DISCERNIMENTO

O profetismo de Hulda e a postura do Rei Josias: Um exemplo para nós

A descoberta do Livro da Lei e a profecia de Hulda

A profetisa Hulda viveu no século VII a.C. e teve a sua vida marcada pelo profetismo.

Nessa época, no Antigo Testamento, deparamo-nos com a história do Rei Josias, cujo reinado se deu entre os anos 640 e 609 a.C. Ele fazia sempre o que era agradável a Deus, imitando a conduta santa do Rei Davi sem se desviar para a esquerda nem para a direita. Logo no início do seu reinado, preocupou-se com a restauração do Templo de Iahweh e, por meio do secretário Safã, recebeu a informação do sumo sacerdote Helcias, que cuidava do Templo, de que o Livro da Lei fora encontrado (cf. 2Rs 22,1-10).

O significado do Livro da Lei

Naquele tempo, o Livro da Lei citado no trecho bíblico poderia corresponder aos escritos do Livro do Deuteronômio, contendo as orientações sociais e morais de Moisés. Veja os comentários de Abba Eban, que foi Ministro das Relações Exteriores de Israel e historiador, no seu livro ‘A História do Povo de Israel’, sobre o reinado do Rei Josias e o Livro encontrado:

“Grandes mudanças ocorreram sob Josias (640-609). Foram possibilitadas por uma mudança nas condições externas. Enfraquecida por invasões vindas do norte, a Assíria desmoronou-se diante da Nova Babilônia e Egito. Josias aproveitou essa pausa para dar seu apoio a importantes reformas religiosas. A descoberta, no Templo, do ‘Código Mosaico’ (que pode ter sido o Livro do Deuteronômio) despertou e alimentou um novo entusiasmo religioso. Esse código, contendo as ordenações sociais e morais de Moisés, apresenta muitos indícios de haver sido redigido após a queda da Samaria. Foi então proclamado lei, lembrando constantemente aos hebreus que eram um povo sagrado e com um destino singular” (p. 46-47).

Discernir a voz de Deus no meio do ruído do mundo

O achado no Templo e a reação de Josias

O secretário do Rei, de posse do Livro da Lei entregue pelo sumo sacerdote do Templo, ao ter com o Rei Josias, leu o livro para Ele. O Rei rasgou as vestes ao ouvir as palavras do Livro. Naquele tempo, rasgar as vestes era um gesto físico e público para demonstrar dor intensa, desespero, luto, indignação ou arrependimento profundo, como em Gn 37,29; Nm 14,6; 2Sm 1,11; 1Rs 21,27; 2Rs 2,11-12; Jó 1,20 e Mt 26,65, por exemplo.

E o Rei Josias sentiu a necessidade de saber a respeito das “palavras deste livro que acaba de ser encontrado”, pois estava preocupado com a “ira” de Deus diante da desobediência dos seus antepassados às palavras daquele Livro (2Rs 22,1-13). E assim, pediu que algumas pessoas (sacerdote, secretário e ministro) consultassem a Iahweh sobre o livro encontrado. Eles procuraram a profetisa Hulda, que morava em Jerusalém, era casada com Salum (Sefim), filho de Tícua, filho de Haraas, e guardava as vestimentas usadas no Templo. Ela respondeu ao questionamento do Rei da seguinte forma:

“Assim fala Iahweh, Deus de Israel. Dizei ao homem que vos enviou a mim: Assim fala Iahweh: Eis que estou para fazer cair a desgraça sobre este lugar e sobre os seus habitantes, tudo o que diz o livro que o rei de Judá acaba de ler, porque me abandonaram e sacrificaram a outros deuses, para me irritar com suas ações. Minha ira se inflamou contra esse lugar e ela não se aplacará (…) Mas porque teu coração se comoveu e te humilhaste diante de Iahweh, ouvindo as palavras que pronunciei contra este lugar e seus habitantes, que se tornarão objeto de espanto e de maldição, e porque rasgaste as vestes e choraste diante de mim, eu também te ouvi, oráculo de Iahweh. Por isso te reunirei a teus pais, serás deposto em paz nos vossos sepulcros, e teus olhos não verão todos os males que vou mandar sobre este lugar.”

A reação ativa do Rei Josias diante da vontade Divina

A comitiva levou a resposta da profetisa Hulda ao Rei Josias.

Segundo Rino Fisichella, professor de Teologia Fundamental da Pontifícia Universidade Gregoriana, no livro Dicionário Teológico Enciclopédico, “o profeta, no AT, deve ser considerado à luz de um chamado particular que Iahweh realiza para confiar-lhe uma missão, à qual ele se sente submetido e obedece a ponto de dar a própria vida. A profecia constitui o sinal de Deus que fala com seu povo e este escuta, formando quase uma dialética entre o falar do profeta em nome de Iahweh e a escuta de Israel” (p. 615).

Hulda profetizou a desgraça sobre o povo de Judá em virtude da idolatria a outros deuses. E ainda, pelas palavras da profetisa citadas acima, Iahweh concedeu garantias ao Rei Josias e sua família pela sua postura de humilhação e obediência a Deus. Diante da fala de Iahweh, o Rei poderia se conformar e se acomodar por estar pessoalmente assegurado.

A reforma religiosa e o combate à idolatria

Mas a postura do Rei Josias foi a de tentar reverter toda a desobediência do seu povo, adotando ações contra a idolatria, conforme se depreende de 2Rs 23,1-27. O Rei reuniu anciãos, fez visitas ao Templo, leu para o povo o Livro da Lei, lembrou ao povo da Aliança com Iahweh, ordenou a retirada do Templo de objetos de culto a Baal e os queimou, destituiu falsos sacerdotes, demoliu casas de prostitutos sagrados, profanou e destruiu altares onde eram oferecidos sacrifícios a outros deuses e fez desaparecer templos construídos para outros deuses dentre outras ações.

Quatro atitudes diante da Palavra de Deus

Nos trechos bíblicos citados acima, observam-se posturas importantes diante de uma profecia: a de querer escutar a voz de Deus por quem busca a profecia (o Rei que consultou a profetisa); a de ensinamento fiel de quem a pronuncia (a profetisa que não se negou a transmitir o que Deus falou); a de obediência e fidelidade de quem é canal da profecia (postura dos servos que foram buscar a mensagem e a transmitiram fielmente ao Rei); e a postura de conversão diante da profecia (postura do Rei de abolir a idolatria do meio do seu povo e restabelecer o culto a Iahweh).

Quem escuta a profecia não pode ser um conformado com o que lhe é revelado e se acomodar. Pelo contrário, como a profetisa Hulda e o Rei Josias, deve fazer a sua parte e ter uma postura ativa, de anúncio da vontade de Deus e denúncia do que está em desacordo com os mandamentos divinos, de conversão, de mudança de vida, de se colocar no caminho de obediência a Deus, para que experimente a salvação para si, para sua família e para o rebanho que lhe é confiado. A postura do Rei Josias foi ativa.

Mas é importante lembrar que o esforço do Rei Josias não foi suficiente para aplacar a “ira” de Deus (2Rs 23,26-27). Somente em Jesus Cristo — que também se humilhou e obedeceu até o fim como o Rei Josias, mas que, num ato supremo de entrega por amor, teve as suas vestes rasgadas, deixou-se ferir e ser morto numa cruz — carregamos nossas culpas aniquiladas diante de Deus. Somente em Jesus a salvação e a vida eterna nos foram garantidas de uma vez por todas.

A insuficiência dos esforços humanos

No Catecismo da Igreja Católica, no nº 457, está escrito:

“O Verbo se fez carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus: ‘Foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados’ (1Jo 4,10). ‘O Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo’ (1Jo 4,14). ‘Ele se manifestou para tirar os pecados’ (1Jo 3,5).”

Por nossos próprios esforços, não seríamos capazes de garantir a nossa salvação. Ainda no Catecismo da Igreja Católica, no nº 661, encontramos a seguinte afirmação:

“Entregue a suas forças naturais, a humanidade não tem acesso à ‘casa do Pai’, à vida e à felicidade de Deus. Só Cristo pôde abrir esta porta ao homem. ‘Ele, vossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade’.”

A ação do Espírito Santo e os dons espirituais

Por Jesus Cristo, a nossa salvação foi-nos garantida de uma vez por todas. Além da sua entrega de amor, enviou-nos o seu Espírito Santo. Em Jo 16,13 está escrito o que Jesus falou a respeito do Espírito Santo:

“Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará na verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará.”

É Ele quem nos concede os dons. Em 1Cor 12,7-11, São Paulo escreve:

“Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um, o Espírito dá a mensagem de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz.”

O Dom do Discernimento e a nossa conversão

Um dos dons é o do discernimento dos espíritos. Em Jr 15,19 há um conceito do que é discernir:

“Se te convertes, eu te faço retornar e estarás diante de mim. Se separas o que é valioso do que é vil, tu serás como a minha boca”.

O teólogo Márcio Mendes, no livro O Dom do Discernimento dos Espíritos, afirma:

“Discernir é simplesmente deixar-se levar pelo Senhor. Quando uma pessoa se deixa orientar por Deus, o Espírito Santo a conduz pelos caminhos da oração de maneira que faz dela não somente alguém que reza, mas vai tornando-a uma pessoa melhor, mais saudável, mais forte, mais madura, enfim, o Espírito faz dela uma pessoa feliz” (p. 11).

O dom do discernimento dos espíritos, entre outros, auxilia a compreender a Palavra de Deus e a saber o que não vem d’Ele, para compreendermos a nossa história de salvação e as profecias que envolvem a nossa vida, colocando em prática a vontade divina.

É por meio da ação do Espírito Santo que compreendemos o que Deus quer, nos convencemos da necessidade de obedecer à Sua vontade e, assim, nos convertemos.

Que o Espírito Santo de Deus continue agindo em nós, como Deus agiu na profetisa Hulda e no Rei Josias, para que compreendamos o nosso papel no mundo e na ordem da salvação divina, trilhando o caminho de obediência à santa vontade de Deus.