O que é o caminho de santificação?
O caminho de santificação é o percurso espiritual que conduz a alma à união com Deus. Santa Teresa de Jesus, a pedido de seus superiores, escreveu o livro Castelo Interior, no qual relata o caminho de santificação e os fenômenos de cada etapa percorrida.
Ela entende a alma como um castelo com várias moradas.
As primeiras moradas são aquelas que correspondem ao início da santificação e, conforme o progresso da santificação, progride-se para as moradas seguintes: o cume são as sétimas moradas.
As primeiras moradas do Castelo Interior
Para entrar nas primeiras moradas deste castelo, é necessário entrar em si mesmo. Mas o que significa isso?
Como pode alguém entrar em si mesmo?
Esse é o início concreto do caminho de santificação: o movimento de recolher-se interiormente para rezar. Veja o que ela diz:
“A porta de entrada desse castelo é a oração e a reflexão. Tanto faz que seja oração mental ou vocal. O que realmente importa para ser oração é que haja reflexão. Se não se atenta com quem se fala, o que se pede, quem pede e a quem pede, não chamo a isso oração, ainda que os lábios se movam muito. Se for, eventualmente, será porque se teve esses cuidados antes” (Castelo Interior – Primeiras Moradas, Cap. 1).
A necessidade do estado de graça
Contudo, Santa Teresa também chama a atenção para outra condição de acesso às primeiras moradas: a alma precisa estar em estado de graça. Ou seja, não pode estar em pecado mortal. Confira o que é narrado sobre a alma em estado de graça e pecado mortal:
“Quero lhes mostrar o que é feito desse castelo tão resplandecente e formoso, dessa pérola oriental, dessa árvore de vida plantada nas águas vivas da vida que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais medonhas, nada tão escuro e negro. Basta ver que até o Sol, que lhe dava tanto brilho e formosura, obscurece-se como se já não estivesse no centro da alma, muito embora ela seja ainda perfeitamente capaz de gozar de Sua Majestade, tanto como o cristal é capaz de refletir o sol. Contudo, nenhum auxílio divino alcança a alma em pecado mortal.” (Castelo Interior – Primeiras Moradas, Cap. 2)
Desse modo, além da vida de oração, é necessária uma vida sacramental, em especial a Confissão e a Eucaristia. A Confissão restitui na alma a graça outrora perdida, e a Eucaristia é o momento mais sublime para oração e crescimento na graça.
O perigo de abandonar o caminho de santificação
A alma afastada de Deus
A santa relata que existem pessoas que escolhem ficar do lado de fora do castelo, afastando-se do caminho de santificação e moldando sua vida ao pecado e às coisas deste mundo que escolhem o distanciamento de Deus:
“Há almas tão doentes e habituadas às coisas exteriores que parecem fadadas a nunca entrar em si mesmas. É tão arraigado o hábito de conviver com os vermes e as feras dos arredores do castelo, que se tornaram quase como eles.”
Esses são aqueles homens e mulheres afeiçoados ao pecado. A alma torna-se obscura, resistente à graça e preguiçosa para a virtude. A pessoa se acostuma ao que é malicioso, vil e baixo. Cria uma resistência na alma, comporta-se como os porcos, mistura-se na lama e adquire uma cervical incapaz de levantar a cabeça para o céu.
A rotina que esfria a vida espiritual
Não é difícil encontrar pessoas que, embora em algum momento da vida tenham se encontrado com nosso Senhor, hoje vivem esquecidas de Deus. Essas pessoas gastam horas no trabalho ou no lazer, horas e mais horas em frente ao celular ou computador, e fixam-se em qualquer outra coisa terrena que as entretenha. E, com tudo isso, não se interessam em nada do que é sagrado.
Há aqueles que até fazem alguma prática religiosa, como ir à Missa, rezar um Pai-Nosso. Mas rezam como corpos sem alma: são apenas repetições mecânicas, sem atenção, piedade e fé.
No fundo, estão fora do Castelo há muito tempo. Todos esses não se importam em recolher-se para rezar e confessar seus pecados diante do sacerdote. Que tragédia!
Há esperança na misericórdia de Deus
A parábola do filho pródigo
Alguém poderia se perguntar: há esperança de salvação para pessoas tão obstinadas em viver longe de Deus? Com toda certeza, sim.
Na parábola do filho pródigo, o jovem escolheu sair da casa do pai — local da intimidade —, partiu com sua herança para aproveitar as coisas deste mundo. Ele escolheu se afastar, mas, quando estava no auge da miséria, despertou:
“Tendo caído em si, disse: Quantos trabalhadores há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti” (Lc 15, 20).
O despertar da graça
Longe do pai, aquele jovem estava no fundo do poço e na pior condição de sua vida, cuidando de porcos e querendo comer a comida deles. Deus o visitou nessa condição indigna. A graça iluminou sua inteligência para que percebesse a condição em que se encontrava.
Muitas vezes, a pessoa em pecado mortal não tem ideia do que se tornou, e com esse jovem não era diferente. A graça nos faz enxergar a condição em que estamos e o horizonte da vontade de Deus para nós. Ali, naquele momento, o jovem começou a rezar e partiu para confessar seus pecados ao pai.
Quando a pessoa passa por essa experiência, é necessária perseverança na decisão de renunciar à vida de pecado:
“Logo compreende que não poderá encontrar melhor amigo, mesmo se viver muitos anos; que o mundo está cheio de falsidade; que os prazeres que o demônio lhe oferece estão repletos de tribulações, preocupações e contradições; que, certamente, não encontrará segurança nem paz fora desse castelo… e que está em suas mãos a decisão de não mais andar sem rumo como o filho pródigo, comendo ração de porcos.” (Segundas Moradas – Cap. único)
A vontade do Pai e o chamado à santidade
O Pai não quer que nenhum de seus filhos se perca. Nosso Senhor falou claramente pelo Evangelho de São João qual é a vontade do Pai:
“Ora, a vontade daquele que me enviou é que eu não perca nada do que me deu, mas que o ressuscite no último dia. A vontade de meu Pai, que me enviou, é que todo o que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (Jo 6, 39-40)
Jesus não se poupou para cumprir essa divina vontade. Agora cabe a cada um de nós ter fé n’Ele e segui-Lo até encontrá-Lo na sétima morada. Ele nos amou muito, e só podemos retribuir amando-O, avançando na santificação de cada dia.
Esse é o maior louvor que podemos dar ao Pai das Misericórdias: o louvor de uma vida santa. E tudo começa pela oração e vida sacramental.








