Patriotismo: uma montanha-russa de sentimentos
Os sentimentos patrióticos entre nós, brasileiros, são um pouco como a relação das pessoas com uma montanha-russa: há aqueles que acham que é coisa de gente maluca e por isso nem chegam perto. Há outros que até embarcam, mas a empolgação de uma curva vira monotonia na outra, e a alegria numa subida vira terror e até aversão na descida. Por fim, há aqueles que são apaixonados por montanhas-russas e se divertem sempre, do início ao fim da jornada.
Do orgulho à decepção
Na minha infância e adolescência, a Copa do Mundo ainda era o grande catalisador do patriotismo; afinal, a Amarelinha simbolizava o futebol-arte, ninguém jogava bola como os brasileiros. Em 94, por exemplo, por mais que estivéssemos há 24 anos sem ganhar a Copa, nossa seleção era sempre o time a ser batido. Por isso, o país parou para ver os jogos, vestiu a camisa amarela, cantou “é taça na raça, Brasil” e gritou “É tetra!” com Galvão Bueno.
Mas o Brasil, país do futebol e do samba, também sofreu – e sofre – sendo o país de muita coisa menos auspiciosa: de país da inflação a país dos juros mais altos do mundo, de país da corrupção ao país do “jeitinho brasileiro”, de país da violência ao país da impunidade. Muitas vezes parece que o “orgulho de ser brasileiro” dá lugar à vergonha, e que aquele discurso de que “sou brasileiro, não desisto nunca” está ultrapassado, e agora é o momento de gritar: “Pare o trem, que eu quero descer!”
Será mesmo? Antes de começar a pensar em algum político que “pode dar um jeito no Brasil”, esclareço: este texto não vai caminhar nessa direção. Não vou politizar a nossa bandeira, nossas cores, a camisa da nossa seleção ou a festa da nossa Independência.
A lição de 1627: De Terra de Santa Cruz a Brasil
Interessa-me, porém, propor uma reflexão sobre um texto que tem quase 400 anos de idade. O Frei Vicente do Salvador, em sua obra História do Brasil, de 1627, lembra que a cruz foi levantada pela primeira vez em solo brasileiro no dia 3 de maio, quando a Igreja celebrava a “Invenção da Santa Cruz” (festa atualmente celebrada no dia 14 de setembro e chamada de “Exaltação da Santa Cruz”). Por essa causa, diz o frei, e em honra ao nosso Redentor, que morreu na cruz por nós, Pedro Álvares Cabral teria dado o nome de Terra de Santa Cruz ao território recém-descoberto. Esse nome, porém, não perdurou, e o frei vê nisso um símbolo:
“Porém, como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha sobre os desta terra, trabalhou para que se esquecesse o primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de cor abrasada e vermelha e com que se tingem panos, ao invés do daquele divino pau, que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja, e sobre o qual ela foi edificada e ficou tão firme e bem fundada, como sabemos”.
Diz o frei que talvez por abandonar o nome de Santa Cruz, que tanto assusta o demônio, e trocá-lo por um nome motivado inteiramente pelos interesses comerciais, o Brasil não foi para a frente. Esse mesmo país, que séculos depois seria chamado de “o país do futuro”, vivia da expectativa de que um dia as coisas iriam melhorar, se resolver, mas aparentemente isso não se concretizava nunca, e o país parecia andar apenas para trás.
Quando Cristo deixa o centro
A razão é a mudança do nome? Não, pois de fato isso seria uma superstição. A troca do nome apenas revela, segundo o frei, que Cristo deixou de ocupar o primeiro lugar no coração das pessoas. Ao afastar seus corações de Cristo, o homem afasta o seu coração do próximo, torna-se egoísta e mau. Não à toa, diz o frei, “nenhum homem nesta terra é republicano, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”.
É um caminho inevitável: trocar a Cruz de Cristo pelos interesses deste mundo é tirar Deus do centro da própria vida. Tirar Deus do centro é tornar-se incapaz de amar o próximo. Uma nação que não consegue amar o próximo é como aquela vinha preciosa descrita por Isaías: o dono cercou a vinha, limpou, plantou com excelentes videiras, cuidou com esmero e esperava que dessem uvas boas, mas deu uvas azedas. Isso é tão preocupante que o dono da vinha pergunta:
“Que me restava ainda fazer à minha vinha que eu não tenha feito? Por que, quando eu esperava que ela desse uvas boas, deu apenas uvas azedas?” (Is 5, 4).
Mudar o mundo começa arrumando a própria cama
É aqui, caro leitor, que me preparo para terminar o texto, mas calma aí, não pule para o fim nem pare agora, que quero levar você a pensar um pouco sobre tudo o que escrevi até agora, mas a partir de outra perspectiva. Um dia desses participei de um retiro para casais e o muito instruído palestrante enfatizava o papel da família católica no mundo. Em dado momento, ele disse que o futuro do nosso país, do nosso planeta passava pelos lares católicos. O Brasil precisava de nós, famílias católicas, dizia ele. Eu entendo e concordo que a belíssima e elevada vocação das famílias católicas – a santidade – é testemunho e remédio para o mundo ferido pelo pecado. Contudo, nunca fui muito fã dessas concepções tão ambiciosas de impactar um país inteiro, o mundo, a galáxia, o universo. Acho que combina melhor com filmes de heróis, como Vingadores, em que tem sempre alguém capaz de acabar com planetas inteiros com um estalar de dedos. Ao fim e ao cabo, no nosso mundo real, vale aquela velha história, tão bem expressa pelo Almirante William H. McRaven:
“Se você quer mudar o mundo, deveria começar arrumando a sua própria cama toda manhã”.

7 de Setembro: Como produzir uvas doces no cotidiano
Se você chega a este Sete de Setembro desanimado com o seu país, com a violência, a injustiça social, os políticos, o egoísmo das pessoas ou o que quer que seja, lembre-se de que esse problema não é novo: em 1627 o Frei Vicente do Salvador já percebia isso, e não tenho dúvida de que a causa dos problemas do século XVII é a mesma daqueles dos séculos seguintes, até chegar ao nosso século XXI: trocamos o lenho da Cruz de Cristo por um lenho que acreditamos que nos faria ricos, mas que só nos empobreceu (e agora não estou falando do pau-brasil, mas de tudo aquilo que eu, você, e cada um coloca no lugar de Cristo).
O que fazer? Parece óbvio porque é óbvio: voltar a colocar Jesus como centro da sua vida, voltar a ser, em sua própria casa, Terra de Santa Cruz. Não estou dando ideia, caro leitor, para você criar um plebiscito, uma consulta popular ou alguma postagem viral para mudar o nome do nosso país. Vamos arrumar a nossa própria cama? O dono da vinha plantou excelentes videiras, cuidou, protegeu, e se mesmo assim as uvas neste nosso Brasil varonil estão saindo azedas, a minha melhor colaboração é: eu vou produzir uvas doces! Como? A resposta é dada pelo próprio Cristo:
“Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).








