“Bem aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5,7)

O seguimento de Jesus

No inicio da nossa caminhada cristã, somos levados a um profundo arrependimento e a renunciarmos a tudo aquilo que nos levava a uma vida de pecados, afastada de Deus e sem nenhum sentido. É costume escutarmos, por exemplo, um jovem relatando seu encontro pessoal com Jesus e que depois deste encontro aquele jovem deixou as drogas, parou de frequentar lugares que o levaria a pecar. O jovem é somente um exemplo, pode ser um adolescente e até mesmo um religioso. Claro que as situações serão diferentes de um jovem. O importante é o encontro pessoal com Cristo.

Deixar uma vida desvirtuada é um passo importante para quem está seguindo Jesus Cristo. Isto aponta o grande desejo de crescer em virtudes e no amor ao Senhor. Sendo assim, neste processo de conversão, Jesus sugere um caminho seguro para quem deseja realmente progredir em virtudes e não deixar somente de cometer atos pecaminosos, mas crescer na santidade de vida e ser um homem novo.

O caminho apontado por Jesus é o das bem aventuranças e, de forma especial, a bem aventurada misericórdia: “Bem aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). “As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus Cristo e descrevem-nos a sua caridade: exprimem a vocação dos fiéis associados à glória da sua paixão e ressurreição; definem os atos e atitudes características da vida cristã” (CEC, 1717).

O bom samaritano / franciscanos.org

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Nos configuremos a Cristo

O cristão para amadurecer na fé precisa ter ciência de qual é o bem moral que ele precisa praticar (cf. VS, 8), pois não basta deixar de fazer e sim começar a ser, como dei o exemplo, mas é necessário voltar-se inteiramente a Cristo e se configurar naquilo que Ele é, isto é, Ele é o bem aventurado por excelência.

Misericórdia é um atributo próprio de Deus. “Que Deus Pai era misericordioso, o povo hebreu bem o sabia; era problemático pensar que os seres humanos pudessem ser como Ele” (Conselho Pontifício para a promoção da Nova Evangelização. As Parábolas da Misericórdia. 2015, p. 5). Ser misericordioso como Deus é como se acolhêssemos um tesouro que Ele mesmo quer partilhar conosco. Só que este tesouro não deve ser retido para nós mesmos e sim partilhado com os mais necessitados.

A vivência das bem aventuranças aparece como resposta àqueles que buscam a perfeição cristã. “Cada bem-aventurança promete, desde uma particular perspectiva, precisamente aquele ‘bem’ que abre o homem à vida eterna, mais, que é a própria vida eterna” (VS, 16). Como afirma a Carta Encíclica Veritatis Splendor, as bem aventuranças não apresentam normas, mas atitudes e disposições de coração que acabam por advir na vivência de uma liberdade ordenada à perfeição que é o amor.

O que é ser misericordioso?

Nas diversas parábolas que os evangelistas narram sobre o perdão e a misericórdia, existe uma que eu quero ressaltar. Trata-se da parábola do servo cruel (cf. Mt 18, 21-35). A parábola diz de um rei que resolveu acertar as contas com os servos. Logo que o ajuste iniciou, trouxeram ao rei um servo que lhe devia uma fortuna inimaginável, isto é, o servo devia tanto que era até difícil calcular a sua dívida. Só que o patrão teve misericórdia do servo e perdoou toda a sua dívida. Apesar disso, aquele servo perdoado ao sair da presença do seu senhor, encontrou com um dos seus companheiros que lhe devia uma quantia muito pequena. Contudo, o servo que foi perdoado de toda a sua dívida não teve a mesma atitude com o seu companheiro: mandou jogar o seu companheiro na prisão até que ele pagasse tudo o que estava devendo.

O relato da parábola não descreve como o servo pôde endividar-se a tal ponto. Interessante que ele não se recusa a pagar, só pede paciência ao patrão; só que a atitude do patrão é de uma profunda compaixão por este empregado. Mesmo que ele tentasse pagar nunca conseguiria. Isso significa que para nós, mesmo que quiséssemos pagar nossa dívida contraída pelo pecado, não conseguiríamos. A salvação é um dom gratuito de Deus dado ao ser humano.
A pergunta que o rei faz no final desta parábola leva-nos a refletir: “Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”.

A parábola nos ensina da necessidade de se imitar a misericórdia divina, porque a dívida que nós contraímos por causa do pecado foi enorme, no entanto, Deus perdoou-nos enviando o Seu Filho para pagar todo nosso pecado. “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus” (2 Cor 5,21). Jesus, o Filho amado do Pai, assumiu a condição humana e viveu o Mistério Pascal por amor a humanidade.

Jesus foi o primeiro a encarnar em sua vida a misericórdia, pois Ele mesmo diz que só faz o que vê o Pai fazendo (cf. Jo 5, 19). Todas as atitudes de misericórdia de Jesus tem como fonte o Pai Misericordioso, como relatam as diversas parábolas contidas no capítulo 15 do Evangelho de São Lucas. “Em Cristo e por Cristo, Deus com a sua misericórdia torna-se também particularmente visível; isto é, põe-se em evidência o atributo da divindade” (DM, 2).

A única coisa que nós podemos fazer é imitar o exemplo de Deus. Isto é, ser misericordioso com o próximo e perdoar todas as ofensas que eles nos fazem. “Jesus Cristo ensinou que o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a ‘ter misericórdia’ para com os demais. ‘Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia’ (Mt 5,7). A Igreja vê nestas palavras um apelo à ação e esforça-se por praticar a misericórdia. Se todas as bem-aventuranças do Sermão da Montanha indicam o caminho da conversão e da mudança de vida, a que se refere aos misericordiosos é particularmente eloquente a tal respeito. O homem alcança o amor misericordioso de Deus e a sua misericórdia, na medida em que ele próprio se transforma interiormente, segundo o espírito de amor para com o próximo” (DM, 14).

Diácono Uélisson Santos
Comunidade Canção Nova