Os tempos são maus. Sejamos amigos de Jesus.
Os tempos são maus. Isso porque, cada vez mais nos deparamos com as investidas do Maligno contra as nossas vidas, as nossas famílias, contra os jovens, contra a Igreja. Cada vez mais temos, diante de nossos olhos, um cenário exposto nos meios de comunicação social, a perversidade da descristianização, ou seja, o ódio e o esvaziamento das coisas sagradas, e até mesmo contra a Pessoa de Jesus. Por isso os tempos são maus, e mais explícito o seguimento daqueles que se comportam como inimigos da Cruz de Cristo.
Isso porque, desde sempre, a Cruz é motivo de escândalo! A proposta de Jesus, de deixar tudo, tomar a nossa cruz e segui-Lo, ainda é escandalosa em nossos tempos, e não somente no tempo de Cristo. Escandalosa porque revela o sofrimento, e não sabemos ainda lidar com ele. O que temos é uma cultura, um discurso que, insistentemente, quer nos afastar do sofrimento fecundo que gera vida e conversão. Por isso, remando contra a maré da mentalidade atual, sejamos sinais fecundos de vida, como estes que aceitaram de bom coração, serem amigos da Cruz de Cristo.
- Tudo ganhamos por causa de Cristo
É belo e forte, ao mergulharmos nas palavras de São Paulo na Carta aos Filipenses, quando ele declara que tudo ganhou por causa de Cristo. Nada se compara ao valor incalculável, que é dar a vida por Jesus e a Ele se configurar:
“Mas essas coisas, que eram ganhos para mim, considerei-as prejuízos por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo, que é o conhecimento do Cristo Jesus. Por causa dele, perdi tudo e considerei tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele.” (Fl 3,7-9a)
São Paulo declara que não há nada melhor, mais forte e mais seguro, quando trocamos tudo pelo Tudo, por Nosso Senhor. Ele mesmo se coloca como exemplo, quando outrora era escravo das coisas do mundo, ou na sua linguagem, escravo das coisas da carne. E o Apóstolo afirma:
“Os verdadeiros circuncidados somos nós, que prestamos culto movidos pelo Espírito de Deus, colocamos nossa glória no Cristo Jesus e não confiamos na carne.” (Fl 3, 3)
Esse é o empenho do inimigo de Deus. Usar de todos os meios para que, aqueles que encontraram o verdadeiro sentido da vida, sejam seduzidos e desistam de viver o caminho com Cristo, o caminho contrário à carne. Isso porque o mesmo São Paulo também afirma, na Carta aos Gálatas, que não há compatibilidade de duas vidas no mesmo lugar, ou seja, uma vida na carne e uma vida no Espírito. É preciso escolher pelo Cristo, ou seja, rompendo com a vida velha, assumir a vida nova no Espírito. E o apóstolo continua dizendo:
“É assim que eu conheço a Cristo, a força da sua Ressurreição e a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante à ele na sua morte, para ver se eu chego até a Ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito. Mas continuo correndo para alcançá-lo, visto que eu mesmo já fui alcançado pelo Cristo Jesus.” (Fl 3, 10-12)
O profundo desejo do coração de São Paulo era conhecer o Cristo. Não um conhecimento intelectual, racional, apenas. Mas sim um profundo desejo de se configurar ao Mestre, principalmente renunciando o que ficou para trás, com tudo o que a vida velha comportava. Pois aqueles que encontraram o Cristo, compreenderam que tudo era prejuízo, e maior o lucro de tudo deixar pelo Senhor. É difícil, porque a mentalidade que reina não permite compreender e muito menos assumir esta vida que Jesus nos propõe. Ainda mais quando o elemento que norteia a vida daqueles que assumiram a vida nova em Cristo, é o sofrimento. São Paulo mesmo afirma acima o seu desejo de comungar dos sofrimentos de Cristo, para se tornar semelhante a Ele na sua morte, para alcançar a ressurreição.
- O sofrimento que nos faz amigos da Cruz
Humanamente falando, ninguém quer sofrer. Se formos escolher, vamos sempre buscar o caminho mais cômodo, mais confortável, mais rápido e que não nos exige. Contrariando esta lógica, Jesus declara como deve ser o caminho daqueles que desejam verdadeiramente segui-Lo: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me.” (Mt 19,21)
Este é o caminho de perfeição que o mundo não conhece, o caminho do despojamento, o caminho da Cruz de Cristo, que os seus contemporâneos não compreenderam, e que nós corremos o risco de também não compreender. Por isso, muitos voltam atrás, comportam-se como inimigos da Cruz, principalmente aqueles que um dia fizeram a experiência de encontro pessoal com Jesus. É um caminho exigente, ardoroso, mas que requer da nossa parte liberdade e empenho para trilhar. Esse foi o caminho escolhido por São Paulo, e continua a nos falar: “Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber no Cristo Jesus.” (Fl 3,13-14)
O prêmio é o Céu, é a eternidade, e não podemos paralisar, principalmente quando as realidades da vida, ou até mesmo as tentações do inimigo se levantam diante de nós para nos fazer desistir, voltar atrás, e tomar de volta aquilo que da vida velha já havíamos deixado. E, nesse processo, o Senhor se utiliza dos sofrimentos, que Ele mesmo assumiu por conta de nossa salvação, para que sejamos forjados e preparados para o Grande Dia de nosso encontro definitivo com Ele.
Esse é o verdadeiro e profundo sentido do sofrimento humano, e que, infelizmente, nessa hora, muitos não aceitam, se revoltam, e se comportam como inimigos da Cruz do Senhor. O Catecismo da Igreja nos afirma: “Comovido com tantos sofrimentos, Cristo não apenas se deixa tocar pelos doentes, mas assume suas misérias: Ele levou nossas enfermidades e carregou nossas doenças. (…) Por sua paixão e morte na Cruz, Cristo deu um novo sentido ao sofrimento, que doravante pode configurar-nos com Ele e unir-nos à sua paixão redentora.” (CIC 1505)
Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, quis assumir a nossa condição miserável de sofrimento, e isso o levou para dar sua vida na Cruz. E porque não então, por amor a Ele, nos permitir também viver o sofrimento? Não se trata de masoquismo, ou seja, gosto pelo sofrer, ou sofrer por sofrer. Trata-se de assumir o sofrimento como condição para nossa santificação, purificação, e mais ainda, pelo sofrimento, somos configurados ao Cristo.
- Carta aos amigos da Cruz
Ao compreender que o mais importante é buscar se unir aos sofrimentos de Cristo, como um caminho de conversão e santidade, São Paulo declara:
“(…) há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso. Apreciam só as coisas terrenas!” (Fl 3, 18b-19)
São estes que se perderam do essencial, daquilo que não passa, que infelizmente se comportam como inimigos da Cruz de Cristo. São aqueles apegados ao poder, ao dinheiro, ao status, aos próprios conceitos meramente humanos, que se permitem corromper e que, aos poucos, vão se distanciando d’Aquele que precisa ser o centro de nossa vida, Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao mesmo tempo, o mundo insiste em nos apresentar a todo custo a fuga dos sofrimentos. Como já ressaltado anteriormente, não que devemos provocar os sofrimentos, buscar viver sofrendo em vão. Mas é preciso aceitar o sofrimento, quando ele se apresenta em nossa vida, como um meio pelo qual o Senhor nos permite crescer como homens e mulheres de fé, esperança e têmpera.
Nesse sentido, São Luís Maria Grignion de Montfort, nos deixou uma pérola que vale a pena ser meditada. O livro Carta aos amigos da Cruz. Acolhamos em nossos corações estas belas palavras do santo:
“Amigos da Cruz, vocês são como cruzados unidos na batalha contra o mundo, não como religiosos que fogem do mundo a fim de que não sejam submetidos, mas como bravos e valentes guerreiros no campo de batalha, que se recusam a se retirar ou mesmo recuar uma polegada. Sejam bravos e lutem corajosamente. Vocês devem se juntar em uma união íntima de mente e coração, que é mais forte e bem mais formidável contra o mundo e as força do inferno daquele que é o exército de uma grande nação inimiga. Malditos espíritos estão unidos para destruí-los; vocês devem ficar unidos para esmagá-los. Os avarentos estão unidos para fazer dinheiro e acumular ouro e prata; vocês devem combinar seus esforços para adquirir tesouros eternos escondidos na Cruz. Os que procuram o prazer unem-se para se regozijar, vocês devem ficar unidos para sofrer.”
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Enquanto os inimigos da Cruz se preocupam com as honras e riquezas do mundo, nós, os amigos da Cruz, devemos nos empenhar em buscar os tesouros da Cruz, e a via é, sem dúvida, a vivência serena nos momentos de dor e sofrimento, nos momentos de privações e provações. Este é o caminho delineado por São Paulo nos textos acima elencados, e que nos impulsionam a buscar a perfeição na vontade do Senhor. Por fim, fiquemos com mais estas palavras de São Luís de Monfort:
“Vocês se chamam a si mesmos de ‘Amigos da Cruz’. Que título glorioso! Eu devo confessar que eu fico encantado e cativado com isso. É mais radiante que o sol, mais alto que os céus, mais magnífico e resplandecente que todos os títulos que dão aos reis e imperadores. É o glorioso título de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É o genuíno título de um Cristão. Mas, se eu fico cativado pelo seu esplendor, eu não fico nem um pouco assustado pela sua responsabilidade, porque é um título que abraça dificuldade e obrigações inescapáveis, somadas nas palavras do Espírito Santo, ‘uma raça escolhida, um sacerdócio real, um povo separado’. Um Amigo da Cruz é alguém escolhido por Deus, dentre milhares que vivem somente de acordo com sua razão e juízo, para ser completamente divino, erguido sobre a simples razão e completamente oposto às coisas materiais, vivendo na luz da pura fé, e inspirado por um amor profundo à Cruz.”
Que Deus nos conceda a graça de sermos autênticos amigos da Cruz de Nosso Senhor. Assim seja.
Deus abençoe você.
Padre Leonardo Ribeiro do Nascimento
Comunidade Canção Nova
Fontes:
BÍBLIA Sagrada CNBB. 10ª ed. São Paulo: Edições CNBB/ Editora Canção Nova, 2010.
CATECISMO da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Carta aos Amigos da Cruz. 9ª ed. São Paulo: Cléofas, 2024.