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Por padre Uélisson Santos
O que é a Festa da Misericórdia e por que ela foi pedida por Jesus
Há mais de oito anos, tenho a graça de viver intensamente a Festa da Misericórdia. Diariamente, pela TV Canção Nova de Portugal, rezo o Terço da Misericórdia. Testemunho quantas almas são tocadas por essa espiritualidade que brota do próprio coração de Jesus.
Celebrada no segundo Domingo da Páscoa, a Festa da Misericórdia nasceu no coração de Deus. Foi revelada ao mundo por meio de Santa Faustina Kowalska. Mais do que uma devoção, como bem dizia padre Jonas Abib, trata-se de uma verdadeira espiritualidade.
Um convite muito claro: voltar ao Senhor sem medo, especialmente quando nos sentimos mais distantes d’Ele. O próprio Jesus pediu a Santa Faustina, e ela registrou em seu diário:
“Desejo que o primeiro domingo depois da Páscoa seja a Festa da Misericórdia” (Diário, 299).
O significado da indulgência plenária neste dia de graça
Pode parecer curioso — para mim também foi — que, logo após a Quaresma, com toda a sua exigência de penitência, silêncio e conversão, a Igreja nos ofereça um dia marcado por graças tão abundantes, como a indulgência plenária. Mas aqui encontramos uma sabedoria profundamente divina.
A Quaresma nos recorda que viemos do pó, e por isso somos frágeis, pecadores, necessitados de redenção. Já a Festa da Misericórdia revela quem Deus é: infinitamente misericordioso! Disposto não apenas a perdoar, mas a restaurar por completo o ser humano.
E é justamente aqui que se destaca o valor da indulgência plenária, tantas vezes esquecida ou mal compreendida, mas uma expressão concreta do amor de Deus.
Segundo o Catecismo da Igreja Católica (§1471), trata-se da “remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa”. Ou seja, Deus vai além da absolvição que recebemos no Sacramento da Reconciliação. Ele deseja curar as marcas que o pecado deixou em nós.
Quais são as condições para receber a indulgência plenária
Santa Faustina testemunha esse desejo do próprio Cristo: “Desejo conceder indulgência plenária às almas que se confessarem e receberem a santa Comunhão na Festa da Minha Misericórdia” (Diário, 1109).
E aqui está algo que sempre me toca profundamente: Deus não se contenta em nos levantar, Ele quer nos devolver a dignidade inteira.
Infelizmente, muitos cristãos deixaram de buscar esse tesouro espiritual, talvez por falta de conhecimento. No entanto, a Igreja, como mãe, continua a oferecer, diariamente, a possibilidade de indulgências.
Sim, todos os dias, podemos receber essa graça, uma vez ao dia, se vivermos algumas condições concretas: a confissão sincera, a comunhão eucarística, a oração pelas intenções do Papa e a prática de um exercício espiritual, como a adoração ao Santíssimo, a meditação da Palavra, o Terço em família ou a Via-Sacra.
Não são exigências pesadas, mas caminhos de encontro. São meios que nos tiram da superficialidade e nos conduzem a uma vida espiritual mais profunda e autêntica.
Como oferecer indulgências pelas almas do purgatório
Santa Faustina, inclusive, recebeu uma luz muito concreta sobre isso: “Jesus deseja que eu utilize esse tempo para fazer orações com indulgências pelas almas que sofrem no purgatório. E Ele me garantiu que cada palavra será pesada no dia do Juízo” (Diário, 274).
Outro aspecto essencial é a caridade para com as almas do purgatório. A Igreja nos ensina que podemos oferecer indulgências por elas.
Que gesto grandioso! Amar aqueles que já partiram, ajudando-os a alcançar a plenitude da visão de Deus.
Jesus disse ainda a Santa Faustina: “Tira do tesouro da Minha Igreja todas as indulgências e oferece-as por elas {as almas do purgatório}” (Diário, 1226).
A espiritualidade da misericórdia no coração da Igreja
A Festa da Misericórdia, portanto, não é um “extra” no calendário litúrgico. É uma revelação do coração de Deus.
Se a Quaresma nos levou a reconhecer a nossa miséria, a Misericórdia vem nos envolver com um amor que não tem medida.
O Papa Francisco nos dizia que Deus não se cansa de nos perdoar, mas nós que cansamos de pedir perdão.
Atrevo-me a dizer: Deus não se cansa de nos oferecer misericórdia. Somos nós que, muitas vezes, demoramos a confiar nela.





