Sob a ótica da amizade, eu gostaria de convidar você a fazer uma leitura do Evangelho de São João, capítulo 11, versículos 1 a 44.
A solidão moderna e a luz da amizade
A humanidade tem sido assolada, com grande frequência, por uma escuridão chamada solidão. Ela nos rodeia de forma sutil e disfarçada, mas, por muitas vezes, se instala no terreno dos nossos corações como um parasita.
Há uma luz que, quando clareia nossos corações, é capaz de romper essa escuridão, trazendo vida, vitalidade e ânimo: essa luz se chama amizade. A amizade traz consigo uma beleza singular, uma riqueza única e um poder imenso de ressurreição. O verdadeiro amigo se torna um manancial de alegria, de vida e esperança.
A relação de Jesus com Marta, Maria e Lázaro
Em muitos trechos do Evangelho, vemos Jesus relatar o valor da amizade com apreço e grandiosidade, mas aqui, de forma especial, Ele o faz ao falar de seus amigos de Betânia: Marta, Maria e Lázaro. Encontramos, nesses três corações, um grande amor por Cristo, permeado de verdade, intimidade e sinceridade; encontramos corações que descansam em Jesus e também oferecem descanso para Ele. O evangelista afirma com veemência o amor de Jesus por esses seus amigos, e não é um amor expresso apenas em palavras, mas que se dá também na concretude dos fatos.
Quando Lázaro é acometido pela enfermidade, logo suas irmãs recorrem a Jesus e pedem Sua presença, reconhecendo a grandeza do Senhor e desejando também tê-lo por perto. No entanto, a resposta de Jesus ao chamado delas exigia uma espera que, em um primeiro momento, fez parecer uma derrota, mas, na verdade, revelou a vida em uma ação extraordinária e também a soberania de Deus, de forma estupenda.
É bonito acompanhar essa narrativa e mergulhar nos detalhes, porque encontramos a humanidade e a sensibilidade de Jesus, que não nega a vulnerabilidade na qual o amor o coloca, não esconde as lágrimas da dor, mas conduz ao êxito o plano salvífico do Pai.
Amar exige de nós correr riscos, mas, sem sombra de dúvidas, é a aventura mais bonita a que podemos nos submeter. É próprio dos amigos não ter medo de se arriscar, de amar. O amigo assume as causas que não são suas como se fossem, não mede esforços nem distâncias; morre para si para trazer vida ao coração do outro.
A sinceridade de Marta e a devoção de Maria
Ao olharmos para Marta em sua amizade com Jesus, ela nos ensina a viver uma face muito importante da relação com Cristo: a sinceridade e a transparência. Por vezes, suas respostas e confrontos parecem ser regados de grande petulância, mas é bonito ver a verdade do seu coração, que se torna uma estrada para o Senhor percorrer e imperar. Ela coloca para fora o que sente, mas deixa Jesus tocar e lapidar. A liberdade de estar com quem se ama exclui a necessidade de uma falsa aparência. Dessa forma, devemos aprender com ela a ser livres na amizade com Cristo e com aqueles que Ele coloca ao nosso lado.
Já Maria sempre nos apresenta a necessidade de estar aos pés do Mestre. Tem um coração inclinado para o Senhor e deposita n’Ele, com inteireza, o que possui. Ela nos revela que as amizades possuem uma grande necessidade de ser cultivadas, pois amigos são presenças que curam, que consolam e refazem. Na presença do amigo Jesus, aprendemos a ser presença para os outros.
O silêncio de Lázaro e o valor da presença
Então, o coração de Jesus procura por seu amigo Lázaro, pelo corpo imóvel. E muito também nos é revelado: na amizade, a ausência faz barulho. O silêncio de um coração que não vai bem se torna um pedido a um amigo por encontro, proximidade e troca de olhares.
O amigo não teme enfrentar as mortes que envolvem o coração daquele que ama, não teme o odor das feridas nem das quedas, mas, por amor, enfrenta a escuridão do coração do outro para ser luz. A amizade precisa ser um intercâmbio com a Trindade. A amizade com Jesus rompe a morte e gera comunhão.
Também, ao contemplarmos o gosto de Jesus revelado aos seus três amigos, encontramos o Cristo que não se esgota em amor, que leva sempre esperança aos seus amigos, ainda que diante das provações e da morte.
Ao olharmos para os três irmãos, encontramos o que eles têm em comum na amizade com o Senhor: os três dão profunda atenção à voz de Cristo, e é nessa voz que se fundamenta essa amizade. Também eu e você somos chamados, a exemplo desses santos, a ouvir essa voz e a aprender a trilhar uma amizade com Cristo pautada na verdade, na presença e no encontro.







