Onde está Deus no sofrimento
É muito comum, em nosso meio cristão, ouvir estas palavras: “tenho raiva de Deus”. Já perdi a conta de quantas vezes escutei isso. São inúmeras as vezes em que queremos arrumar um culpado para nossas raivas, frustrações, para o sentimento de perda de um ente querido ou mesmo diante das doenças.
E quem é o mais alvejado? Deus.
Mas existem também aqueles que culpam as pessoas.
Precisamos compreender que nossa vida emocional é influenciada por nossa vida espiritual. Ou seja, uma boa vida espiritual dá equilíbrio à nossa vida emocional.
Deus é o culpado? Um erro espiritual comum
Existem algumas expressões em nosso meio, como: “foi Deus quem quis” ou “nada acontece sem a vontade de Deus”, usadas como forma de justificar todos os fatos. Isso não é verdade, pois sabemos que a vontade de Deus é sempre para um bem maior em nossa vida.
A expressão “foi Deus quem quis”, embora muitas vezes dita com a intenção de consolar durante o luto ou momentos de extrema dor, pode causar profundo sofrimento e revolta. Ela é frequentemente sentida como uma forma de justificar uma tragédia, como se Deus fosse o causador da perda, gerando um conflito espiritual e emocional.
Emoção e razão: duas dimensões do sofrimento
Todos os sentimentos estão relacionados às emoções e aos desejos, enquanto nossa vontade está ligada à razão e à verdade — naturalmente conectadas à nossa espiritualidade e à fé.
Percebemos que existem duas dimensões:
- o desejo, que permanece no campo emocional;
- a razão, que se apoia na verdade e na realidade da nossa vida em Deus.
As diversas dimensões da dor humana
Existem diferentes dimensões da dor. Muitos dizem que a dor mais profunda é a perda de um filho para uma mãe. É uma dor que não se pode nomear.
Há dores que recebem nomes na perda de um ente querido: ela ficou viúva; ele ficou viúvo; eles ficaram órfãos; perderam seus bens, quebraram, abriram falência.
Mas a morte de um filho ou filha não tem nome. Principalmente quando uma criança morre no ventre materno ou em qualquer fase da vida. Qual é o nome dessa dor? É uma dor sem nome.
Existem também outras dores profundas:
- a dor de ser traído por quem prometeu amar na saúde e na doença, na tristeza e na alegria;
- a dor de ser traído por um amigo(a);
- a dor de ser roubado por alguém em quem se confiava;
- a dor de ser abandonado pelo pai ou pela mãe;
- a dor de não saber quem é seu pai ou sua mãe;
- a dor de ser violentado(a), abusado por alguém que prometeu cuidar.
Sabemos que muitas dessas dores acontecem porque faltou Deus no coração dessas pessoas.
Quando a dor vira revolta contra Deus
A dor vira revolta contra Deus quando o sofrimento é intenso, prolongado e incompreendido, levando o indivíduo a questionar a bondade, a justiça ou até a existência de um propósito divino.
Essa frase pode sugerir que Deus quis a dor, a doença ou a morte, transformando um Deus de amor em um algoz — o que é teologicamente questionado por muitos que defendem que Deus não manda o mal nem tira a vida dessa forma.
Essa transformação geralmente ocorre em momentos de luto extremo, perdas irreparáveis ou tragédias aparentemente injustas, quando a raiva substitui o choro e a fé é abalada.
Três dimensões da revolta espiritual
Podemos identificar três dimensões nesse processo:
1. Revolta como desabafo da fragilidade humana
Surge quando o ser humano perde o controle sobre a própria vida e não aceita a soberania divina.
Precisamos lembrar que Deus é inimigo da morte, e Ele mesmo experimentou essa dor no Calvário com Seu Filho, Jesus.
2. A dificuldade de aceitar a perda
Não queremos aceitar que houve uma perda e que não estávamos preparados. Muitas vezes, é uma forma honesta de oração: “Deus, por que deixaste isso acontecer?”
Aqui a pessoa expressa dor profunda e conflito interior, reconhecendo sua fragilidade humana.
3. Culpar Deus em silêncio
Esse sentimento pode levar a uma doença emocional. Culpar Deus em silêncio gera sofrimento interno gradativo e revela a necessidade de cura emocional e espiritual. Deixamos de olhar a razão dos fatos.
Não analisamos as causas:
- uma doença diagnosticada pelos médicos;
- um acidente;
- um assassinato;
- a perda de um emprego;
- ou outras circunstâncias reveladas.
A fé como âncora no sofrimento
A fé é um sustentáculo, uma âncora nas diversas dimensões do sofrimento — seja na doença, na perda de um ente querido, em um relacionamento ou na vida familiar.
A fé não é um sentimento. É um dom dado por Deus.
Ela ilumina a razão e nos dá um olhar de compaixão voltado para a verdade da vida.
Vivemos em um mundo sujeito às intempéries, tribulações e dificuldades: na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, na alegria e na dor, na paz e na guerra.
O tempo de Deus segundo Eclesiastes
No livro do Eclesiastes está escrito que existe um tempo para cada coisa:
“Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu:
tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou,
tempo de matar e tempo de curar,
tempo de derrubar e tempo de construir,
tempo de chorar e tempo de rir,
tempo de prantear e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las,
tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir,
tempo de guardar e tempo de jogar fora,
tempo de rasgar e tempo de costurar,
tempo de calar e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de odiar,
tempo de lutar e tempo de viver em paz.”
(Eclesiastes 3,1-8)
Aprender a viver os tempos de Deus
O que precisamos é aprender a viver os tempos de Deus.
Sabemos que Deus não quis o mal para nós.
Se compreendermos isso, encontraremos, ao fim de cada tempo, a verdadeira paz.





