Entre a fé e a superstição: reflexões de infância
Cresci numa família católica, mas minha avó paterna tinha uma fé muito contaminada, que trazia elementos de diversas fontes fora do catolicismo, num sincretismo religioso bem próprio do interior nordestino em que eu vivia.
Resgato da memória, por exemplo, o fato de que ninguém podia esquecer uma sandália “emborcada”, como ela falava, ou seja, virada, com a sola para cima, porque “fazia mal”. Também fazia mal se alguém estivesse deitado no chão e outra pessoa saltasse por cima dela; isso era “benzer a pessoa”, e não era bom.
Se havia extremo cuidado com o que não se podia fazer na Semana Santa para não ofender a Deus — como não assobiar, cortar as unhas, correr, cantar ou falar alto — não se via o mesmo zelo em relação a outras práticas. Era comum ir a um benzedor para curar “espinhela caída” ou “mau olhado”, procurar locais para contato com espíritos, ou andar com patuás e “orações” que protegessem o corpo dos perigos deste mundo. É nesse contexto de busca por proteção que muitos descobrem a Couraça de São Patrício.
O legado de São Patrício e a verdadeira proteção
Lembro-me desses fatos tão distantes no tempo, mas tão vivos na minha memória, ao se aproximar a festa de São Patrício, que tanto fez pela evangelização da Irlanda no século V. Atribui-se a ele a oração Couraça de São Patrício, bastante conhecida e muitas vezes tão mal interpretada.
Há muitos que, com o mesmo espírito supersticioso que guiava a minha avó, reconhecem nela apenas uma oração poderosa para proteger-se do mal, dos perigos e dos inimigos, quase um feitiço, uma magia.
Sim, de fato, conta a tradição que a oração Couraça de São Patrício era muito usada na Idade Média pelos cavaleiros, como forma de buscar proteção contra os muitos perigos a que eles se expunham em seus combates. É lícito, portanto, que também nós a rezemos pedindo a proteção de Deus sobre nossas vidas, mas a Couraça de São Patrício é muito mais que isso: é um ato de entrega, de abandono à Divina Providência.
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Revestindo-se da Armadura de Deus: o combate pela salvação da alma
Ao rezar a Couraça de São Patrício, reconhecemos que o maior perigo não é aquele que ameaça o corpo, mas a alma. É um reconhecimento de que não podemos andar sós, nem podemos ser nossos próprios guias. Reconhece, como diz São Paulo, que “é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em nós o querer e o executar” (Fl 2, 13), por isso precisa revestir-se “dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus”, precisa vestir a armadura de Deus para resistir às ciladas do demônio.
Permanecer firme mesmo nos dias maus. Manter-se inabalável no cumprimento do dever de amar a Deus e rejeitar o mal (Ef 6, 11-17). Porque de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? (Mc 8, 36).
Rezar a oração da Couraça de São Patrício é ser humilde, mas guerreiro: levantar-se, no dia que amanhece, erguido pela força da Trindade. Confiando não em superstições, mas no Sangue de Cristo, que, derramado por nós, nos protege de todo mal, nos purifica, nos liberta e nos salva.
Hoje, convido você a rezar esta oração como você nunca rezou até hoje: com a confiança de quem foi comprado por um grande preço, o Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Couraça de São Patrício
Invocação da Trindade e das forças da criação
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, a invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da unidade
Do Criador da criação.
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do nascimento de Cristo e de seu batismo,
Pela força de sua crucificação e sepultamento,
Pela força de sua ressurreição e ascensão,
Pela força de sua descida para o julgamento dos mortos.
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do amor dos Querubins,
Em obediência aos Anjos,
A serviço dos Arcanjos,
Pela esperança da ressurreição e do prêmio,
Pelas orações dos Patriarcas,
Pelas previsões dos Profetas,
Pela pregação dos Apóstolos,
Pela fé dos Confessores,
Pela inocência das Virgens santas,
Pelos atos dos Bem-aventurados.
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do céu:
Luz do sol,
Clarão da lua,
Esplendor do fogo,
Pressa do relâmpago,
Presteza do vento,
Profundeza dos mares,
Firmeza da terra,
Solidez da rocha.
Clamor pela proteção de Deus
Levanto-me, neste dia que amanhece:
Que a força de Deus me dirija,
Que o poder de Deus me ampare,
Que a sabedoria de Deus me guie,
Que o olhar de Deus me vigie,
Que o ouvido de Deus me ouça,
Que a palavra de Deus me faça eloquente,
Que a mão de Deus me guarde,
Que o caminho de Deus me esteja à frente,
Que o escudo de Deus me proteja,
Que o exército de Deus me defenda
Das armadilhas do demônio,
Das tentações do vício,
De todos os que me desejam mal,
Longe e perto de mim,
Agindo só ou em grupo.
Conclamo, hoje, tais forças a me protegerem contra o mal,
Contra qualquer força cruel que me ameace corpo e alma,
Contra a encantação de falsos profetas,
Contra as leis negras do paganismo,
Contra as leis falsas dos hereges,
Contra a arte da idolatria,
Contra feitiços de bruxas e magos,
Contra saberes que corrompem o corpo e a alma.
Cristo, guarde-me hoje
Contra veneno, contra fogo,
Contra afogamento, contra ferimento,
Para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.
Cristo em mim: a plenitude da presença divina
Cristo comigo,
Cristo à minha frente,
Cristo atrás de mim,
Cristo em mim,
Cristo embaixo de mim,
Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita,
Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar,
Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar,
Cristo no coração de todos a quem eu falar,
Cristo na boca de todos os que me falarem,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.
Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da Unidade,
Pelo Criador da criação.








