A cela interior: o segredo espiritual de Santa Catarina de Sena

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Por Jonathan Ferreira

Esta matéria, como bem diz o título, trata da cela interior, grande ensinamento espiritual deixado a nós por Santa Catarina de Sena.  Contudo, antes de entrarmos propriamente neste assunto, é necessário discorrermos um pouco sobre quem foi esta grande santa. Ela nasceu em 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Nasceu em uma família numerosa; ao todo, eram 25 filhos. Sua família era pobre do ponto de vista material, mas rica nos ensinamentos da fé católica. Em sua juventude, entrou para a Ordem Terceira de São Domingos e se tornou uma leiga dominicana. Ao longo de sua vida, não pôde estudar, mas Deus lhe conferiu uma sabedoria infusa. Este foi um ponto destacado pelo Papa Paulo VI na homilia da celebração eucarística em que ela foi declarada doutora da Igreja:

“O que, afinal, mais impressiona na figura de Santa Catarina de Sena é a sua sabedoria infusa, ou seja, a lúcida, profunda e inebriante assimilação das verdades divinas e dos mistérios da fé, contidos nos Livros Sagrados do Antigo e do Novo Testamento. Trata-se de uma assimilação que foi favorecida, é verdade, por dotes naturais singularíssimos, mas que, inegavelmente, também foi prodigiosa, graças a um carisma de sabedoria do Espírito Santo, um carisma místico.” (Cf. Proclamação de Santa Catarina de Sena Doutora da Igreja – Homilia do Papa Paulo VI)

A cela interior: o segredo espiritual de Santa Catarina de Sena

Fonte: Imagem autoral criada com Inteligência Artificial para este artigo.

O que é a cela interior (ou cela do autoconhecimento)?

Logo no início do livro Diálogo, Santa Catarina de Sena cita a cela do autoconhecimento:

“…vivendo habitualmente na cela do autoconhecimento para melhor conhecer a Deus presente em si mesma.”

A cela interior é também chamada de cela do autoconhecimento. Trata-se de uma descrição espiritual de Santa Catarina de Sena. Por mais que tenha esse nome, não é um local físico, mas uma condição ascética na qual a pessoa se coloca para alcançar a união com Deus. Esse é o fim último da cela interior: encontrar-se com Deus e unir-se a Ele.

O autoconhecimento mencionado por ela não é simplesmente saber do início ao fim a sua própria história. É algo mais profundo e transformador para aquele que o pratica. O autoconhecimento é adquirido pela “oração humilde e contínua, baseada no conhecimento de si e de Deus”. Deus nos conhece de um modo infinitamente mais profundo do que nós podemos contemplar. Quando nos deixamos ser iluminados por Sua graça, podemos contemplar, a partir do olhar divino, quem realmente somos e o que devemos nos tornar.

E, do mesmo modo, quando rezamos e nos abrimos à graça de Deus, podemos conhecê-Lo para além da teoria; nós encontramos uma Pessoa, nos relacionamos com ela e somos transformados, assumindo a sua feição e ação:

“Tal oração une o homem a Deus nas pegadas de Cristo crucificado; identifica-o com Ele no desejo, na afeição, na união amorosa”.

Veja que coisa maravilhosa: há uma relação profunda e fecunda na cela do autoconhecimento.

O encontro com Deus: um grande tesouro na alma

É preciso retomar e destacar um ponto crucial:

Santa Catarina de Sena disse “para melhor conhecer a Deus presente em si mesma”. A cela do autoconhecimento leva o sujeito que está na graça ao encontro com Deus presente em sua alma. A atitude de recolhimento e oração constante tem como consequência natural uma intimidade com Deus para além do momento de oração pessoal, do terço, da missa etc. Esses momentos não deixam de existir; pelo contrário, existem e são fecundos, mas a alma continua abrasada pelo fogo da graça e em diálogo com o Senhor. Mesmo lavando louça, dirigindo o carro, lavando o banheiro ou fazendo qualquer outra coisa que não seja necessariamente uma prática devocional, a alma permanece com o calor da devoção; a fé, a esperança e a caridade continuam a trabalhar em seu interior.

Contudo, para chegar a esse ponto, antes de qualquer coisa, é necessário livrar-se do pecado mortal e conservar a graça santificante (estado de graça). Sobre a graça santificante, o Catecismo ensina o seguinte: a graça santificante é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural, que aperfeiçoa a alma, tornando-a capaz de viver com Deus e de agir por seu amor. Conservando a graça, conservamos o amor e a Palavra de Deus, e poderemos tocar na promessa de Jesus: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14,23). Deus se manifesta em nossa alma de um modo sublime e extraordinário quando estamos em estado de graça. Isso é o básico que deve ser entendido: é necessário ter a graça santificante na alma.

Assim, a cela torna-se capela interior, na qual nos encontramos com Deus, conversamos com Ele e somos transformados.

Qual é o caminho para alcançar a cela interior?

Em um determinado momento do livro Diálogo, Jesus diz o seguinte para Santa Catarina de Sena:

“Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas. Nenhuma virtude tem valor sem a caridade; no entanto, é a humildade que forma e nutre a caridade”.

Repare que Jesus reforça: “nenhuma virtude tem valor sem a caridade”.

A importância da humildade e da caridade

Esta é a maior de todas as virtudes, e só a tem quem está em estado de graça. Entretanto, Ele dá destaque à humildade como sendo uma virtude que alimenta a caridade.

No jardim das virtudes, a humildade é como um adubo colocado aos pés de todas as outras virtudes plantadas. Esse adubo faz com que as outras virtudes cresçam. A humildade é o que nos abre para recebermos a graça de Deus. Não é à toa que São Tiago diz: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4,6). Nenhuma virtude cresce e se desenvolve sem a graça divina, e não há graça disponível para os soberbos, somente para os humildes.

Por isso, é necessário sempre começar pela humildade, seja numa oração pessoal, na participação da Santa Missa, no trabalho do dia a dia, nos momentos de descontração, sempre com espírito de humildade. O homem humilde foge das ocasiões de pecado; não julga os outros, porque sabe o quão miserável ele mesmo é; não se envaidece com os elogios, porque entende que só é capaz de algo bom com a graça de Deus; não se orgulha de sua vida de oração, porque sabe que é apenas um mendigo diante de Deus…

Três atitudes práticas para viver essa espiritualidade de Santa Catarina de Sena

  • Primeiro: a prática da confissão, feita da maneira correta, respeitando a dignidade do sacramento e seguindo os princípios necessários para que seja considerada válida. Assim, nos conservaremos longe do pecado mortal e em estado de graça;
  • Segundo: a prática das virtudes — prudência, justiça, fortaleza, temperança e todas as virtudes anexas a essas. Como já mencionado, é necessário dedicar-se com muito empenho na prática da humildade e aproveitar todas as oportunidades, principalmente as difíceis, de humilhação e injustiça. Por mais que doa, essas são as melhores oportunidades. Se Nosso Senhor passou por todas essas coisas e fez o bem, por que nos acharíamos no direito de responder de outro modo que não seja virtuoso?;
  • Terceiro: constância e dedicação na vida de oração. É necessário reservar momentos de oração pessoal e, ao longo do dia, recordar-se do que Jesus lhe falou ao coração, voltar a conversar com Ele, pedir Sua ajuda e louvá-Lo. É preciso ter o hábito de rezar em momentos próprios, reservados para a oração, e também, em meio às atividades do dia a dia, recordar-se de Deus, conversar e se deixar guiar por Ele.

Desse modo, esforçando-nos dia a dia, estaremos mais dispostos à graça, que, no momento oportuno, nos elevará às alturas da vida mística.