Descubra como a história do profeta Jonas revela a jornada do herói. A misericórdia divina e o caminho da conversão à luz da Sagrada Escritura.
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Por Leonardo Nascimento
A arte de contar histórias e a jornada do herói
Um dos maiores dons que Deus concedeu ao ser humano foi sua capacidade de contar histórias. Pais contam sua infância sofrida para os filhos, filhos contam aos pais sobre episódios extraordinários que aconteceram na escola. Um artista transforma uma cena de despejo num clássico da música popular brasileira. Uma história contada para que as crianças tivessem medo de pegar atalhos na floresta acaba se tornando um dos contos infantis mais conhecidos do mundo.
As músicas contam histórias, os livros, os filmes, os quadros, as fotos. Até as lápides contam histórias, essa grande obsessão do ser humano.
Há histórias de cavaleiros resgatando princesas e matando dragões. Homens e mulheres valentes que triunfaram, sobrevivendo aos perigos mais extremos. Criaturas frágeis que receberam missões aparentemente impossíveis.
Quase todas elas, dizem os estudiosos, compartilham pelo menos alguns elementos comuns, que compõem a chamada “jornada do herói”, termo criado pelo escritor e mitologista Joseph Campbell.
O profeta Jonas e a jornada do herói segundo Joseph Campbell
De maneira simplificada, essa jornada começa com ele, o “herói” da história, em sua situação normal, comum. Acontece um chamado, um evento que quebra sua rotina e o convida para algo novo, desafiador, normalmente visto como além de sua capacidade.
Ele recusa, foge, se esconde, mas alguém – um mentor – aparece e ajuda-o a compreender a urgência daquela missão. Ele enfrenta perigos, desafios, até chegar à provação suprema. Recupera-se, cumpre sua missão, volta para casa (para sua vida normal) portando o elixir, ou seja, algo – um prêmio, uma lição, um objeto mágico – que transforma sua vida, sua visão de mundo.
Desde criança sou apaixonado por literatura – e, consequentemente, por histórias. Por essa razão, para mim é sempre desafiador ler o livro do profeta Jonas sem prestar atenção exclusivamente à sua brilhante narrativa, que é um modelo perfeito da jornada do herói.
O chamado, a fuga e a missão
O livro do profeta Jonas é certamente um dos mais literários e originais da Bíblia. Curtinho, com apenas quatro capítulos, os elementos da jornada do herói estão lá, cristalinos.
Os primeiros quatro versículos nos apresentam o herói (Jonas, filho de Amati), o chamado à aventura (“Vai a Nínive, a grande cidade, e profere contra ela os teus oráculos”), a fuga (“Jonas pôs-se a caminho, mas na direção de Társis, para fugir do Senhor”), e o teste (“O Senhor, porém, fez vir sobre o mar um vento impetuoso e levantou no mar uma tempestade tão grande que a embarcação ameaçava espedaçar-se”).
A partir daí, você deve lembrar bem, começa um grande momento de tensão: os marinheiros, experientes, percebem que aquela tempestade não é natural, mas vem de algum castigo divino. Rezam, cada um a seu deus, e se inquietam ao ver que Jonas dorme tranquilamente enquanto o navio está prestes a afundar. Algo não parece certo nisso!
Tiram a sorte para ver quem era a causa daquele mal. Jonas é o escolhido. Ele revela ser hebreu, servo do Deus verdadeiro. Vendo a aflição daqueles homens inocentes, toma uma decisão corajosa: pede para ser lançado ao mar, porque sabe que aquela tempestade se levantou por conta da sua desobediência a Deus.
O ventre do peixe como símbolo de renascimento
O que acontece em seguida (Jonas é engolido por um grande peixe e permanece em seu ventre por três dias) é a passagem mais célebre do livro. Virou música para as crianças, inspirou livros, filmes, canções e inspirou até mesmo o próprio Joseph Campbell, autor que apresenta a ideia da jornada do herói: uma das etapas da jornada é “o ventre do peixe”.
Simbolicamente, representa uma profunda transformação, um renascimento. Deste útero o herói renasce.
Jonas fugiu de Nínive porque não queria cumprir a vontade de Deus. No ventre do peixe ele reflete, arrepende-se e, após ser vomitado em terra firme, parte em direção a Nínive para cumprir sua missão.
Sabemos bem da força do símbolo de Jonas no ventre do grande peixe: o próprio Jesus associa aquela “morte” a si, Ele que passou três dias no ventre da terra, para depois ressuscitar.
A missão em Nínive e a misericórdia de Deus
Continuando a jornada do herói, o profeta Jonas chega a Nínive e cumpre sua missão: ao anunciar que a cidade seria destruída em quarenta dias por conta da perversidade de seu povo, todos, desde o rei até os animais, fizeram penitência e cobriram-se de panos de saco e de cinza, como sinal de arrependimento, na esperança de que Deus revogasse o ardor de sua ira.
E o Senhor teve misericórdia de Nínive e a poupou de seu merecido castigo!
Aqui poderia muito bem ser o fim da história do profeta Jonas. Ele foi chamado à missão, quis fugir, recebeu um castigo de Deus, arrependeu-se, cumpriu sua missão. Deus salvou a cidade e “todos viveram felizes para sempre”.
A verdadeira conversão de Jonas
Mas é aí que se manifesta a genialidade do Espírito Santo ao inspirar aquele que registrou a história de Jonas.
A minha parte favorita do livro começa justamente no último capítulo, o quarto, que narra o que acontece após esse final feliz.
Há muitas camadas aqui, por isso vou me concentrar no que Deus queria falar a Jonas e não a Nínive.
O que essa narrativa ensina para nossa vida espiritual
Ao analisar a jornada do herói, vemos que entra em cena o mentor, aquele que vai ensinar algo ao herói. O Senhor assume esse papel e revela-se um mestre que ensina de maneira curiosa.
Jonas ficou furioso, irado, fora de controle porque Deus não destruiu Nínive.
Diz o profeta a Deus: “Por isso fugi apressadamente para Társis; pois eu sabia que tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira, e rico em amor e que se arrepende do mal”.
De tão transtornado, ele suplica que Deus lhe tire a vida, é melhor para ele morrer do que lidar com seu fracasso.
Afinal, que profeta é esse que enfrenta tantos desafios para cumprir sua missão, sai falando para Deus e para o mundo que Nínive vai ser destruída e agora Deus joga seu nome de profeta na lama: o que Jonas disse não se cumpriu.
Para que serve um profeta cujas profecias não se cumprem?
Jonas vai para um lugar de onde pode observar Nínive, e lá fica aguardando, aparentemente na esperança de que Deus se arrependa de ser misericordioso e destrua a cidade.
Para acalmar Jonas, Deus fez crescer uma mamoneira sobre Jonas, para fazer sombra sobre sua cabeça.
Jonas, como uma criança, alegra-se com isso, mas no dia seguinte Deus manda um verme para roer a mamoneira, que seca.
Quando o sol se levanta no dia seguinte, sem a mamoneira para protegê-lo do calor insuportável, Jonas volta a pedir a morte, de tão frustrado que está com Deus, que parece brincar com sua vida.
O ensinamento final: a misericórdia divina
Manifesta-se então toda a sabedoria do Senhor, que diz ao profeta: você teve pena de uma mamoneira, que não lhe custou nada, que você não fez crescer, e que num dia existia e no dia seguinte não existia mais.
“E eu não terei pena de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil homens, que não distinguem entre direita e esquerda, assim como muitos animais!”
O livro termina assim, abruptamente, com o famoso “final aberto”, sem que Jonas tenha direito a réplica e sem que saibamos se ele compreendeu o ensinamento de Deus e se arrependeu ou se continuou torcendo pela destruição de Nínive.
A impressão que tenho é que a história não é sobre Deus se compadecendo dos ninivitas, mas sobre Deus se compadecendo de seu querido profeta Jonas, que está perdido, já que não sabe o que é a Misericórdia.
É uma história sobre conversão, mas não do rei, do povo e dos animais de Nínive, e sim do profeta Jonas.
A aplicação espiritual para a nossa vida
A leitura que faço dessa grande narrativa bíblica é sempre pessoal, me colocando no lugar do profeta Jonas.
Sou eu esse covarde, esse teimoso, que se esconde de Deus e foge do chamado à santidade. Sou eu esse orgulhoso, que mesmo quando resolve seguir ao Senhor, quer que as coisas aconteçam do meu jeito e se revolta quando Deus manifesta sua bondade para aqueles que eu acho que não merecem.
Por fim, se no livro o final é aberto e não sabemos se o profeta Jonas se converteu ou não, eu quero que na minha história, na minha jornada de herói, eu termine compreendendo o que é a Misericórdia Divina. Aprendendo a amar e a ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus.





