SANTO AGOSTINHO

Inquieto está o nosso coração, enquanto não encontrar descanso em Ti

Outro dia assisti a um filme chamado Mountainhead – no final das contas bem fraco e decepcionante, aliás – que tratava de um assunto mais do que fervilhante nos nossos dias: o avanço aparentemente incontrolável da Inteligência Artificial e os seus impactos no mundo. O filme escolheu um caminho alegórico a partir de uma das funcionalidades da IA que mais parecem ser triviais e inofensivas, a geração de vídeos a partir de texto e imagens. No filme, os vídeos falsos – ou deepfakes – tornaram-se tão realistas que diversos grupos começaram a semear pânico e terror com notícias falsas de ataques, assassinatos, golpes militares, o que levou o mundo a um colapso total, simplesmente porque ninguém mais conseguia distinguir o que era real do que era falso.

Quem usa WhatsApp ou Instagram certamente já viu algum vídeo viral feito por IA mostrando entrevistados dando respostas engraçadas em situações inesperadas. Os vídeos impressionam pela qualidade e há momentos em que realmente é difícil separar o que é real do que é falso, o que leva muita gente a fazer o mesmo questionamento que Pilatos fez a Jesus: “O que é a verdade?”

Tentamos descobrir a resposta para essa pergunta o tempo inteiro, mesmo que não nos demos conta disso. Às vezes, examinando um vídeo enviado por um tio, outras, lendo uma notícia sobre uma nova descoberta científica. Algumas vezes, é a fala de um pregador que me deixa intrigado, pela forma como aborda um tema; noutras, é o meu próprio comportamento que me surpreende, e me leva a pensar: “É mesmo verdade que eu acabei de agir assim? Esse sou eu mesmo?”

Vivemos na era da informação, do Big Data. Hoje nossos celulares, computadores, relógios e televisores registram dados sobre praticamente tudo o que fazemos: produtos que compramos, pessoas que seguimos, lugares que visitamos, tempos que gastamos fazendo atividade física ou dormindo, enfim, tudo isso e muito mais. O que move essa obsessão pelos dados? O desejo de ter resposta para tudo: de que fulano gosta, que filme vê, de que medicamento precisa, quando vai trocar de carro, qual o gosto musical, qual a preferência política. E não pensemos que isso é obra de corporações gigantescas e impessoais, perversas e sedentas. Nós somos assim: há um desejo profundo em nós de descobrir as coisas, de entender os fatos, de conhecer tudo. É por essa razão que as redes sociais tornaram-se tão influentes, porque não basta que eu goste de um cantor ou de um padre: preciso saber o que ele come no café da manhã, que produto usa no cabelo, o que pensa a respeito dos animais, de política ou do livro do qual eu também gostei.

Funciona como uma droga: quanto mais buscamos essas “verdades”, mais decepcionados ficamos quando as descobrimos ou as encontramos, e partimos adiante, buscando outras verdades, outro mestre que me forme, outro influenciador que me influencie, outro político que pareça trazer as respostas de que preciso, mas no mais íntimo de mim, se eu ainda for capaz de fazer um instante de verdadeiro silêncio, conseguirei perceber algo como um sopro, que me diz, ainda que sem palavras, que a sede é real, mas que o que busco não me saciará.

Com razão nos diz Santo Agostinho que “a verdade e sua busca são o alimento da nossa alma”. Por isso, diz o Bispo de Hipona, é próprio do homem viver perseguindo a felicidade, mesmo que não a chame assim. A frustração por não encontrá-la leva esse mesmo homem a perder-se numa jornada cada vez mais perigosa, como o próprio Santo Agostinho fez, buscando a verdade ora nisto, ora naquilo, ao sabor das ideologias dominantes de cada tempo. Mas eis a boa notícia: “Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus”, nos disse Edith Stein, ou Santa Teresa Benedita da Cruz, e se o homem “realmente buscar Deus, não há dúvida de que o encontrará, porque o próprio Deus irá ao encontro dele”, nos diz o padre Amedeo Cencini.

Se há sinceridade de coração, a busca da verdade nos conduzirá inevitavelmente ao encontro com Deus, mas daí surge um questionamento bastante interessante: Se é assim, por que tantas pessoas nunca encontram a Deus? Chamo Santo Agostinho e Jó para nos responderem essa pergunta:

“Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior. (…) Eis que estavas dentro e eu fora! (…) Estavas comigo e não eu Contigo… (…) Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava” (Santo Agostinho, Confissões).

Imagem: @gettysignature

“Sou aquele que denegriu teus desígnios, com palavras sem sentido. Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. (…) Conhecia-te só de ouvir falar, mas agora meus olhos te viram: por isso, retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 42, 3.5).

Encontramos Deus no nosso interior, onde Ele habita, mas descobri-lo neste lugar é descobrir-se, conhecer-se, e isso significa exatamente aquilo que Santo Agostinho nos diz: enxergar a própria miséria, o quão indigno somos, o quanto estamos deformados, manchados e sujos e como precisamos nos deixar reconstruir por esse mesmo Deus. O livro de Jó narra 41 capítulos de sofrimentos, perdas, dores e humilhações sofridas por este homem. Não deixa de ser impressionante que no último capítulo, após ter passado por uma verdadeira Via Crucis, tendo perdido bens, filhos, saúde e dignidade, sem, contudo, ter amaldiçoado a Deus, Jó proclame que só agora pode dizer que conhece a Deus. É como se ele dissesse: “Eu havia ouvido falar da Verdade, mas só agora, depois de tudo que passei, conheci a Verdade”. E qual a conclusão de Jó, o que ele diz em seguida? “Retrato-me e faço penitência no pó e na cinza”.

Como isso é possível? Como alguém que sofreu tanto pode reconhecer-se culpado de algo a ponto de retratar-se e fazer penitência, ao invés de julgar-se o mais justo, o mais bondoso, o mais caridoso? Porque o verdadeiro encontro com Deus nos mostra quão pouco amor trazemos em nosso coração. Por isso Zaqueu, um publicano rico e desonesto, não teve problemas em reconhecer-se ladrão diante daquela multidão quando Jesus o abordou, enquanto o jovem rico, que já se achava fiel e justificado, saiu triste e cabisbaixo da presença de Jesus quando este propôs que ele se desapegasse de seus bens.

No filme que citei no início do texto, os vídeos falsos eram tão bem-feitos que produziram um caos incontrolável no mundo, mas bastava que um dos personagens, o dono da empresa de IA, desligasse o aplicativo para que toda aquela confusão terminasse. Ele relutava, com medo do que poderia perder. Talvez estejamos vivendo algo parecido com isso: temos permanecido em alguma mentira porque estamos evitando tomar a medida necessária para viver na verdade, com medo do que teremos que encarar. Mas creia: não há nada mais transformador do que essa descoberta. Sejamos decididos e rezemos sempre: “Que eu Te conheça, Senhor, e Te ame, que eu me conheça, Senhor, e me despreze”. Se buscarmos viver essa oração com toda a nossa vida, sem medo, um dia exclamaremos:

“Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci (…). E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!”