Direção Espiritual: sua importância e necessidade

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Por padre Leonardo Ribeiro 

Quando nos referimos ao assunto acerca da direção espiritual, seria de grande importância tomar o número 9 da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II:

“O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio. Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis por que se interroga a si mesmo.”

A cegueira espiritual diante dos desafios modernos

Estamos aqui tratando de um texto dos anos 60, mas que não difere das realidades atuais. O ser humano se encontra cada vez mais diante desses conflitos, sejam eles perante a sociedade, ao trabalho, dentro da família e, principalmente, consigo mesmo. E mais: infelizmente, por conta do ritmo frenético em que estamos inseridos, não temos tempo de parar, olhar para si mesmo e, com coragem, perceber o que precisamos melhorar e amadurecer. São as decisões e escolhas que precisam ser tomadas.

Para isso, precisamos de alguém ao nosso lado. Não conseguimos, por vezes, sozinhos, encontrar os rumos, discernir os caminhos; e, muitas vezes, somente precisamos de luzes, um conselho, uma direção da parte de outra pessoa, porque nos encontramos como cegos. Recordemos o texto de São Lucas, que relata como os conhecidos “discípulos de Emaús” se encontravam:

“No mesmo dia, caminhavam dois deles para uma aldeia, chamada Emaús, que estava à distância de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro sobre tudo o que se tinha passado. Discorrendo entre si, aproximou-se deles o próprio Jesus, e caminhou com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que fechados, de modo que não o reconheceram.” (Lc 24, 13-16)

Estes discípulos estavam tomados pela cegueira da decepção, da tristeza, e não conseguiram nem ao menos reconhecer Jesus Ressuscitado que estava ao lado deles. Do mesmo modo, por muitas vezes, nos encontramos assim, por isso surge a necessidade de ajuda para retomarmos o rumo. A direção espiritual se revela como este meio eficaz.

O caminho a se percorrer

Padre Manoel Augusto Santos, em sua obra Curso sobre direção espiritual, nos declara que Cristo indica, com verdade e autoridade, o caminho que conduz à felicidade e à salvação. Ele mesmo, Verbo divino, se fez homem, escolheu homens e os enviou ao mundo inteiro como seus mensageiros e dispensadores da graça. Em todos os meios de santificação, há uma mediação humana, que, por graça, se converte em atuação divina. Assim acontece nos sacramentos, que o cristão recebe por meio dos ministros da Igreja, e também na oração, pois a palavra de Deus se transmite e expõe autenticamente na Igreja.

Assim acontece na direção espiritual. Ele quis servir-se de mediações, intermediários que revelem, expliquem e autentiquem os processos interiores. No Antigo e no Novo Testamento, aparecem diversas ocasiões nas quais Deus se serve de alguns para transmitir Sua vontade a outros e guiá-los na sua conduta.

No coração daquele que compreendeu a necessidade da busca de direção espiritual, deve sempre estar em relevo a seguinte realidade: preciso de ajuda para ser santo na vontade de Deus, para crescer em virtudes, a fim de alcançar a maturidade do Homem Perfeito, Jesus Cristo.

A oração como critério para escolher um diretor espiritual

Por isso, o primeiro critério para aquele que deseja buscar o acompanhamento de direção espiritual é a oração. É a partir dela que o Senhor revela os anseios e até mesmo as realidades concretas que nos levam a buscar a direção. Além disso, é a partir da oração que o Senhor também instrui e conduz a pessoa a um possível diretor espiritual. Nesse sentido, a escolha não pode ser considerada a partir de afinidades, amizades ou por conveniência e facilidades. Aliás, esses pontos podem até mesmo ser empecilhos na condução e na relação entre diretor e dirigido. Não se trata de uma conversa amigável para colocar em dia os assuntos, falar da vida alheia, muito menos uma terapia psicológica.

Segundo o Padre Manoel Augusto Santos, a ciência da direção espiritual exige conhecimentos de psicologia, antropologia, teologia dogmática e teologia moral. A arte da direção espiritual exige virtudes humanas e sobrenaturais, como senso de oportunidade, senso comum, paciência, humildade, retidão de intenção, dom de comunicabilidade, simpatia, capacidade de doação, de sacrifício e caridade. Portanto, o ofício do diretor não se restringe somente aos sacerdotes, mas pode se estender a pessoas previamente preparadas, de bom senso e, sobretudo, que sejam um exemplo de empenho por uma vida virtuosa, madura e coerente.

Sobre o diretor e o “dirigido”

Padre Manoel Augusto Santos, em sua obra já citada, discorre que a direção é o auxílio espiritual prestado individualmente às pessoas para que, mediante conselhos apropriados, alcancem o grau de virtude a que o Senhor as chama. Dirigir alguém é acompanhá-lo pelos caminhos de Deus; é ensinar a escutar as divinas inspirações e a corresponder a elas; é sugerir a prática de virtudes conforme a situação atual; é não somente conservá-lo na pureza e inocência, mas fazê-lo adiantar-se na perfeição; é, em suma, contribuir, quanto em si caiba, para a elevação ao grau de santidade a que Deus o destina.

Nesse processo, vale a pena destacar que o diretor precisa colaborar com o dirigido para que este identifique o seu defeito dominante — ou seja, aquele pecado ou inclinação mais difícil de se vencer e que o impede de progredir no caminho de perfeição — e não somente isso, mas também o remédio, ou seja, os meios espirituais para que esta progressão aconteça.

As atitudes fundamentais de quem é dirigido

O dirigido deverá colaborar decididamente, colocando o melhor de suas energias. Em primeiro lugar, deve ser consciente de que necessita dessa ajuda. Em segundo lugar, deve agir com sinceridade. Normalmente, para que o diretor conheça a alma, é necessário que o penitente o esclareça, lhe diga com toda a sinceridade o que ele precisa saber: as faltas e suas raízes, as tentações, as lutas, os esforços, as atrações para o bem, os atos de virtude.

Em terceiro lugar, a docilidade: estar disposto a seguir as indicações recebidas com alegria e prontidão. Docilidade que será tanto melhor quanto mais sobrenatural e confiante, não devendo, porém, tornar-se nunca passividade. Por fim, a perseverança na luta. A luta se forja dia a dia, semana a semana, persistindo com valentia nos propósitos.

A direção espiritual é obrigatória para a salvação?

Sem dúvidas, a direção espiritual se apresenta como um meio eficaz no processo de conversão e caminho de santidade. É um meio utilíssimo, mas não é estritamente necessária para a santidade ou para a salvação. Seria equivocado entender a utilidade da direção espiritual como necessidade estrita (como a impossibilidade de salvar-se sem ela). Sabemos hoje das dificuldades de se encontrar um diretor, principalmente quando se trata de um sacerdote, tendo em vista as inúmeras realidades pastorais. No entanto, quando falta o diretor, Deus supre essa ausência em tudo. Como pode Ele se negar a quem O busca de todo o coração?

Que Deus abençoe você.

Fontes

  • CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. 4ª ed. São Paulo: Paulus, 2007, p. 539-661.

  • SANTOS, Manoel Augusto. Curso sobre direção espiritual: elementos para aconselhamento pastoral e acompanhamento espiritual. 2ª ed. São Paulo: Cultor de Livros, 2019.