Por que alguns demônios só podem ser expulsos com jejum, se Jesus já venceu na cruz?

Entenda o ensinamento de Jesus Cristo sobre jejum e libertação espiritual à luz da Bíblia, da tradição da Igreja e da vitória da Cruz

Você já se perguntou por que alguns demônios só podem ser expulsos com jejum, se Jesus já venceu definitivamente o mal na Cruz? Essa é uma dúvida comum entre cristãos. Neste artigo, de padre Vagner Baía, vamos esclarecer a relação entre jejum, batalha espiritual e a vitória de Cristo, conforme as Escrituras e o ensinamento da Igreja.

Por que alguns demônios só podem ser expulsos com jejum? Se Jesus já venceu na cruz, por que ainda é necessário? - Imagem de jovem rezando na sala com vista para cidade, na frente reza com uma bíblia , um copo de água e uma vela acesa.

Fonte: Imagem autoral criada com Inteligência Artificial para este artigo.

Por padre Vagner Baía, exorcista

Se Cristo já venceu o demônio na Cruz, por que ainda precisamos jejuar?

O jejum está profundamente relacionado ao combate ao pecado da gula, ou seja, ao desequilíbrio da boca. Ele existe desde o começo da humanidade, estando ligado à queda de Adão e Eva, quando Deus lhes proibiu comer do fruto da árvore que estava no meio do jardim (cf. Gênesis 3).

Em Gn 3,1-6, vemos que a serpente seduz a mulher, que passa a desejar o fruto “bom para comer, agradável aos olhos e desejável para adquirir conhecimento”.

Ao comer e oferecer ao marido, entra a desobediência

Entrou o desequilíbrio. Deixaram-se alimentar pelos olhos, e isso causou toda a desordem que a gula traz até hoje à nossa vida. Nessa situação, entraram todos os pecados e a morte. Uma das melhores formas de vencer essa desordem é o jejum, que nos ajuda a controlar os impulsos e a fazer a vontade de Deus.

Sabendo que a boca está relacionada aos sentidos, ela tem grande influência na vida espiritual e física. Por ela nos alimentamos, mas também podemos pecar pelo que falamos.

Vamos conhecer o interior das pessoas pelo que sai da boca. Dela pode proceder bênção ou maldição.

Por isso, Jesus vai treinar seus discípulos para que, pelo jejum, consigam viver bem sua vida, procedendo com bênção.

Jesus jejuou: o verdadeiro sentido do jejum

Jesus jejuou durante 40 dias no monte da tentação.

Mt 4,2: “Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome.”

E por que Ele jejuou?

Devido à necessidade da missão que teria que cumprir, sendo seu verdadeiro alimento fazer a vontade do Pai.

Pela sua boca, Ele traria vida nova a todos: salvação, cura dos enfermos, expulsão dos demônios e a proclamação da graça de Deus.

O jejum na lei judaica

Os judeus jejuam em várias datas. O Yom Kippur (Dia do Perdão) e o Tisha B’Av (Nono de Av) são os mais rigorosos, com duração de cerca de 25 horas.

Outros jejuns incluem:

  • Jejum de Gedalias
  • 10 de Tevet
  • 17 de Tamuz
  • Jejum de Ester
  • Jejum dos primogênitos (véspera de Pessach)

Está na tradição e na Lei Judaica, por isso Jesus também jejuava.

Como deve ser o verdadeiro jejum (Isaías 58)

O profeta Isaías explica qual é o jejum que agrada a Deus:

“De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que, no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários.” (Is 58, 3-8)

O Senhor deixa claro que o verdadeiro jejum não é apenas mortificação exterior, mas:

  • Romper cadeias injustas
  • Libertar os oprimidos
  • Repartir alimento com o esfaimado
  • Dar abrigo aos necessitados
  • Vestir os maltrapilhos

Então a luz surgirá como a aurora.

Por que alguns demônios só podem ser expulsos com jejum? Se Jesus já venceu na cruz, por que ainda é necessário? - Jovem no meio da rua reza com o terço entre as mãos e olha para o céu. Ao fundo carros, prédios e pessoas andam em meio da chuva.

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Por que alguns demônios só podem ser expulsos com jejum

Jesus indicou que o jejum, em conjunto com a oração, é necessário para a expulsão de certas espécies de demônios mais difíceis de vencer. Esse ensinamento aparece após os discípulos não conseguirem libertar um jovem:

  • Mt 17,21
  • Mc 9,29

O jejum é um grande auxílio nos momentos de oração. Especialmente em casos de possessão ou opressão, que exigem maior consagração.

Ele mostra a força interior do poder de Deus que nos sustenta e nos coloca de pé para enfrentar o maligno.

O jejum deve ser feito em secreto

Jesus orienta sobre o verdadeiro sentido do jejum:

“Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os homens vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa.

Ao jejuar, ponha óleo sobre a cabeça e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê no secreto. E seu Pai, que vê no secreto, o recompensará”. (Mt 6, 16-18)

Jesus criticou os hipócritas que jejuavam para mostrar aos outros. Ele ensinou que o jejum deve ser feito para Deus, “em secreto”, com um semblante normal.

A necessidade do jejum hoje

Leia Marcos 2, 18-20
Jesus explicou que Seus discípulos não jejuavam enquanto Ele estava com eles. Jejuariam quando o “noivo” (Jesus) lhes fosse tirado.

O jejum na Igreja é uma prática espiritual essencial para o fortalecimento da fé, domínio próprio e purificação do coração, agindo como arma contra as tentações da carne e um meio para aprofundar a dependência de Deus.

Propósitos e importância do jejum

  • O objetivo principal não é manipular Deus, mas submeter a carne ao Espírito, purificar o coração e ouvir a voz de Deus com mais clareza.
  • Ajuda a controlar apetites desordenados, gula e impulsos sensuais, fortalecendo a castidade e temperança.
  • Utilizado para vencer batalhas espirituais, repreender o mal e fortalecer a fé em momentos de intercessão (Mateus 17,21)

 

 

O que dizem os Papas sobre o jejum

O Papa Leão XIV (e Francisco, em diversas ocasiões) pediu dias de jejum e oração para promover a paz, especialmente em cenários de conflitos como as guerras de Israel e Palestina, Rússia e Ucrânia.

Neste tempo quaresmal, com o tema Jejuar e escutar; ele destaca a importância da escuta atenta a Deus e ao próximo e da prática de jejum. Ele convida os fiéis a uma forma concreta de abstinência, principalmente de palavras que atingem e ferem o próximo.

O Papa Francisco destaca que a relação com a comida deve ser equilibrada e serena. Ele ressalta que o problema não está no alimento em si, mas na relação que se tem com ele. Uma relação desordenada com a comida pode levar a distúrbios alimentares como anorexia, bulimia e obesidade.

Bento XVI recordou os ensinamentos das Sagradas Escrituras e da tradição cristã: “Eles ensinam que o jejum é uma grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que leva a ele. O jejum nos é oferecido como meio para renovar nossa amizade com o Senhor”, “o verdadeiro jejum visa comer o ‘verdadeiro alimento’, que é fazer a vontade do Pai”.

O que dizem os santos sobre o jejum

Santo Agostinho: “O jejum limpa a alma, levanta a mente, submete a carne ao espírito, torna o coração contente e humilde, dispersa as nuvens da concupiscência, apaga o fogo da luxúria e acende a verdadeira luz da castidade.”

São João Crisóstomo: “O jejum é o apoio da nossa alma: nos dá asas para ascender no alto e para desfrutar a contemplação mais alta! […] Deus, como um pai indulgente, nos oferece uma cura pelo jejum.”

São Basílio ensinou que o verdadeiro jejum é afastar-se dos vícios, como a mentira, o orgulho e a vaidade.

São Pedro Crisóstomo afirmou que o jejum é a “alma da oração”, fortalecendo-a e tornando-a mais eficaz.

Segundo São Tomás de Aquino, o excesso de comida causa o “embotamento da mente”, onde a razão fica “adormecida”.

São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, considera que o ato de comer, embora seja uma necessidade humana, torna-se pecaminoso quando se desvia da razão e da moderação, podendo levar a outros vícios e pecados.


Efeitos do pecado da gula

Espirituais

A gula, como um vício capital, prejudica o progresso da alma nas virtudes e obscurece a consciência.

Físicos

O excesso consciente que causa doenças (hipertensão, diabetes, obesidade) ou desrespeita o próprio corpo é visto como pecado grave.


Conclusão: Tempo de jejum e conversão

Por isso a necessidade de controlar e aprender a fazer esta mortificação em nossa vida!  Ao termos controle da nossa boca e assim do nosso corpo, fica mais fácil vencer as tentações dos pecados. Acima de tudo da infidelidade a Deus em Seus mandamentos. Por tanto, é tempo de fazer jejum!

Não deve fazer jejum quem tem problemas de saúde física ou menores de idade, por recomendação médica. Podemos fazer alguma abstinência que nos ajudará também nesta graça.

Deus abençoe e bom jejum!