O significado da reparação na Encíclica Dilexit Nos
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não se esgota na contemplação silenciosa nem na doçura de um afeto intimista. Na quarta parte da encíclica Dilexit Nos, o Papa Francisco eleva o olhar para o coração daquela devoção e nos revela o seu fruto mais maduro: a reparação. Longe de ser um gesto exterior de piedade ou um simples ato de justiça comutativa, a reparação cristã se apresenta como um prolongamento do próprio Coração de Cristo no mundo. Uma vez que o Senhor, na sua liberdade divina, quis ter necessidade de nós, reparar significa remover os obstáculos que, com as nossas faltas de confiança, gratidão e entrega, impedimos a expansão do seu amor. É, pois, oferecer ao Coração ferido uma nova possibilidade de difundir, neste mundo, as chamas da sua ternura ardente.
A dimensão espiritual: Indo além das obras exteriores
O significado espiritual da reparação, contudo, não se reduz a um conjunto de obras exteriores, ainda que indispensáveis e por vezes admiráveis. O Pontífice adverte que uma reparação meramente exterior não basta, nem para o mundo, nem para o Coração de Cristo. Para ser verdadeiramente cristã, para tocar o coração da pessoa ofendida, a reparação exige uma alma, um sentido, uma espiritualidade que lhe confira força, impulso e criatividade incansável. Tudo isso, porém, não nasce das nossas próprias luzes, mas da vida, do fogo e da luz que emanam do próprio Coração de Cristo. Sem essa fonte, os nossos esforços permanecem vazios; com ela, tornam-se participação viva no mistério do amor redentor.
O impacto social e apostólico da reparação
Neste caminho, a reparação assume uma dimensão social e apostólica que não pode ser ignorada. O Papa recorda, com São João Paulo II, que a verdadeira reparação pedida pelo Coração do Salvador consiste em unir o amor filial para com Deus ao amor ao próximo. Sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e pela violência, somos chamados a construir a civilização do amor tão desejada, o Reino do Coração de Cristo. A reparação cristã, assim, não é uma promoção social desprovida de significado religioso, mas uma cooperação apostólica para a salvação do mundo, que se aproxima da ação missionária da Igreja e responde ao desejo do Coração de Jesus de propagar, através dos membros do seu Corpo, a sua dedicação total ao Reino.
O fundamento inabalável: Humildade e perdão
Toda esta obra, porém, tem um fundamento inabalável: o reconhecimento honesto da culpa e o pedido sincero de perdão. O Papa ensina que a reparação, para ser cristã e tocar o coração da pessoa ofendida, pressupõe duas atitudes exigentes — reconhecer a culpa e pedir perdão. É do reconhecimento honesto do mal causado ao irmão, e do sentimento profundo e sincero de que o amor foi ferido, que nasce o desejo de reparar. Faz parte deste espírito o bom hábito de pedir perdão aos irmãos, revelando uma enorme nobreza no meio da nossa fragilidade. Quem está compungido no coração sente-se cada vez mais irmão de todos os pecadores do mundo, sem aparência de superioridade nem dureza de juízo, mas sempre com o desejo de amar e reparar.
Amor fraterno e participação no Sacrifício de Cristo
Assim, a reparação se expressa, de modo concreto, em atos de amor fraterno com os quais curamos as feridas da Igreja e do mundo. Quando o nosso amor ultrapassa a mera consolação e se transforma em serviço, reconciliação e missão, oferecemos novas expressões da força restauradora do Coração de Cristo. E, no mais íntimo deste mistério, descobrimos que a nossa reparação é uma participação, livremente aceita, no amor redentor e no único sacrifício de Cristo. Só Ele salva pela sua entrega na cruz; a nós cabe unir-nos a Ele, com Ele e n’Ele, oferecendo-nos ao Pai por obra do Espírito Santo. A reparação, portanto, dirige-se, em última análise, ao Pai, que se compraz em ver-nos unidos a Cristo quando nos oferecemos por Ele.
Concluo, pois, que reparar o Sagrado Coração é muito mais do que um gesto piedoso: é dar ao amor de Cristo espaço real para se dilatar no mundo, através da conversão, do perdão, do serviço e da missão. É reconhecer que o Senhor, na sua infinita liberdade, quis precisar de nós, e que o nosso amor frágil e limitado pode tornar-se instrumento da sua força restauradora. Que o Coração de Jesus, fonte de toda a misericórdia, conceda-nos a graça de reparar com humildade, de amar com generosidade e de nos oferecermos, com Ele e n’Ele, ao Pai, para que o seu Reino de amor se propague até os confins da terra.








