Viva a Quaresma e a misericórdia na prática, descubra o caminho de conversão, reconciliação com Deus e o sentido da parábola do Filho Pródigo.
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Por padre Ailton Evangelista
Um tempo favorável para voltar a Deus
Todos nós sabemos que a Quaresma é um tempo forte na espiritualidade cristã. No entanto, a Igreja, em sua caminhada, incentiva, a cada ano, um aprofundamento e o conhecimento sobre as verdades e as riquezas espirituais desse período. A Quaresma é o tempo das penitências, de uma retomada na vida espiritual e de uma caridade fervorosa; porém, tudo isso é resultado de um coração que se volta para Deus.
Esse caminho proposto pela Igreja, assim como outros períodos do ano litúrgico, não acontece do dia para a noite: exige processo, caminhada e constância. São essas palavras que também marcam o tempo quaresmal, chamado também de tempo favorável do perdão. Este perdão é caracterizado pela iniciativa de Deus — que quer que o pecador viva e não morra em seu pecado — e pelo coração contrito e humilde dos penitentes, que são chamados a se voltarem para o Senhor com um coração sincero e arrependido.
Quaresma e misericórdia: a identidade de Deus revelada
Se a Quaresma se caracteriza por um período de retorno a Deus, o pano de fundo de todo este movimento não é feito de julgamentos e acusações, mas da misericórdia, que é a identidade de Deus, ou, como dizia o saudoso Papa Francisco: “(…) O rosto de Deus é Misericórdia”.
Recordamo-nos do Pai misericordioso do Evangelho de São Lucas; ali está um texto que pode nos iluminar quando o assunto versa sobre conversão e reconciliação: Lc 15,11-32.
Por vezes, identificamo-nos com o filho mais novo, aquele esbanjador que saiu e gastou tudo (cf. Lc 15, 12). Quase não olhamos para as atitudes equivocadas do filho mais velho (cf. Lc 15, 25). No entanto, a parábola de Lucas 15, contada por Jesus, não quer colocar em destaque os pecados dos filhos, mas a misericórdia do Pai, que consegue se comunicar com ambos.
Por isso, falar de Quaresma e misericórdia é falar do próprio coração do Pai revelado ao mundo.
O Pai que vai ao encontro dos filhos
Por misericórdia, devemos entender isto: é sempre um coração aberto e amoroso do Pai que vem ao encontro dos filhos.
No aspecto da misericórdia, a iniciativa é sempre divina. É Ele que vai ao encontro do filho mais novo em sua caminhada de retorno, mas também é Ele que ajusta os equívocos do filho mais velho, que se perdeu dentro da própria casa.
Aqui, mais uma vez, vemos como Quaresma e Misericórdia caminham juntas: não há retorno sem amor, nem conversão sem acolhimento.
Conversão: um retorno à Casa do Pai
A parábola do Pai Misericordioso é a nossa parábola; é a história do retorno de cada um de nós para a casa e para os braços do Pai.
Se você me perguntar qual imagem eu trago da palavra “conversão”, eu diria que conversão é metanoia – em grego significa mudança de mentalidade. Porém, chama-me muito a atenção a imagem de um retorno para a Casa do Pai, porque essa imagem abarca a todos.
Em certo sentido, viver a Quaresma e a misericórdia é assumir esse caminho de volta. Todos nós estamos fazendo um caminho de conversão, um caminho de retorno para os braços amorosos de Deus, de reconhecimento da filiação divina e não simplesmente de uma servidão imposta aos escravos. A novidade do cristianismo é esta: somos filhos do mesmo Pai, somos filhos no Filho.
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Um convite pessoal na Quaresma
Por isso, viver a Quaresma e a misericórdia é aceitar o convite do Pai que nos avista ao longe e vai ao nosso encontro. Cada um de nós, com mais ou menos tempo de caminhada, está voltando para esse regaço acolhedor, está voltando para a vida reconciliada e está, no seu ritmo e na sua distância, fazendo o seu retorno.
A Quaresma é o nosso caminho de volta para Deus; é o momento em que o Pai nos avista de longe e vai ao nosso encontro. É o convite para todos voltarem para os braços do Pai: padres, leigos, bispos, religiosos e até o Papa. Todos estão voltando.
Desejo que você também volte!
Retome a sua caminhada quaresmal e leve a sério a hospitalidade do Pai, que irá recebê-lo de braços abertos.



