um grande desejo de conhecê-lo mais e de tratá-lo como irmão e amigo.
Padre Pio sobre o Anjo da Guarda
Numa carta a uma filha espiritual, São Padre Pio escreve sobre a missão do Anjo da Guarda na nossa vida:
Oh! Rafaelina, que consolo é saber que cada um de nós está continuamente aos cuidados de um espírito celestial, que não nos abandona (que admirável) mesmo que desagrademos a Deus! Quão doce é esta verdade para os que têm fé! De quem deveria então ter medo uma alma devota que procura amar Jesus, mesmo estando sempre em grande perigo? Oh! Não foi ele um dos muitos espíritos celestiais que, junto com São Miguel Arcanjo, defendeu a honra de Deus contra Satanás e contra todos os outros espíritos rebeldes, e finalmente os reduziu à perdição e os colocou no inferno?
Bem, saiba que ele ainda continua tendo grande poder contra Satanás e seus asseclas; o seu amor por nós não diminuiu e ele nunca falhará em nos defender. Desenvolva o belo hábito de sempre pensar nele: pense que ao nosso lado tem um espírito celestial que, do berço ao túmulo, não nos abandona por nenhum instante; que nos guia, nos protege como um amigo, um irmão e que sempre nos consolará, especialmente nos momentos tristes.
Exame de consciência
Perguntemo-nos: como é a nossa relação com o Anjo da Guarda?
- Eu escuto o meu Anjo da Guarda?
- Eu o saúdo pela manhã? Faço sempre a oração “Santo Anjo do Senhor”?
- Eu lhe digo à noite: guardai-me enquanto durmo?
- Eu falo com ele, peço-lhe conselho? Agradeço-lhe?
Sim, como é a minha relação para com este Anjo, que o Senhor me enviou para me proteger e acompanhar no meu caminho e que sempre vê a face do Pai que está nos céus?
Oração:
Santo Anjo da Guarda, que me foste dado por Deus como companheiro para toda a minha vida, salva-me para a eternidade e cumpre o teu dever para comigo, o qual te confiou o amor de Deus. Sacode-me na minha indiferença e tira-me da minha fraqueza. Fecha para mim todo o caminho e pensamento errados. Abre os meus olhos para Deus e para a cruz. Mas fecha os meus ouvidos diante das insinuações do inimigo maligno. Vigia sobre mim quando estou dormindo e fortalece-me durante o dia para o dever e para cada sacrifício. Deixa-me ser um dia tua alegria e tua recompensa no céu. Amém.





