Jesus é o rosto misericordioso do Pai

Jesus declarou a Filipe “Quem me vê vê o Pai” (Jo 14,)

Deus foi e sempre será um mistério, por mais que nos esforcemos para saber quem é Deus, por mais que estudemos, por mais que cheguemos a algumas definições, ainda é pouco e sempre será pouco para dizer sobre Deus.
Conseguimos constatar pela leitura e estudo bíblico que Deus é Criador, ele fez todas as coisas do nada, fez o mundo, água e terra, sol e lua, plantas e animais… E criou o ser humano à sua imagem e segundo sua semelhança (Gn 1,26). Aqui há uma pequena luz sobre uma “forma” um “corpo” de Deus, o ser humano foi criado segundo a imagem e a semelhança do Criador.
Isso significa que o ser humano se parece com o divino. Teria o homem traços, contornos, físico como Deus?
Deus é um ser puríssimo, santo, poderoso, inalcançável, onisciente, onipotente… O homem é imagem e semelhança de Deus quando é santo, é puro, quando está na graça…
Ainda no livro do Gênesis temos a queda do homem, o pecado original. Infelizmente pecou, a criatura chamada a santidade, deixou de ser Sua imagem por causa do pecado, o pecado deforma, desfigura, “enfeia” o ser humano.
Quando o homem desobedeceu, quis ser Deus, quis ter poderes, ele deixou de ser semelhança do Criador.
O pecado original não fez com que Deus se afastasse do homem, foi o homem que se afastou de Deus.
Deus contou com muitos homens para fazer seus filhos voltarem a santidade original, os patriarcas, os profetas, homens e mulheres santos, mas também pecadores, limitados. Homens e mulheres que quiseram desistir, mas eram reanimados por Deus.
Os homens de Deus deram mais uma noção ou várias noções de quem era Deus, além de Criador era compassivo, misericordioso, lento na cólera (Ex 22,26b).
A imagem de Deus diante do povo melhorou, de um Deus castigador, bravo para um Deus mais amável do qual se poderia confiar e recorrer.
Foi através dos profetas que a promessa de um Messias, de um enviado divino, um Salvador começou a gerar uma expectativa nos mestres da lei e do povo escolhido. O Messias iria dar um jeito no caos, pois não haveria mais fome nem sede (Is 49,10), iria estabelecer a justiça (Is 42,4), os adversários seriam punidos porque o Libertador haveria de chegar (Is 59,20), o povo iria ver a ira de Deus contra os adversários.
Após essas imagens de um Deus que viria libertar, estabelecer a justiça, punir os pecadores, na verdade a imagem divina ainda era obscura. Contudo, infelizmente, não só a imagem de Deus estava obscura, mas estava também distante e o pior o grande mal, o pecado, impunha uma grande barreira ou um precipício entre Deus e os homens entre os homens e Deus.
Assim, na plenitude do tempos (Gl 4,4) Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher, o Verbo se encarnou e habitou entre nós (Jo 1,14). Jesus é o Filho do Homem, é o Filho predileto, Filho amado no qual o Pai põe seu agrado. O Pai dá o Filho para salvar a humanidade, o Pai sacrifica o Filho por amor, o Pai e o Filho são um, por isso “quem me vê vê o Pai”.

“O Rosto de Cristo” de Rupnik

Jesus revelou o Pai com suas atitudes, com seus gestos e palavras. Quando os discípulos pediram para ensinar a rezar, Jesus ensinou chamar Deus de Pai. Aos poucos a imagem de um Deus distante foi sendo eliminada. Em outras palavras Jesus quis dizer, na oração do “Pai Nosso” que assim quer ser tratado, mais como Pai do que senhor, senhor no sentido duro, opressor, desse jeito não, Ele é Pai.
Jesus ensinou os discípulos a chamar Deus de Pai e revelou o Pai em atitudes bem concretas. Deus é Pai, é amigo e é bom estar com Ele, Jesus passou a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Deus é um pai misericordioso (Lc 15,11-32), sobretudo nessa parábola destaca-se Deus-Pai que é tão pai que educa na liberdade, não oprime o filho nem o repreende quando quis sair de casa. Deus se revelou um pai esperançoso, estava na expectativa da volta do filho. Deus é um pai pródigo em misericórdia, em acolhida, correu ao encontro do filho, foi pródigo “gastou” amor para com o filho. Deus é pai que perdoa, não quis saber das palavras do filho, pois o seu gesto de voltar valia mais do que “mil palavras” que sempre esperava o filho voltar.
Na passagem do Pai misericordioso está o resumo do ministério de Jesus, sua missão foi de revelar o Deus Pai. Tudo o que Jesus fez foi para salvar e em cada gesto, cada olhar, cada palavra, Jesus fez em obediência ao Pai. É possível constatar essa verdade quando ele curou as pessoas, devolveu a vista, fez muitos voltar a andar, quando perdoou, enfim foram e são ações misericordiosas que Jesus realizava em união com o Pai “meu Pai trabalha eu também” (Jo 5,17). Cada pecador era (e é) merecedor do amor do Pai, da acolhida, da festa, da nova chance dada pelo pai da parábola, foi a vida de Jesus.
Por fim a vida e o ministério de Jesus revelou um Deus que é Pai e Misericórdia. Não tenhamos medo de ler os Evangelhos, de tomar posse que aquilo que Jesus fez naquele tempo ele continua a fazer hoje. Podemos e devemos saber e nos dispor e nos colocar na presença de Deus, nos coloquemos diante do Pai, não um pai castigador, um patrão cruel, mas um Pai que ama, abraça, perdoa e dá uma nova chance.
Padre Marcio Prado
Vice-reitor do Santuário do Pai das Misericórdias