A crise de referências e a identidade sacerdotal
Estamos em tempos difíceis de crise de referências. Em toda a história da humanidade, nos grandes impérios e sociedades, sempre se destacaram homens e mulheres que muito contribuíram para o desenvolvimento humano, social e religioso. Com certeza, não foi diferente no contexto de nossa Igreja, principalmente quando voltamos nosso olhar para a figura do sacerdote.
Nesse sentido de crise de referências, a figura paterna tem sido incessantemente atacada, causando confusão e inversão de papéis dentro do cenário familiar. Com isso, a própria identidade do sacerdote, como um pai espiritual, não escapa desse forte ataque e investida do mal.

Fonte: Imagem restaurada com Inteligência Artificial para este artigo. Fotografia de Elia Stelluto. Acervo do Convento dos Frades Menores Capuchinhos de San Giovanni Rotondo.
A provocação do Cardeal Sarah: “Sacerdote, quem és?”
O Cardeal Robert Sarah, em uma de suas reflexões sobre o sacerdócio, lança esta pergunta um tanto quanto ousada: “Sacerdote, quem és?”. Trata-se de uma pergunta ácida, mas necessária no tempo atual. O que tem acontecido com muitos de nossos padres? O Cardeal assim discorre:
“No passado, talvez fosse possível reduzir o sacerdócio à capacidade de realizar atos a serviço da vida dos cristãos. Talvez tenha sido esquecido que a vida sacerdotal é um caminho específico para a santidade, enraizado no batismo. A fim de salientar a importância central dos sacramentos na vida da Igreja, o sacerdócio às vezes foi reduzido ao poder de consagrar a Eucaristia e de absolver os pecados. Naturalmente, esses atos são centrais para a vida do sacerdote. É claro que este poder (no sentido latino de potestas) é real. Mas, por muito enfatizar isto, o perigo seria reduzir o sacerdócio a uma função, a um ‘fazer’. O sacerdote vale antes de tudo pelo que ele é e não pelo que ele faz. Longe de nós negar ou mesmo relativizar este poder especificamente sacerdotal de consagrar e absolver. Mas não podemos reduzir o padre a ser um ‘distribuidor de sacramentos’.”
Talvez se aplique aqui o que tem acontecido com muitos sacerdotes que, por serem reduzidos apenas ao “serviço”, perdem o real sentido, o brilho, a dignidade e a beleza que o ministério abarca. Obviamente, existe hoje um forte apelo da cultura da secularização e do relativismo que, infelizmente, também tem atingido muitos padres.
Em meio a esses conflitos, o próprio ministro ordenado corre o risco de se esquecer de quem é, e assim deixar escorrer pelas mãos a sua autêntica identidade, perdendo-se na imagem distorcida de que é apenas alguém para ser explorado. Com isso, faz-se necessário sempre retomar a vida dos santos como modelos de fidelidade, principalmente em momentos de conflitos e contrariedades. São Padre Pio apresenta-se como um desses modelos para os sacerdotes de nossos tempos.
O sacerdócio de São Padre Pio
É belo como o site do Vaticano descreve a vida e o modo como Padre Pio assumiu e viveu seu ministério sacerdotal:
“Tal como o apóstolo Paulo, o Padre Pio de Pietrelcina colocou, no vértice da sua vida e do seu apostolado, a Cruz do seu Senhor como sua força, sabedoria e glória. Abrasado de amor por Jesus Cristo, com Ele se configurou imolando-se pela salvação do mundo. Foi tão generoso e perfeito no seguimento e imitação de Cristo Crucificado, que poderia ter dito:
‘Estou crucificado com Cristo; já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim’ (Gl 2,19).
E os tesouros de graça que Deus lhe concedera com singular abundância, dispensou-os ele incessantemente com o seu ministério, servindo os homens e mulheres que a ele acorriam em número sempre maior e gerando uma multidão de filhos e filhas espirituais.”
Aqui está o sentido do ministério sacerdotal: por amor a Jesus Cristo, assumir a Cruz do Senhor com amor e generosidade, alimentando no coração o desejo ardente de colaborar com a salvação das almas. Continua o site do Vaticano a discorrer que, “abrasado pelo amor de Deus e do próximo, o Padre Pio viveu em plenitude a vocação de contribuir para a redenção do homem, segundo a missão especial que caracterizou toda a sua vida e que ele cumpriu através da direção espiritual dos fiéis, da reconciliação sacramental dos penitentes e da celebração da Eucaristia. O momento mais alto da sua atividade apostólica era aquele em que celebrava a Santa Missa. Os fiéis, que nela participavam, pressentiam o ponto mais alto e a plenitude da sua espiritualidade.”
Um doador de vida, não um funcionário
Vemos aqui algo que, anteriormente, nas palavras do Cardeal Sarah, ganha um novo sentido. Padre Pio soube viver com amor, dedicação e seriedade a sua missão, não como um mero “dispensador” de sacramentos. Em tudo o que fazia — seja no confessionário, na celebração da Santa Missa, no cuidado com o povo ou na direção espiritual —, não se considerava um “funcionário”, mas um doador de vida. A sua vida se traduzia em doação para salvar, e isso muda o sentido da entrega do ministro ordenado.
Contemplamos a máxima expressão da sua caridade para com o próximo no acolhimento prestado por ele, durante mais de 50 anos, às inúmeras pessoas que acorriam ao seu ministério, ao seu confessionário, ao seu conselho e ao seu conforto. Parecia um assédio: procuravam-no na igreja, na sacristia, no convento. E ele prestava-se a todos, fazendo renascer a fé, espalhando a graça e iluminando. Sobretudo nos pobres, atribulados e doentes, ele via a imagem de Cristo e a eles se entregava de modo especial. O seu interesse era a glória de Deus e o bem das almas.
Recuperar o sentido do sacerdócio
Retomando o que no início da reflexão foi sinalizado, em meio à falta de referências no mundo em que nos encontramos, São Padre Pio ainda se revela como esse modelo de sacerdote, de pai espiritual, de homem de Deus e de santidade. Sua vida revela-se, de modo especial para os padres, como uma bússola, uma luz em meio ao mundo envolto em trevas e uma motivação para recuperar o sentido genuíno do sacerdócio.
Padre Pio como farol para a Igreja
A oração da coleta que a Igreja aprovou para a Memória de São Padre Pio recorda que Deus, por uma graça singular, deu a este santo a oportunidade de participar da Paixão de Cristo, de modo que ele conseguiu exercer o seu ministério sacerdotal de forma extraordinária.
Como diz o Evangelho de São Lucas, “ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha” (Lc 8, 16). Durante a vida do Padre Pio, a sua lâmpada, acesa por Deus, ficou por certos momentos escondida debaixo da vasilha quando ele não podia exercer o seu ministério, aparecer em público, pregar e confessar. Entretanto, apesar desse período “escondido”, Padre Pio foi colocado sobre o candelabro para iluminar toda a sala; para iluminar a Igreja com a sua vida, sendo um farol para todos os sacerdotes.
Aqui também se apresenta algo que os padres precisam assumir e recuperar, sem medo e por amor: as humilhações, a solidão, as provas e as renúncias que também Nosso Senhor viveu. Provações a que Padre Pio foi submetido e que se manifestaram de modo visível em suas chagas. Sem dúvida, São Padre Pio levanta-se como um sinal da manifestação amorosa de Deus Pai e modelo de Pastor para os nossos tempos.
Prolongar a presença de Cristo Pastor
Desse modo, faz-se necessário rezar cada vez mais e com fervor pelos sacerdotes, pela santificação e conversão de nossos padres, porque são verdadeiramente alvos dos ataques do inimigo e, além de tudo, são humanos. Podemos concluir com as palavras de São João Paulo II em sua exortação apostólica Pastores Dabo Vobis, número 15:
“Portanto, os presbíteros são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o seu estilo de vida e tornando-se como que a Sua transparência no meio do rebanho a eles confiado. Assim se lê, de modo claro e preciso, na Primeira Carta de Pedro:
‘Recomendo aos presbíteros que estão entre vós, eu presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que se deve manifestar: apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, olhando por ele não constrangidos, mas de boa vontade segundo Deus, não por ganância, mas por dedicação; não como dominadores sobre aqueles que vos foram confiados, antes tornando-vos modelo do rebanho. E quando aparecer o supremo Pastor recebereis a coroa eterna da glória’ (1Pd 5, 1-4).”
Que Deus abençoe você.
Fontes
JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-sinodal Pastores Dabo Vobis. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis.html.
RICARDO, Padre Paulo. Duas lições do Padre Pio para os sacerdotes. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/episodios/duas-licoes-do-padre-pio-para-os-sacerdotes.
SARAH, Robert. Para a eternidade – meditações sobre a figura do sacerdote. Tradução Mauricio Pagotto Marsola. São Paulo: Edições Fons Sapientiae, 2022.
VATICAN.VA. Padre Pio de Pietrelcina. Disponível em: https://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20020616_padre-pio_po.html.







