DEFESA DA FÉ

Santo Atanásio, um homem contra o mundo

Neste artigo, mergulhamos na trajetória épica de Santo Atanásio, o bispo que desafiou impérios e heresias para salvaguardar a essência da fé cristã. Através de uma narrativa que conecta a firmeza histórica de Atanásio ao sacrifício moderno de Franz Jägerstätter, exploramos o que significa manter-se íntegro quando o mundo inteiro parece caminhar na direção oposta.

Tempo de leitura: 4 minutos.

Santo Atanásio, um homem contra o mundo

Santo Atanásio – Fonte: CanvaPro @singkariassimages

Só eu não gostei dessa série que todo mundo está elogiando?
Sou o único que não vê graça nessa cantora?
Parece que sou a única pessoa na face da terra que não gosta de futebol…

Se você nunca disse algo parecido com isso, muito provavelmente já ouviu de alguém. Isso virou até piada, porque há aquelas pessoas que amam ser “do contra”: não veem a hora de uma modinha surgir apenas para manifestar seu desagrado. Todo nordestino gosta de forró? — “Eu detesto”, grita o “diferentão”. Todo carioca gosta de carnaval? — “Eu não sou assim”, exclama o outro.

Obviamente, dei exemplos de preferências pessoais, gostos musicais, enfim, coisas inofensivas, que pouco ou nada impactam na vida de quem gosta e de quem não gosta. Nesse contexto, dependendo de como seja a pessoa, esse tipo de postura tende a gerar dois tipos de reação: ou ela se sente única, especial, superior em seus gostos e preferências; ou se sente sozinha, isolada, deslocada deste mundo, mas nada muito drástico acontecerá com ela, não sofrerá nenhum prejuízo grave.

E quando se trata de algo sério, uma convicção tão profunda e firme a respeito de algo que pode levar alguém à prisão ou até à morte? Aí, diria um amigo meu, jocoso, é que se separam os homens dos meninos.

O exemplo de Franz Jägerstätter: Resistência ao Nazismo.

Mais de oitenta anos atrás, na Áustria, um homem simples, casado, pai de três meninas, ousou ser uma voz dissonante em sua pequena vila. No auge da Segunda Guerra Mundial, oficiais a serviço de Hitler apareceram e trouxeram a dura notícia: os homens austríacos estavam convocados a lutar pelo nazismo. Houve uma assembleia local para decidir se eles iriam aderir ou não. Era uma espécie de teatro, já que não havia escolha de fato. Apenas uma pessoa votou de forma contrária: Franz Jägerstätter. Ele disse que sua consciência não lhe permitiria lutar por algo tão cruel e errado quanto o nazismo. Católico praticante, Franz ouviu não poucas críticas, conselhos e ameaças de seus vizinhos, amigos e das autoridades locais. Seu destino, lhe diziam, seria a prisão e depois a morte. Ele não podia recusar. Deveria pensar na esposa, nas filhas.

Houve um processo, Franz foi preso, mas permaneceu irredutível: um homem contra sua vila, um homem contra o nazismo. “Esse seu sacrifício é tolice”, argumentavam. “Será em vão, porque a guerra vai continuar do mesmo jeito. Só quem vai pagar o preço será sua família”. Franz, que não deixava de rezar, mantinha-se firme. Com dor, mas firme.

Condenado à morte como traidor

Tentaram convencê-lo, garantindo que ele não iria precisar usar nenhuma arma, pois poderia servir nas unidades médicas. Porém, não se tratava de usar arma ou não, mas de colaborar ou não com o nazismo. “Não posso fazer isso”, ele dizia.

Franz Jägerstätter foi condenado à morte como traidor. Quase sessenta anos depois, foi beatificado pelo Papa Bento XVI como modelo de homem que resiste ao mal. Franz não era apenas um sujeito teimoso, igual a tantos que vemos por aí. Era um homem de Deus, que sabia que não é porque todos estavam se curvando perante o mal que ele teria que fazer o mesmo. Ainda que parecesse loucura, burrice e até mesmo crueldade para com sua família, ele não podia render-se ao mal, como Cristo não se rendeu diante das tentações a que foi submetido.

O que Franz Jägerstätter fez é quase inacreditável. Como já escrevi, um homem contra todo o seu vilarejo, um homem contra todo o regime nazista. Mas e se eu lhe dissesse que houve um homem que por muito tempo lutou sozinho contra o mundo inteiro?

Santo Atanásio e a Luta contra o Arianismo.

No ano 319 d.C., um diácono de Alexandria chamado Ário enviou uma carta ao bispo Alexandre apresentando uma provocação: se o Filho de Deus era mesmo Filho, houve um tempo em que Ele não existia. Ele teria que ter tido, portanto, um ponto de partida, um momento em que foi criado. Se Ele não existia e passou a existir, logo, foi criado. Era, portanto, uma criatura, e criaturas podem mudar. Se podia mudar, podia pecar.

Com esse raciocínio, havia sido criada a maior ameaça que a Igreja havia enfrentado até então: a heresia do arianismo. Alguns anos se passaram, Ário morreu, mas deixou discípulos, e num instante, como disse São Jerônimo, todo o mundo se viu ariano: até o Papa se viu forçado a assinar uma fórmula semiariana.

Quem não havia se declarado ariano ficava em cima do muro, menos Santo Atanásio, que a essa altura havia sido ordenado bispo, substituindo o seu mentor, Alexandre. Por ensinar a verdade, Santo Atanásio foi perseguido. Começaram com falsas acusações sobre corrupção e cobrança ilegal de taxas. Como nada disso prosperava, pois eram mentiras deslavadas, seus inimigos começaram a se tornar cada vez mais criativos.

Décadas de perseguição

Acusaram Santo Atanásio de ter tido uma ordenação episcopal inválida, porque seria jovem demais quando da ordenação; de ser uma espécie de bruxo; de decepar a mão de alguém; de financiar traidores. Chegaram ao ponto de acusá-lo de tentar matar o povo de Constantinopla de fome, impedindo os navios de trigo de sair de Alexandria.

Importante entender que não foi uma “torrente de acusações”, algo que veio de uma só vez, num período curto, e depois foi embora. Foram décadas de perseguição, que envolveram cinco longos exílios e um sem-número de tentativas de assassinato. Pense nisso! Não foram dias de batalhas, nem semanas, nem meses. Foram quase quarenta anos de combate. Um mundo inteiro querendo calar a sua voz, e Santo Atanásio firme no ensinamento da verdade.

A Defesa da Divindade de Cristo.

Assim como o beato Franz Jägerstätter, Santo Atanásio não era apenas um bispo teimoso. Também não era um revolucionário e muito menos alguém que curtia ser “do contra”.

Santo Atanásio recebeu a fé dos apóstolos e dela não se apartou por amor a Cristo, por amor à Igreja, por amor às almas. Ele sabia como aquela heresia representava grave ameaça à salvação dos cristãos; por isso não fez cálculos e, como Cristo, não se apegou a si mesmo, mas à vontade do Pai.

Com Santo Atanásio podemos aprender que não se negocia a Verdade, custe o que custar. Ainda que todos estejam se deixando levar pela correnteza dos vícios, preciso lutar para viver as virtudes. Mesmo que ao meu redor as pessoas optem pelo ódio, devo escolher o amor. Se tentam me convencer a contar mentiras, proclamo a verdade. Se querem fazer da traição a regra, ainda assim continuarei fiel.

Santo Atanásio lutou sozinho contra o mundo por quase quarenta anos. Talvez Deus não me peça tanto, apenas resistir a dois ou três colegas de trabalho ou a um punhado de familiares que tentam me convencer a abandonar meus valores ou minha fé.

Que este grande santo nos ajude a resistir e a nos mantermos firmes na fé.

Santo Atanásio, rogai por nós!