Gratidão

A quem muito se ama, muito se perdoa

O Catecismo da Igreja Católica, no número 1849, define o pecado como: “uma falta contra a razão, a verdade, a reta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como «uma palavra, um ato ou um desejo contrários à Lei eterna»”.

Então, como pode-se afirmar que aquele que mais peca é aquele que mais ama? Não seria isso extremamente contraditório se o pecado é, de certa forma, uma traição ao Amor de Deus por nós?

No Evangelho de São Lucas, em determinado momento de Sua vida, Jesus está na casa de um fariseu quando vem até ao encontro d’Ele uma mulher que, diante de todos, numa profunda demonstração de amor, quebra um vaso de perfume caro e o derrama sob os pés de Jesus, enxugando-os com os próprios cabelos. O fariseu fica perplexo com a aparente falta de atitude de Jesus, dado o fato de que aquela mulher era uma grande pecadora pública. Jesus então lhe diz:

“Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. 45Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. 46Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume. 47Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor” (Lucas 7, 44-47).

Aquela mulher havia sido perdoada de muitos pecados e, por isso, desenvolveu-se no seu coração uma gratidão profunda, que fazia queimar em si um desejo de retribuição: “Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que Ele fez em meu favor?” (Salmo 115).

Em sua simplicidade, encontrou resposta a essa pergunta no gesto de derramar no Senhor aquilo que ela tinha de melhor e mais valioso. Era a expressão de uma verdadeira experiência de encontro pessoal com Cristo.

A pessoa que se encontrou de fato com Nosso Senhor tem consciência de que muito lhe foi perdoado, de que muito fez o Senhor ao seu favor e, inevitavelmente, sente um desejo de retribuir àquele que tanto lhe fez bem.

“Temos com Deus uma dívida, que só se pode pagar através do Amor para com Ele mesmo.” | Foto ilustrativa: cancaonova.com

A verdadeira experiência de Amor a Deus é a de quem se reconhece como alguém perdoado e que sente necessidade de Amar de volta aquele que lhe perdoou. Não é incomum constatarmos na história da Igreja que grandes pecadores se tornaram grandes santos, temos tão claro o exemplo de Santo Agostinho que, após muitos anos de uma vida devassa, se converteu e se tornou um dos maiores santos da Igreja. Por que não há de ser assim conosco?

O perdão é a forma mais forte de se construir um laço de amor, e de forma muito mais significativa é o perdão divino. Quem mais é perdoado mais necessidade sente de amar, não porque se lhe impõe uma obrigação, mas porque se apaixona por aquele que lhe perdoou. Foi assim com a mulher do Evangelho, foi assim com São Paulo, que passou de perseguidor da Igreja à apóstolo de Cristo, precisa ser assim comigo e com você.

Nossa história marcada por tantos pecados, nossas misérias e nossos erros, ao invés de nos colocar para baixo, deve nos impulsionar para amar cada vez mais a Deus e aos irmãos. Temos com Deus uma dívida, que só se pode pagar através do Amor para com Ele mesmo.

Kaique Duarte
Seminarista da Comunidade Canção Nova

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