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Maternidade espiritual de Maria
Quando, do alto da Cruz, Jesus diz ao Apóstolo João, que era o discípulo que Ele amava: “Eis a tua mãe” (em Jo 19, 25), Ele demonstrou o amor, o cuidado e o zelo pela Santíssima Virgem Maria, que também estava aos pés da Cruz. Deus tirou Maria da dimensão de uma “mulher qualquer” e a colocou no patamar de Mãe do Salvador, e este, no momento da Sua morte, preocupou-se em dar segurança a sua Mãe quando a entregou a João, dando-lhe uma nova família terrena.
O olhar de Bento XVI sobre o amparo de João
Sobre aquele versículo (Jo 19,25), comenta Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI):
“A tradução literal é ainda mais forte; poder-se-ia transcrevê-la mais ou menos assim: ele A acolheu naquilo que lhe era o mais próprio, acolheu-A no seu íntimo contexto de vida. Trata-se, pois, primariamente, de um gesto muito humano do Redentor que está para morrer. Não deixa a Mãe sozinha, mas confia-A à solicitude do discípulo que Lhe era muito querido. E assim também ao discípulo é dado um novo lar: a Mãe que cuida dele, e com a qual se preocupa” (Livro: Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 2. ed. Ed. Planeta, 2016, p. 200).
Mãe dos fiéis
É certo dizer que, por essa entrega feita por Jesus de sua Mãe aos cuidados de João no momento da Cruz, a Virgem Maria, que já era a Mãe de Deus, como anunciado pelo Anjo Gabriel (Lc 1,31-35) e por Isabel (Lc 1,43), assume também a categoria de mãe dos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja.
Veja o Catecismo da Igreja Católica:
“Depois de termos falado do papel da Virgem Maria no mistério de Cristo e do Espírito, é conveniente considerarmos agora o seu lugar no mistério da Igreja. «Efetivamente, a Virgem Maria […] é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor […]. Ao mesmo tempo, porém, é verdadeiramente “Mãe dos membros (de Cristo) […], porque cooperou com o seu amor para que, na Igreja, nascessem os fiéis, membros daquela Cabeça”» (525). «Maria, […] Mãe de Cristo e Mãe da Igreja» (526).”
Os dogmas marianos e a vontade de Deus
Toda a trajetória da vida de Nossa Senhora é marcada pela vontade de Deus, desde a sua Imaculada Conceição (Bula “Ineffabilis Deus”, 8 dez. 1854), a Maternidade divina (Concílio de Éfeso em 431 d.C.), a sua Virgindade Perpétua (Concílio de Latrão em 649 d.C.), até a sua Assunção ao Céu (Constituição apostólica “Munificentissimus Deus”, 1 nov. 1950). Segundo o Catecismo da Igreja Católica:
“508. Na descendência de Eva, Deus escolheu a Virgem Maria para ser a Mãe do seu Filho. ‘Cheia de graça’, ela é ‘o mais excelso fruto da Redenção’ (182). Desde o primeiro instante da sua conceição, ela foi totalmente preservada imune da mancha do pecado original, e permaneceu pura de todo o pecado pessoal ao longo da vida. 509. Maria é verdadeiramente ‘Mãe de Deus’, pois é a Mãe do Filho eterno de Deus feito homem que, Ele próprio, é Deus. 510. Maria permaneceu ‘Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem ao dá-Lo à luz, Virgem grávida, Virgem fecunda, Virgem perpétua’ (183); com todo o seu ser; ela é a ‘serva do Senhor’ (Lc 1, 38). 511. A Virgem Maria ‘cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens’ (184). Pronunciou o seu ‘fiat’ – faça-se – ‘loco totius humanae naturae – em vez de toda a humanidade’ (185): pela sua obediência, tornou-se a nova Eva, mãe dos vivos. 973. Ao pronunciar o ‘Fiat’ da Anunciação e dando o seu consentimento ao mistério da Encarnação, Maria colabora desde logo com toda a obra a realizar por seu Filho. Ela é Mãe, onde quer que Ele seja Salvador e Cabeça do Corpo Místico. 974. Terminado o curso da sua vida terrena, a santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma para a glória do céu, onde participa já na glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros do Seu Corpo. 975. ‘Nós cremos que a santíssima Mãe de Deus, a nova Eva, a Mãe da Igreja, continua a desempenhar no céu o seu papel maternal para com os membros de Cristo’ (545)”
Quatro pilares
Veja que esses trechos do Catecismo da Igreja Católica trazem quatro grandes verdades da nossa Igreja a respeito de Nossa Senhora.
São os chamados dogmas marianos:
- Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado original);
- Virgindade Perpétua (Maria foi Virgem antes, durante e depois do parto);
- Maternidade Divina (Maria é a Mãe de Deus);
- Assunção ao céu (Maria foi elevada ao céu, de corpo e alma, participando, desde já, da glória de Deus).
Observa-se todo um cuidado, zelo e proteção de Jesus para com a sua Mãe. E o Filho continua honrando a Santíssima Virgem Maria até depois da sua Assunção ao céu. Preservando a memória que se faz dela e alertando para a necessidade de reparação às ofensas ao Imaculado Coração.
A origem da reparação: aparições de Pontevedra (1925)
Numa das aparições de Nossa Senhora à Irmã Lúcia, em 10 de dezembro de 1925, na cidade de Pontevedra, na Espanha, ela apareceu juntamente com o Menino Jesus e mostrou um coração cercado de espinhos. E é o menino Jesus quem fala:
“Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar.”
( Memórias da Ir. Lúcia, p. 192, citado no livro A Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados de Áurea Maria, 2017, p. 57).
O pedido de Nossa Senhora
Na mesma aparição, a Virgem Maria disse à Irmã Lúcia:
“Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que, durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, eu prometo assistir-lhe, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas” (Idem, p. 57).
Jesus e Nossa Senhora pedem a prática da reparação às blasfêmias e ingratidões ao Imaculado Coração de Maria. Reparar, segundo Aurélio (Minidicionário, 2010, p. 657), significa consertar, restaurar, corrigir, eliminar ou remediar um erro ou mal cometido.
O significado teológico de “reparar” no Antigo e Novo Testamento
O termo “reparar” e seus derivados aparecem no Antigo Testamento nos diversos sentidos apontados acima: no sentido de conserto ou restauração (2Cr 24, 5; 12), de correção (Is 51, 3; Dt 22, 19; 2Rs 12, 5-7; 2Cr 35, 20; Ne 4, 1; Ne 5, 16; 1Rs 18, 30; 2Cr 32, 5; Ne 3, 15) e de eliminação ou remediação de erro ou mal cometido (Nm 15, 25; Lv 5, 15-25; Lv 6, 10; Lv 7, 1-7; Lv 7, 37; Lv 14, 12-28; Lv 19, 21-22; Nm 6, 12; Nm 18, 9).
Veja que a reparação tanto poderia ser física, no campo material, de objetos e coisas. No âmbito espiritual, de eliminar ou remediar o erro ou ato cometido. Vários textos bíblicos apontados acima referem-se à motivação para os atos de expiação dos pecados. Os sacrifícios relatados no Antigo Testamento foram substituídos pelo sacrifício supremo e único de entrega de amor de Jesus na Cruz. Jesus é o reparador por excelência e o fez de uma vez por todas quando morreu na Cruz para nos salvar. E, todo dia, atualiza esse instante quando se oferece em sacrifício na Santa Missa, por meio da Eucaristia, e se dá (Corpo, Sangue, Alma e Divindade) como alimento para nossa santificação.
O único sacríficio da Cruz
Em Hb 10,11-18:
“Todo sacerdote se apresenta, a cada dia, para realizar suas funções e oferecer, com frequência, os mesmos sacrifícios, que são incapazes de eliminar os pecados. Ele, ao contrário, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados, sentou-se para sempre à direita de Deus. E então espera que seus inimigos venham a lhe servir de escabelo para os pés. De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que ele santifica. É isso o que também nos atesta o Espírito Santo, porque, depois de ter dito “Eis a aliança que realizarei com eles”.
Depois daqueles dias, o Senhor declara: “Pondo as minhas leis nos seus corações e inscrevendo-as na sua mente, não me lembrarei mais dos seus pecados, nem das suas iniquidades. Ora, onde existe a remissão dos pecados, já não se faz a oferenda por eles”.
Jesus já deu a vida em sacrifício pelos nossos pecados
A reparação às blasfêmias e ingratidões ao Imaculado Coração de Maria assume uma dimensão diferente da oferta de sacrifícios para expiação dos pecados do Antigo Testamento, na medida em que já temos o sacrifício único pela expiação dos pecados da humanidade inteira, que é Jesus Cristo.
A reparação dos cinco primeiros sábados às ofensas ao Imaculado Coração de Maria tem a dimensão de restaurar e consolar. Consiste num “ato de amor, porque é um ato solidário no amor trinitário pela salvação do mundo, solidário na reparação, no mistério da redenção. Isso apenas se compreende adequadamente em referência constante ao mistério pascal, o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus” (Trecho retirado do livro Dentro da Luz: um itinerário para compreender a mensagem de Fátima de Ângela de Fátima Coelho, Ed. Paulus, 2022, p. 174).
As duas dimensões da reparação: restaurar e consolar
Em relação à dimensão da restauração, continua essa autora a mencionar que:
“Significa que, cada vez que faço um ato de reparação, estou a participar nesta dinâmica, estou a colaborar com Cristo para que hoje estas relações quebradas pelo pecado possam ser novamente restauradas. De cada vez que faço os Primeiros Sábados, rezo o Terço em reparação, ofereço sacrifícios em reparação, estou a fazê-lo em união com o mistério pascal, em união com o único momento de reparação da nossa história da salvação; estou aceitando o convite a introduzir-me mais profundamente no mistério pascal com a minha vida pessoal. Trata-se, por isso, de muito mais do que uma simples devoção” (Idem, p. 176).
E quanto à dimensão consoladora dessa reparação, aquela autora coloca ainda que “fazer a reparação é uma possibilidade que temos para consolar o nosso Deus e o Imaculado Coração de Maria, porque não pensamos nas nossas próprias necessidades, mas apenas em fazer-lhes companhia, mostrando-lhes que os amamos acima de todas as nossas intenções ou motivações para fazer a oração” (Idem, p. 179).
Por que cinco sábados? As cinco ofensas explicadas por Jesus
O que Jesus e a Virgem Maria pedem na reparação nos cinco primeiros sábados é um verdadeiro caminho espiritual para a santidade por meio da oração do Terço, meditação dos mistérios do Santo Rosário por quinze minutos, a confissão e a participação na Santa Missa. E Jesus explicou à Irmã Lúcia por que a reparação deveria ser feita nos cinco primeiros sábados seguidos. Devido a cinco ofensas graves a Nossa Senhora:
1. Blasfêmias contra a Imaculada Conceição;
2. Contra a sua Virgindade;
3. Contra a maternidade divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos homens;
4. Os que procuram publicamente infundir nos corações das crianças a indiferença, o desprezo e até o ódio para com esta Imaculada Mãe;
5. Os que a ultrajam diretamente nas suas sagradas imagens.
Reparação é atitude de amor
E Jesus continua explicando à Irmã Lúcia:
“Eis, minha filha, o motivo pelo qual o Imaculado Coração de Maria Me levou a pedir esta pequena reparação; e, em atenção a ela, mover a Minha misericórdia ao perdão para com essas almas que tiveram a desgraça de A ofender. Quanto a ti, procura sem cessar, com as tuas orações e sacrifícios, mover-Me à misericórdia para com essas pobres almas” (Trecho retirado da Carta da Ir. Lúcia ao Pe. José Bernardo Gonçalves, SJ, 12.6.1930, publicado no livro A Grande Promessa, pp. 31-32, citado no livro A Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados de Áurea Maria, Ed. Canção Nova, 2017, p. 61-62).
Os atos reparadores são atitudes de amor que visam restaurar quem as pratica e aqueles trazidos em intenção, e também consolar os corações de Deus e da Santíssima Virgem e honrá-la naquilo que Ela é. Portanto, é um ato de amor e consideração para com Nossa Senhora, cuja iniciativa de reparação partiu do Sagrado Coração do seu Filho.







