A revelação de Deus e os profetas na História da Salvação
O Catecismo da Igreja Católica ensina que, desde a origem, Deus se revela aos homens. Criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece a eles um testemunho perene de si mesmo nas coisas criadas. Abriu o caminho da salvação sobrenatural e manifestou-se desde o princípio aos nossos primeiros pais, convidando-os a uma comunhão íntima consigo, revestindo-os de uma graça e justiça resplandecentes (CIC 54). E, mesmo após a humanidade ter sido manchada pelo pecado original (Gn 3), a Revelação não foi interrompida:
“Depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, e cuidou continuamente do gênero humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação” (CIC 55).
Deus, em sua infinita Misericórdia, não os abandonou ao poder das trevas: faz aliança com Noé, elege Abraão como pai de um grande número de nações e forma o povo de Israel, libertando-os da escravidão do Egito liderados por Moisés. Em Moisés, Deus lhes oferece leis para que o sirvam como único Senhor e para que permaneçam fiéis à Aliança. Israel torna-se, assim, o povo sacerdotal, a pupila dos olhos de Deus.
Quem foi o profeta Miqueias e o seu contexto histórico
Na economia da salvação, Deus continuará se manifestando ao Seu povo pelos profetas, a fim de que permaneçam fiéis, na expectativa de uma aliança nova e eterna destinada a todos os homens.
Os profetas anunciam uma redenção radical do povo de Deus, onde serão purificados de todas as suas infidelidades na pessoa do Messias. Dentre os vários profetas, destaquemos Miqueias: judeu originário de Moresete, aldeia vizinha de Hebron; contemporâneo de Isaías, profetizou a ruína de Samaria sobrevinda em 722 a.C.; anunciou um castigo semelhante ao reino de Judá e sua pregação causou profunda impressão em Jerusalém; exerceu sua atividade durante os reinados de Acaz e Ezequias, isto é, antes e depois da tomada de Samaria em 721 a.C. e talvez até a invasão de Senaquerib em 701 a.C.
Nada sabemos sobre como ele foi chamado por Deus, mas constata-se que o profeta tinha viva consciência da sua vocação profética, por isso anuncia com segurança, condena o povo achando-o culpado por pecados religiosos e por faltas morais. A situação da época é decadente, por isso Miqueias fustiga os ricos gananciosos que monopolizam o mercado, os credores sem compaixão, os comerciantes fraudulentos, as famílias divididas, os sacerdotes e os profetas gananciosos, os chefes tirânicos e os juízes corruptos.
O julgamento de Deus e a verdadeira adoração (Mq 6)
Nesse cenário, Iahweh entra em juízo com seu povo:
“Povo meu, que te fiz ou em que te contristei? Responde-me. Fiz-te sair do Egito, livrei-te da escravidão, e mandei diante de ti Moisés, Aarão e Maria. Povo meu, lembra-te dos benefícios do Senhor” (Mq 6,3-5).
O profeta apresenta Deus com braço forte e poderoso, pronto para punir a insanidade do seu povo. E em lugar de se acusar humildemente para reparar sua infidelidade, vemos um povo muito mais preocupado em apresentar sacrifícios rituais:
“Com que me apresentarei diante do Senhor e me prostrarei diante do Deus soberano? Irei à sua presença com holocaustos e novilhos de um ano? Porventura, agradará ao Senhor com milhares de carneiros, ou com milhões de torrentes de óleo?” (Mq 6,6-7).
Indignado, Miqueias intervém:
“Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante de Deus” (Mq 6,8).
As promessas messiânicas de Miqueias e a esperança de salvação
Mas o profeta também traz um olhar de esperança através das promessas messiânicas:
“Mas tu, Belém de Éfrata, tão pequena entre os milhares de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a governar Israel” (cf. Mq 5,1).
Na profecia do profeta revela-se o desígnio divino de paz vislumbrada antecipadamente na pessoa do Messias:
“Ele se levantará para apascentar, com o poder do Senhor, com a majestade do nome do Senhor, seu Deus. Os seus viverão em segurança, porque ele será exaltado até os confins da terra. E assim será a paz” (Mq 5,3-4).
Resumidamente, Miqueias vê Jerusalém ameaçada de morte e tomada de ruínas, mas também a vê sendo restaurada por Deus. Essa salvação não é imediata, pois primeiro Jerusalém passará por uma etapa de purificação através de momentos de dor e de derrota. Miqueias revela a grandeza do agir divino, revelando que Sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição. A última palavra de Deus não se reduz à condenação, mas à salvação do seu povo.
Referências:
Angelus, Papa Bento XVI, 20 de dezembro de 2009.
Bíblia de Jerusalém
Bíblia Ave Maria
Catecismo da Igreja Católica




